quarta-feira, 1 de julho de 2015

Esquerda que "namora" Chico Xavier abre caminho para a direita

JOVENS DE MOVIMENTOS DIREITISTAS SE REUNIRAM NA SEMANA PASSADA NA CÂMARA DOS VEREADORES, NO RIO DE JANEIRO.

A estranha atitude da esquerda em cortejar Francisco Cândido Xavier, mesmo quando ele nunca foi mais do que um religioso direitista e um caipira conservador, é bastante conhecida e não é recente. Periódicos de esquerda publicavam textos de "espíritas" reacionários defendendo Chico Xavier diante do escândalo das denúncias do sobrinho Amauri Pena, em 1958.

Havia até mesmo as famigeradas críticas às Organizações Globo, por causa da presença de católicos ortodoxos do porte de Gustavo Corção. Mas, mesmo quando a empresa da família Marinho decide apoiar Chico Xavier, vide as novelas "espíritas" e os filmes do gênero pela Globo Filmes, o esquerdismo demonstra total complacência com o anti-médium.

Na entrevista ao programa Pinga Fogo, da TV Tupi de São Paulo, em 28 de julho de 1971, Chico Xavier literalmente esculhambou os movimentos sociais e ainda atacava o ex-presidente João Goulart, então exilado, numa época em que parte da direita já havia passado para a oposição ao regime militar.

1971 era o ano dos assassinatos do guerrilheiro Carlos Lamarca e do deputado do PTB paulista, Rubens Paiva - pai do jornalista, escritor e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva - e vigência do Ato Institucional Número Cinco, que permitia à ditadura militar cometer seus abusos na repressão, censura e violência.

Mesmo assim, Chico Xavier afirmava, na época, que os militares estavam preparando o "reino de amor" do Brasil futuro e pedia para que oremos "em favor" da ditadura militar, então conhecida como Revolução. Que "reino de amor" é esse que se monta com o sangue dos inocentes é algo que não dá para entender.

BLOGUEIRA RECLAMAVA DE OMISSÃO DA MÍDIA AO FILME SOBRE CHICO XAVIER PATROCINADO... PELAS ORGANIZAÇÕES GLOBO!

E difícil de entender é esse cortejo das esquerdas à figura de Chico Xavier. Será a necessidade de algum contraponto a católicos e evangélicos de visão obscurantista? Ou será a habitual condescendência que faz com que Chico seja inocentado de seus próprios erros, mesmo os mais propositais?

Sabe-se que Chico Xavier é o único indivíduo cujos seguidores acreditam não precisar responder pela culpa de seus próprios erros. Há sempre a desculpa de atribuir os erros de Xavier à influência de outro alguém, mesmo quando os erros foram claramente feitos por decisão do anti-médium mineiro.

Há até mesmo, entre aqueles que contestam as deturpações do "movimento espírita", que acreditam na fantasiosa tese de recuperar as bases de Allan Kardec aproveitando Chico Xavier, descartando somente algumas obras das séries André Luiz e Emmanuel, como se somente elas é que apresentassem o pior do anti-médium mineiro.

E aí vem as esquerdas e tratam Chico Xavier como se tivesse sido "ativista" e "progressista", mesmo quando vemos que suas frases glamourizam o sofrimento e condenam claramente o ativismo social - que Chico acreditava ser fontes de tantos "dissabores" - e o raciocínio quesitonativo, recomendando apenas o conformismo e o "silêncio da prece".

Uma blogueira que se declara comunista (qualidade reprovada por Chico Xavier) chegou mesmo a afirmar, com certa ingenuidade, que a mídia "está OMITINDO" (grifo dela) a divulgação do filme As Mães de Chico Xavier.

Entende-se como "a mídia" veículos como a Rede Globo e o jornal O Globo. O que a blogueira não conseguiu entender, apressadinha em ver o sucesso imediato do filme, é que As Mães de Chico Xavier teve o apoio promocional da Globo Filmes, que pouco depois da reclamação da moça foi divulgar devidamente o filme, que não tardou a ser exibido pela Rede Globo.

DIREITA BRASILEIRA, SOBRETUDO A CARIOCA

Aí, diante de choradeiras como essa, a direita tem seu caminho aberto pelos erros das esquerdas, que vão desde as alianças políticas e empresariais suspeitas do Partido dos Trabalhadores até o acolhimento dos esquerdistas a uma intelectualidade cultural de centro-direita dotada de uma visão estereotipada de cultura popular com valores mercadológicos e discurso pseudo-modernista.

A direita brasileira se aproveita desses erros para se autoproclamar "mais racional", mesmo com pontos de vista surreais como acusar as escolas públicas brasileiras de serem meros cursos de marxismo.

Se os professores, em suas condições precárias, mal conseguem ensinar suas matérias comuns pela remuneração precária aliada à sobrecarga horária (precisam trabalhar mais para ganhar mais salários), eles muito menos teriam condições de encarar os volumes de O Capital e muito menos os livros de Lênin e Trotsky que muito provavelmente nossos professores desconhecem completamente.

Paranoias à parte, a direita brasileira começou tímida há dez anos, fingindo falso esquerdismo enquanto disparava seu reacionarismo apenas para defender valores da cultura e do entretenimento impostos pela grande mídia corporativa, enquanto faziam de conta que "adoravam" Che Guevara, Hugo Chaves e intelectuais brasileiros como Emir Sader.

Nessa época, adotavam também algumas posturas políticas estranhas como a falsa abstenção em relação ao economista conservador Roberto Campos, a aparente omissão em relação aos abusos da grande mídia e a defesa entusiasmada da eleição do ex-presidente Fernando Collor ao Senado.

Depois, abandonaram a máscara "centro-esquerdista", assim que Dilma Rousseff foi eleita - eles tinham receio de confrontar com o então forte carisma do então presidente Lula - para adotarem um direitismo histérico, assumindo sua oposição a Lula e deixando assumir posturas como o apoio a ativistas de direita como a cubana Yoani Sanchez e o anti-petismo doentio.

É verdade que a direita brasileira se ascende em todos os Estados, sobretudo no Sul e Sudeste, com maior visibilidade entre os paulistas e maior radicalismo entre os gaúchos. Mas no Estado do Rio de Janeiro, que vive atualmente um surto neo-coronelista e uma onda de provincianismo preocupante, o direitismo torna-se um fenômeno ainda mais atuante.

Pois é através dos cariocas que se expressam, nas mídias sociais, as piores campanhas reacionárias nas mídias sociais. Além da defesa do "estabelecido" referente à cultura, entretenimento, política, mobilidade urbana, fora valores racistas e até belicistas, eles agem com agressividade, partindo para a humilhação contra os discordantes, entre gozações e ameaças.

Eles chegam ao ponto de combinarem com outros internautas campanhas maciças de desmoralização nas mídias sociais, com a veiculação em grande quantidade de mensagens irônicas e ofensivas, além de alguns mais afoitos produzirem blogues de ofensas em que se apropriam até de textos e imagens das vítimas que são reproduzidas de forma difamatória e caluniosa.

Tais campanhas são feitas em defesa do que vai desde valores culturais estabelecidos pela grande mídia até decisões impostas por políticos e tecnocratas poderosos, mas podem incluir também comentários racistas, homofóbicos e até ofensas pessoais gratuitas.

INTERVENÇÃO MILITAR

A direita bagunceira da Internet chega mesmo a gracejar quando algum internauta a define como direitista. "Huahuahua" ou "kkkkkkk" são as reações mais comuns, além de respostas como "você é que pensa assim, seu comuna!", revelando o caráter agressivo desses internautas, ilustrando o perigo das forças golpistas do país através desses encrenqueiros digitais.

Eles desmoralizam desde ativistas sociais a qualquer pessoa que divulgue alguma visão questionadora na Internet. Despejam comentários racistas, machistas, moralistas, mesmo quando temperados por pesadas ironias combinadas com grupos de internautas e seus fakes (espécie de alter egos digitais).

Não gostam que mexam no "estabelecido", seja uma gíria chamada "balada" ou a visão dominante de que a "boazuda" siliconada é o paradigma da nova mulher brasileira. Defendem da privatização das universidades às pinturas padronizadas nos ônibus com a mesma fúria reacionária e caluniadora.

Seus ídolos acabam se revelando: Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Luciano Huck, Jair Bolsonaro, Rachel Sheherazade. Alguns mais sutis deixam cair a máscara de "simpatizantes do PT" para pedir prisão perpétua para o ex-presidente Lula e a saída de Dilma Rousseff da presidência da República.

Há os mais exaltados que defendem a intervenção militar, revivendo o antigo movimento golpista que resultou na longa ditadura militar. E várias organizações formadas para articular o direitismo são, a exemplo do antigo IPES, o "instituto" que pediu a instauração da ditadura, financiadas pelo capital norte-americano e pelos estrategistas da CIA.

É o mesmo golpismo que foi defendido pelo "bondoso" Chico Xavier. O mesmo Chico que as esquerdas tão ingenuamente cortejam, iludidos com seus estereótipos ligados à inocência caipira, à velhice, à pobreza e à humildade. Acabam sucumbindo às contradições que abrem caminho para a direita reacionária à qual Chico pediu para que orássemos em favor.

Coisa maluca, essa. E há quem acredite que o Brasil irá comandar o mundo diante desse quadro surreal das esquerdas que apoiam um direitista e cometem erros que permitem a ascensão da direita que esse mesmo direitista religioso pedia para que amássemos. Isso está mais para Febeapá do que para Coração do Mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.