domingo, 31 de janeiro de 2016

O disparate da visão "espírita" sobre realidade cultural

MR. CATRA, AO LADO DE CARRO IMPORTADO - Funqueiro é tido por muitos como um dos "maiores nomes" da música brasileira na atualidade.

Há um grande disparate entre a visão otimista do "movimento espírita" quanto à cultura musical brasileira e a realidade degradante que vivemos nas últimas décadas. Enquanto os "espíritas" garantem que prevalecerá a "alta cultura", o que se observa é a degradação avançando a níveis extremos e ocupando espaços que antes eram para expressões de qualidade.

Vendo as fantasias dos "espíritas", observa-se que muitos deles ainda sonham com Carlos Gomes regendo orquestras e o coral de meninos Canarinhos de Petrópolis cantando letras edificantes e mensagens fraternais.

Certo, muitas dessas concepções de "alta cultura", incluindo a musical, remetem aos anos 1940, a obras como Nosso Lar, de Francisco Cândido Xavier, Recentemente, o jornal roustanguista Correio Espírita mostrou, como ilustração para seu texto sobre "espiritismo e arte musical", uma imagem de um piano e um violino.

Descontando apropriações de espíritos de músicos prematuramente falecidos - os mortos precoces teriam sido um fetiche de Chico Xavier - , de Noel Rosa a Cássia Eller, associados a culturas mais populares e informais, a perspectiva "espírita" da "alta cultura" musical não vai além do eruditismo sinfônico que acreditam ser a "música elevada do país coração do mundo".

A realidade musical que o Brasil vive hoje e que, pelo intenso lobby dos empresários envolvidos, está longe de se encerrar, contraria toda essa visão otimista e um tanto surreal e ultrapassada, como se "arte superior" fosse necessariamente uma questão de haver orquestras sinfônicas ou filarmônicas e corais de crianças com letrinhas de mensagens igrejistas sobre "amor e solidariedade".

Os nomes atuais da música brasileira que atingem o grande público expressam o quanto o país está mergulhado num cenário de futilidade, mediocridade e oportunismo cuja gravidade boa parte da sociedade brasileira não consegue compreender.

CENÁRIO DESOLADOR

É só observar os nomes: Wesley Safadão, Mr. Catra, Lucas Lucco, Valesca Popozuda, Mulher Melão, Anitta, Ludmilla, MC Guimê, Bruno & Barretto, Psirico, Munhoz & Mariano, Marcos & Belutti, Turma do Pagode, Ferrugem (não confundir com o homônimo garoto-propaganda dos sapatos Ortopé), Mumuzinho, MC Duduzinho, Luan Santana.

E isso para não dizer os veteranos que, com uma "cosmética" visual, técnica e publicitária, são enganosamente creditados como "nova MPB" e que corresponderam à mesma breguice que azucrina as ondas radiofônicas e os toca-CDs do Brasil inteiro: Bell Marques, Chitãozinho & Xororó, Belo, Alexandre Pires, É O Tchan, Zezé di Camargo & Luciano, Ivete Sangalo, Grupo Molejo, Aviões do Forró, Harmonia do Samba, Calcinha Preta, DJ Marlboro, Luiz Caldas e Raça Negra.

Se os bregas dos anos 90 passaram a ser vistos como uma (falsa) MPB, só porque passaram a vestir boas roupas e passaram a se apresentar com "mais profissionalismo", então o cenário musical brasileiro está desolador. A chamada MPB autêntica, que antes chegava a atingir o grande público pelos festivais da TV nos anos 1960, hoje está perdendo até os poucos espaços que lhe restam.

Recentemente, o Museu de Arte Moderna, do Rio de Janeiro, que deveria ser reservado para atrações musicais emergentes de qualidade - aspirantes a novos artistas de MPB não faltam, mas lhes falta espaço para a mínima divulgação a um público menos "específico" - , se vendeu para o mercado do jabaculê ao contratar o cantor de "pagode romântico", Belo, para uma apresentação dias atrás.

Essa degradação musical dos ídolos "populares" - cuja categoria os especialistas definem como "brega-popularesco", que agrupa o comercialismo musical brasileiro simbolizado pelos "sucessos do povão" - torna-se uma ameaça à sobrevida do rico patrimônio musical brasileiro, que, quando muito, se restringe a pastiches e arremedos de qualidade inferior e sem compromisso com a transmissão de conhecimentos e valores sócio-culturais.

"FUNK" ABORDA CLASSES POPULARES DE FORMA CARICATA

Não, não é calúnia nem clamor moralista. Afinal, um exemplo dessa degradação está no "funk carioca", cuja baixa qualidade sonora (nem se pode dizer musical) e cujo valor artístico-cultural bastante duvidoso são camuflados por uma engenhosa retórica de intelectuais, acadêmicos, jornalistas e celebridades, expressa essa situação degradante.

O ritmo está associado à apologia dos mais baixos valores sociais e morais das classes populares. O "funk" explora, de maneira caricatural, as populações pobres, descritas como um bando de consumistas e libertinos. Os defensores do "funk" falam tanto em "combater o preconceito", mas se apoiam em visões bastante preconceituosas em que há sutis apologias ao machismo e ao racismo contra negros, devido à imagem pejorativa da mulher em geral e do homem negro.

A mulher, de qualquer raça, é restrita a uma mercadoria de consumo, a um objeto de culto erótico pelo público masculino, que não faz outra coisa senão exibir seu corpo aqui e ali, quando até em aeroportos ou mesmo em cerimônias de velório a mulher fica se "sensualizando", muitas vezes sem necessidade e até quando não deveria fazê-lo.

O homem negro, através do "funk", é visto como uma pessoa agressiva, às vezes um tarado, em outras um consumista, ou, na melhor das hipóteses, como um falso ativista que distorce os conceitos de negritude em prol da resignação com sua pobreza e ignorância, exigindo das elites um "reconhecimento social" que não tem pé nem cabeça.

Como outros ritmos da chamada "música do povão", o "funk" revela o lado oculto dessa "cultura popular demais": a intervenção de um poderoso empresariado que a cada vez se torna um dos mais ricos e influentes do Brasil.

EMPRESÁRIOS DO ENTRETENIMENTO "POPULAR" SÃO MUITO RICOS

Associados a um padrão de entretenimento consumido pelas classes populares em todo o país, os empresários de entretenimento "popular", que sustentam não só ídolos musicais mas também as chamadas "boazudas" e os locutores de programas policialescos, estabelecem um lobby que vai desde empresas multinacionais até universidades brasileiras.

Sim, aquilo que as pessoas acreditam, até pela intoxicação mental trazida pela grande mídia e por uma parcela de intelectuais influentes, que é "cultura das periferias" é, na verdade, um engodo tramado e difundido por uma minoria de empresários, que podem até ter tido origem pobre e nascido em regiões interioranas ou no Norte-Nordeste, mas hoje estão tão ricos que falam de igual para igual com grandes proprietários de terras (muitos desses empresários também são latifundiários).

Essa "cultura popular" não tem qualquer relação autêntica com os ritmos populares originais e as tentativas de transformar o "funk" em "patrimônio cultural", de forma risível e confusa e feita através de um lobby político entre a APAFUNK (entidade ligada ao "funk carioca") e o PMDB carioca, só mostraram a falta de relevância cultural de tendências marcadas pelo comercialismo e por diversas mentiras (como a inclinação para factoides e propagandas enganosas).

O próprio "funk" nunca passou de uma armação de DJs que, de tão ricos, viraram empresários gananciosos, e que montaram esse discurso de "movimento social" com executivos das Organizações Globo e do jornal Folha de São Paulo, e o título de "patrimônio cultural" seria tão somente uma maneira do mercado funqueiro arrancar verbas estatais através da Lei Rouanet.

A Lei Rouanet, aliás, está transferindo grandes somas de dinheiro para nomes musicalmente inexpressivos, em detrimento de manifestações culturais autênticas de diversos matizes (o teatro brasileiro, por exemplo, reclama por estar à margem das verbas públicas).

Só para sentir o drama, um grande investimento foi destinado a um inexpressivo grupo musical, o Tchakabum - que revelou a dançarina Gracyanne Barbosa, esposa de Belo - , que musicalmente é oco e indefinido, mais parecendo um confuso conjunto de axé-music surgido no Rio de Janeiro.

Os próprios ídolos musicais popularescos já se tornam ricos, não raro aparecendo comprando fazendas, carros importados, viagens ao exterior e tudo o mais. Deturpando as conquistas sócio-econômicas que deveriam haver para a população pobre, os ídolos popularescos exaltam o supérfluo e valorizam o consumismo em detrimento da cidadania e da qualidade de vida.

Eles se tornam mais burgueses do que a "insuportável elite" da MPB que um dia brilhou nos festivais da TV. Mesmo os bossanovistas, acusados de serem "aristocratas", não são tão ricos quando funqueiros, axézeiros e nomes do "forró eletrônico".

Se alguém observar um dueto entre um nome da MPB ou do Rock Brasil com um ídolo popularesco - como Zé Ramalho com Chitãozinho & Xororó e Titãs com Mr. Catra - , não é o "ídolo do povão" que luta por um espaço e se alia à "alta cultura", mas é o artista de MPB e Rock Brasil que cumpre uma obrigação profissional para ver se apresenta em cidades do interior, cujos mercados são dominados pelo riquíssimo empresariado dos "sucessos do povão".

E é assim que afunda a cultura brasileira, já que o gosto musical e os valores sócio-culturais duvidosos, que o povo pobre hoje aprecia e que já chegam à adesão de setores de classe média e mesmo de universitários, são na verdade decididos por uma minoria de homens muito ricos, independente da origem pobre que tiveram, superada por uns milhões de reais.

E é lamentável que esse lobby parece tão poderoso que o empresariado do entretenimento "popular" é capaz de tudo, até tirar um cantor canastrão do ostracismo através de factoides ou simplesmente comprar o divórcio de uma mulher siliconada que, parecendo viver feliz com seu marido, se separa da noite para o dia e se transforma em "solteiríssima" para alimentar o mercado das fotos "sensuais" neste verão.

Com isso, as classes populares sucumbem a um processo viciado de apreciação de valores pitorescos, grotescos, piegas, sensacionalistas e tudo o mais de leviano, enquanto são impedidos de progredirem como seres humanos e superar a pobreza financeira não com qualidade de vida, mas com consumismo e falsos luxos sem muita importância.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Por que o Brasil insiste em ser contraditório?


As pessoas não conseguem entender o sentido da obra O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde), obra de 1886 escrita por Robert Louis Stevenson. Mais do que retratar a perversidade humana por trás de um pacato médico, o livro, na verdade, é uma alegoria da contradição humana em geral.

A obra fala muito ao Brasil, que se apega numa mania de contradições diversas. O Brasil insiste em ser um país que parece uma coisa e pratica outra. Em vários e vários e vários aspectos. E é isso que faz o país que sonha em comandar o mundo sucumbir à sua grave crise, seja econômica, existencial, moral, cultural etc.

Se o "movimento espírita", com seu roustanguismo muito praticado e nunca assumido, enquanto seus praticantes juram falsa fidelidade a Allan Kardec, reflete suas contradições internas e doutrinárias diversas, isso é, na verdade, um entre tantos exemplos de um quadro geral de um país que teima em querer ser desenvolvido mantendo seu subdesenvolvimento.

Culturalmente, temos mil exemplos de como as contradições norteiam, isto é, desnorteiam o país, e viciam os corações e mentes dos brasileiros, que ainda mantém como "heróis" figuras vindas da ditadura militar ou consequentes de seus processos e mentalidades.

Personalidades originárias da ditadura militar, como Jaime Lerner, Fernando Collor e Mário Kertèsz tentaram se sobressair, nos últimos anos, como supostos defensores de causas progressistas, sem que representassem diferencial para suas antigas causas reacionárias, apenas "pegando carona" nas conveniências políticas atuais.

Mas há também gente "nascida" em situações neoliberais que tentam se passar por "vanguardistas". Há o jornalista neoliberal metido a "intelectual de esquerda", Pedro Alexandre Sanches. Há mulheres que são ícones do erotismo machista, como Mulher Melão e Solange Gomes, que se passam por "feministas". Há a FM de pop convencional que vende uma falsa imagem de "rádio rock de verdade", a carioca Rádio Cidade. E as pessoas querem uma "cultura popular de verdade" através do comercialismo explícito e artisticamente postiço de tendências bregas e "populares demais".

Não se trata de uma adesão sincera de antigos conservadores a alguma causa mais avançada. Trata-se apenas de um oportunismo, uma falsa adesão condicionada pelas conveniências, seja para agradar pessoas mais influentes, seja para alimentar vaidades pessoais. E esse é um grande problema que atinge o Brasil.

Mas há também a situação trágica de que é no Brasil onde pessoas dotadas de algum diferencial artístico, cultural e moral tendem a morrer mais cedo ou no auge de sua atividade. Perdemos de Glauber Rocha a Renato Russo, de Leila Diniz a Dora Bria, de forma prematura, enquanto, mesmo já idosos, nomes como o geógrafo Milton Santos e os atores José Wilker e Marília Pera morreram no auge de suas atividades e ainda cheios de planos e projetos de vida que foram ceifados.

É o mesmo país do medo de que medíocres famosos sucumbam ao ostracismo, de ver homicidas idosos morrerem, de ver canastrões encerrando a carreira, fenômenos duvidosos de mídia serem cancelados. Perdemos muito do que havia de melhor para o país, mas temos muito medo de que canastrões, canalhas e facínoras morram ou caiam em um dramático ostracismo.

O Brasil das contradições tinha mesmo que sofrer sua grave crise. Essas contradições criaram zonas de conforto em que sensações extremas como o deslumbramento religioso e o moralismo vingativo convivem promiscuamente, e que, no âmbito ideológico, explica o fracasso de um frágil esquerdismo que anos de políticas progressistas não conseguiram desenvolver.

Afinal, o progressismo político encontrou sua barreira, nunca devidamente vista ou prevista, na influência do intelectualismo de centro-direita que "sequestrou" a intelectualidade de esquerda, como através de Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches, que forçaram as elites pensantes em geral a pensar na cultura popular sempre sob uma ótica subordinada às rígidas leis do mercado e do marketing.

A própria centro-direita intelectual e midiática, como se observa também em Mário Kertèsz, o ex-prefeito de Salvador que iniciou carreira política na ARENA (partido que comandou a ditadura militar), tentou se apropriar o máximo possível dos movimentos sociais e do pensamento de esquerda, para empastelar e reduzi-los a um inócuo pragmatismo tido como "moderado".

Voltando ao "espiritismo", o próprio caso de Francisco Cândido Xavier reflete esse apego às contradições. Figura conservadora e retrógrada, Chico Xavier parece um caipira dos tempos da República Velha e sempre foi devoto católico em toda sua vida. Defendia a ditadura militar e, como católico, era defensor de ideias antiquadas, como a Teologia do Sofrimento, aquela que define as desgraças humanas como "presente de Deus" e "caminho para o Céu".

No entanto, Chico Xavier é tido, por seus confusos seguidores, como "progressista", "ativista", "moderno", "futurista" e "avançado", sem que um único motivo consistente possa ser apresentado. Muito pelo contrário: não bastasse o visual brega que Chico Xavier teve em seu tempo, ele é visto como "ativista" e "progressista" por defender ideias retrógradas como "aguentar o sofrimento em silêncio e sem reclamar".

Ele era o ideólogo dos sonhos para os torturadores da ditadura. Afinal, a ideologia de Chico Xavier, espécie de "AI-5 do bem", pedia para os sofredores não reclamassem nem sequer mostrassem para as pessoas que sofriam. Se, por exemplo, um negro é humilhado por trolagens na Internet, ele deveria ficar calado e aceitar, sob o pretexto dele ter sido um romano racista num passado remoto. Se alguém é chicotado, o chicoteado (olha o trocadilho) tem que agradecer os algozes por esse "benefício".

Os brasileiros sempre se mantém na zona de conforto e, quando há crise, mais se apegam a eles. É como alguém que, vendo um bujão de gás vazar, abraça o objeto. As pessoas ainda se mantém viciadas em suas contradições, o medo é muito grande em se ver romperem paradigmas e hábitos originários dos anos 1970 e de seus derivados vigentes nos anos 1990.

Quando veio a ditadura militar, em 1964, e o AI-5, no final de 1968, foi muito fácil romper com paradigmas originários da Era Vargas e do período desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. Mesmo a cultura brasileira, que resistiu plena até por volta de 1976, sucumbiu pouco depois, quando se ascendeu a mediocrização cultural sob todos os aspectos,

Hoje, no entanto, são os diversos valores vindos da Era Médici ou da Era Geisel ou, de forma derivada, durante a Era Collor ou a Era FHC, que mostram sua crise e desgaste profundos. Mesmo assim, as pessoas teimam em não querer perdê-los, mesmo que sejam as mortes de feminicidas ricos (alguns já "coroas" e idosos) que viraram notícia na mídia. É mais fácil o Estadão criar um texto de obituário antecipado do ex-presidente Lula do que do ex-jornalista Pimenta Neves.

Tratam-se de neuroses, fés religiosas, pragmatismos, utopias diversas, que correm o risco de se perderem. Os roqueiros autênticos estão resignados com o fim definitivo da antiga Rádio Fluminense FM, mas uma parcela da juventude do Rio de Janeiro é capaz de reagir, com fúria e reacionarismo descomunais, no caso da canastrona Rádio Cidade largar novamente o rock, segmento que a emissora demonstrou não ter vocação nem competência.

Mas se a sociedade brasileira mantém como heróis Jaime Lerner e Fernando Collor, e até pessoas envoltas em crimes, como o goleiro Bruno e o ex-ator Guilherme de Pádua, mantém seus fãs-clubes e fazem carreira como sub-celebridades, então o Brasil está mergulhado num lodo pior do que "aquela corrupção" que muitos brasileiros "revoltados" só conhecem nas coberturas duvidosas da mídia ultraconservadora.

É isso que faz o Brasil ficar num impasse. E mostra que ser "moderado" e "equilibrado" não é o mesmo que ser contraditório. Pelo contrário, a manutenção de contradições diversas revela uma série de desequilíbrios, impasses, confusões, escândalos e desordens que não podem expressar "moderação".

E é aí que o Brasil teima em não se resolver. Acha que, para não "perder a cabeça", não pode perder seus paradigmas viciados. O "edifício" construído em 1974 ameaça ruir, e esse é o grande medo de muitos brasileiros. Só que, se o "edifício" não for derrubado, é o Brasil que será.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Rede Globo e inconsciente coletivo


A falta de discernimento, autocrítica e reflexão das pessoas faz com que muitos que se dizem renegar os mestres seguem fielmente as suas lições. Demite-se os mestres, ficam seus ensinamentos, como podemos observar.

É o que se observa no caso da influência da Rede Globo, que se torna mais perigosa na medida em que atinge uma parcela de opositores pouco aprofundados. É perigoso uma ideologia ou instituição ligadas a objetivos de manipulação e domínio conquistarem o respaldo não assumido de seus alegados opositores, fazendo com que o legado de uma ideologia nefasta possa ser assimilado pela parcela de aparentes detratores.

A Rede Globo controla a vida das pessoas e elas não sabem. Elas tomam tudo como "natural", como vindo delas mesmas, quando houve um sutil processo de manipulação de corações e mentes, através de valores próprios difundidos pela rede televisiva.

Sim, muitas coisas que as pessoas imaginam terem saído de seus hábitos cotidianos, sejam as músicas que ouvem, as gírias que falam, as crenças e os totens que passaram a adorar, foram planejadas nos escritórios de executivos da Globo.

Soa bastante patético que pessoas que dizem questionar a Rede Globo, até de maneira um tanto forçada, como grupos de jovens embriagados que ficam gritando "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo", porque estes são os primeiros a serem influenciados e manipulados pela rede televisiva.

Quem pratica trolagem na Internet, que demonstra ter um reacionarismo bastante aguçado, defende valores ditados pelo poder midiático como se fossem "naturais". Para o troleiro, o que importa é defender aquilo que é decidido "de cima", de políticas autoritárias para a mobilidade urbana até o papel que a sociedade elitista quer reservar para o povo de ascendência negra ou indígena.

O inconsciente coletivo desenvolvido pela Rede Globo cria situações insólitas aqui e ali. Em um ônibus, um jovem que conversava no celular falava mal do Domingão do Faustão mas falava a gíria "galera", difundida por Fausto Silva, com a mesma frequência do apresentador. Que "aversão" é essa?

E as moças "descoladas" do Orkut, que se achavam "diferenciadas" e "alternativas" mas se apegavam à mesmice imbecilizante de nomes como Bruno & Marrone, Exaltasamba, Luan Santana ou todo o "funk carioca"? Se elas disserem que odeiam a Rede Globo, ou estão mentindo ou não têm consciência da influência que a rede televisiva exerce sobre elas.

As pessoas falando a gíria "balada", criação de Luciano Huck para testar seu poder de influência na juventude brasileira em geral, e acham que ela surgiu "das ruas". As pessoas pautando seu gosto musical pelas trilhas sonoras das novelas da Rede Globo, que agora decide até o que vai ser considerado "novo" na MPB. E ninguém desconfia.

Até o caso de Francisco Cândido Xavier também não escapa desse processo de manipulação "global" que atinge o país. Chico Xavier foi imposto pela Rede Globo de forma tão persuasiva quanto Fernando Collor (que Chico Xavier apoiou).

O mito de Chico Xavier, antes um caso pitoresco de paranormalidade, depois um suposto médium metido em confusões, foi reciclado por iniciativa da Rede Globo, que buscou reproduzir com rigor o roteiro feito pelo jornalista inglês Malcolm Muggeridge para trabalhar o mito de Madre Teresa de Calcutá.

É só observar o padrão de "amor, bondade e caridade" que o poder midiático da Rede Globo fazia através do mito renovado do "médium" mineiro. O fato de conseguir agradar as pessoas e deixá-las deslumbradas, felizes e tranquilas não indica ausência de manipulação, mas o contrário disso, um processo de exploração maliciosa do inconsciente coletivo.

A encenação do "filantropo" - seja a freira albanesa que atuava em Calcutá, seja o "médium" que atuou em Pedro Leopoldo e Uberaba - ao lado de crianças carentes tomando sopa, velhos miseráveis pedindo esmola e estando, cada um dos mitos, rodeados por multidões nas ruas, era o artifício ideológico de manipulação das mentes para forçar a opinião pública a cultuar ídolos religiosos.

O maior perigo que a Rede Globo traz é que ela manipula as mentes das pessoas e elas não percebem isso. Elas até se fazem de "opositoras" da Rede Globo, correm para seguir Emir Sader, Caros Amigos, Carta Capital e outros ícones esquerdistas só para impressionar os amigos e parecerem ideologicamente "mais avançadas".

No entanto, a prática é implacável. São pessoas que seguem o receituário da Rede Globo para consumir e contemplar o que ela impõe como "cultura", das gírias aos ídolos religiosos. E mais uma vez o Big Brother Brasil voltou para hipnotizar as pessoas, e, como é de praxe, a hipnose é feita para as pessoas terem a impressão de que nunca foram hipnotizadas.

E aí é que o perigo se configura. Pessoas que são manipuladas sem saber, que pensam que são diferenciadas e com vontade própria se apegando a modismos e arbitrariedades diversas. O pior manipulado é aquele que não tem consciência desta manipulação e se torna uma presa mais fácil para as piores armadilhas, na medida em que pensa ser incapaz de cair nas mesmas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Rio de Janeiro é um dos maiores redutos de trolagem no país


A decadência que existe no Rio de Janeiro não é só ligada à Economia e Segurança. Ela ocorre, acima de tudo, pela intensa crise de valores que acontece nos últimos anos, pelo declínio que parecia ser apenas parcial e de fácil solução até dez anos atrás, mas que, depois disso, se tornou uma queda vertiginosa.

O Rio de Janeiro está em "queda livre" entre as cidades que são tidas como "referências nacionais". Na cultura, a própria futilidade do "funk carioca", que no recheio traz as "musas populares", com seus glúteos e bustos aberrantemente siliconados, vendendo sua imagem de mercadorias sexuais de maneira obsessiva, forçada, feita "na marra" para atender aos desejos de libido de uns tarados digitais.

A intolerância social dos cariocas e fluminenses tornou-se notável, e nas mídias sociais muitos encrenqueiros não conseguiam enxergar a diversidade cultural, de pessoas que pensam diferente do "estabelecido", o que faz esses vândalos digitais reagirem com trolagens e blogues ofensivos.

São pessoas que acreditavam nos papéis lineares que cabem numa sociedade conservadora. Atribuem o poder de decisão de qualquer coisa, mesmo a popularização de uma gíria, a quem é dotado de fama, de muito dinheiro, de diplomas e de poder político. Pode ser uma decisão nociva, mas se ela é "garantida" por diplomas, ela é aceita de maneira firme, qualquer contestação a ela pode ser ridicularizada ao extremo.

Enquanto isso, as classes populares que rompem com estereótipos são humilhadas sem piedade. Se mulheres negras não se limitam a fazer os papéis de faxineiras, lavadeiras, cozinheiras de locais miseráveis ou mesmo a função machista de funqueiras e se tornam atrizes de TV, apresentam quadros de telejornais e se tornam professoras, advogadas e intelectuais renomadas, os encrenqueiros digitais logo lhes disparam comentários racistas.

Recentemente, um portal de ônibus mostrou uma foto de um micro-ônibus do Rio de Janeiro. De repente, uma enxurrada de comentários ofensivos é despejada na Internet, com trocas violentas de acusações e desaforos.

A busologia mostrou-se o reduto da intolerância, do radicalismo e do desrespeito. Recentemente, busólogos que apoiavam o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e defendiam a pintura padronizada nos ônibus - uma das medidas implantadas pelo político carioca - faziam uma campanha difamatória contra busólogos discordantes, chegando a criar blogue de ofensas e "comentários críticos" (página que foi desativada depois de denunciada ao SaferNet, entidade voltada a receber denúncias de crimes na Internet).

A trolagem é um efeito do espírito de intolerância e da mania de "pensamento único" do Rio de Janeiro, que faz o Estado se tornar um dos maiores redutos de trolagem do país, provavelmente o maior, estando acima até de São Paulo, segundo maior reduto de ofensas pessoais na Internet.

A intolerância social no Rio de Janeiro, que envolve não apenas as classes mais abastadas mas mesmo pessoas de classe média, nos subúrbios e na Baixada Fluminense, que "endeusam" as elites, é um sério problema que, mais do que qualquer crise nos cofres públicos que anda cortando despesas aqui e ali nos serviços públicos, provoca a grave crise no Estado da região Sudeste.

A divinização de autoridades, empresários, celebridades e políticos, de um lado, e a intolerância com pessoas que pensam diferente da "visão oficial" de qualquer espécie, criam uma perspectiva radical num Estado em que torcer por futebol também é alvo de radicalismo e fanatismos extremos.

A intolerância faz, no fanatismo do futebol, com que um simples fato de torcer pelos quatro times de futebol (Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo) seja ponto crucial de medida nas relações sociais. Diz-se que muitos cariocas perguntam primeiro de que time as pessoas torcem para depois lhes perguntarem os nomes.

Espera-se, neste caso, que torcer por futebol e, de preferência, por um dos quatro times, seja unanimidade de todos. A ilusão de "diversidade", só por uma questão de aparências, está em um patrão flamenguista que aceita que seu funcionário seja tricolor, botafoguense ou vascaíno.

No entanto, se alguém diz que não torce por esses times e nem curte futebol, os cariocas e fluminenses reagem com algum alarmismo, e, embora não demonstrem abertamente, passam a agir com discriminação contra o amigo "problemático", tanto que não torcer por qualquer um dos quatro times cariocas pode ser fator de assédio moral ou demissão no emprego.

O Rio de Janeiro é poluído tanto pela indústria quanto pelo narcisismo ostensivo dos fumantes. Superou São Paulo no posto de capital mais poluída do país. A vaidade de empresários e gerentes prejudica a logística e o reabastecimeno de produtos nos mercados, que geralmente levam duas semanas para a renovação dos estoques nas prateleiras.

O próprio cenário politico problemático que, em parte, atinge o país, é fruto dos preconceitos e narcisismos do Estado do Rio de Janeiro. A prepotência moralista de Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro, com seu obscurantismo político, e do grupo político de Eduardo Paes (com seus Cabral, Pezão, Picciani, Osório, Sansão e os Picciani), com sua demagogia populista, são também de responsabilidade dos preconceitos e narcisismos dos cariocas e fluminenses.

A crise é feita por essa combinação de arrogância, intolerância, acomodação, atraso mental e outros defeitos que fazem do Estado do Rio de Janeiro um dos mais atrasados do país e cujo retrocesso chega a ser pior do que o da Bahia de Antônio Carlos Magalhães.

Nem o udenista Carlos Lacerda, que aliás, havia sido um bom governador da Guanabara, seria capaz de tantos retrocessos político-administrativos. Nem a ditadura militar viu um Rio de Janeiro combinando atraso e reacionarismo.

É por isso que a já conhecida crise do Estado do Rio de Janeiro vai além de aspectos econômicos, políticos ou policiais. É uma crise generalizada, como numa infecção generalizada. É algo que deve ser visto com cautela, porque a decadência tem que ser vista como um problema, e não como um "modelo" de valores a serem seguidos pelo resto do país.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Neopentecostal, Igreja Universal usa filme para avançar em competição religiosa


A competição religiosa para ver quem derruba a supremacia da Igreja Católica, disputada pelas seitas neopentecostais e pelo "movimento espírita", tem mais um episódio de destaque, movido pela Igreja Universal do Reino de Deus.

Exercendo uma campanha de "evangelização", donativos e distribuição de livros como Nada a Perder 3, terceiro volume da biografia de Edir Macedo, e Morri para Viver, da ex-competidora do Miss Bumbum e sobrevivente dos danos causados pelo hidrogel, Andressa Urach, a IURD procura influenciar uma comunidade indígena, a dos Kiriris, na cidade baiana de Ribeira do Pombal.

A "missão" da IURD, que se sabe ser dona da Rede Record, define a tribo indígena dos Kiriris como vivendo de "extrema pobreza", dentro de uma visão etnocêntrica que não enxerga os problemas da tribo de acordo com a natureza sócio-cultural dos próprios indígenas.

Os índios foram "batizados" e "catequizados" e ainda receberam ingressos para ver o filme Os Dez Mandamentos, produção cinematográfica da Rede Record baseada na novela (que, como ocorre com as novelas da Rede Globo, agora é exibida com imagem de cinema) e cujo sucesso televisivo faz a Globo se preocupar com o fracasso do Big Brother Brasil e tentar exibir filmes bíblicos a seu modo.

A competição para ver quem é que arruma mais fiéis do que a Igreja Católica - ou, de preferência, possa tirar desta religião seus adeptos - é mais modesta no "movimento espírita" que, em crise, quando suas contradições são expostas na Internet, tenta agora levar vantagem como uma espécie de "consultório moral".

Desta forma, textos são difundidos para pregar a "tolerância" e a "bondade", sem que vá além dos limites ideológicos da Teologia do Sofrimento, já que a máxima dos "espíritas", para quem sofre pesadas dificuldades, é simplesmente a de aceitar o sofrimento e "confiar em Deus".

Textos e eventos sobre suicídio, dentro da abordagem que apela mais para alertar as consequências do que para avaliar as causas - afinal, ninguém se suicida porque gosta - , também são difundidas, além de apelos que enfocam a "aceitação", a "conformação" e a "fé".

O Brasil é oficialmente um país católico, mas há também, além de inúmeros movimentos religiosos, uma crescente população de ateus e agnósticos. E isso preocupa ainda mais as religiões, sobretudo as neopentecostais e o "movimento espírita", que além do mais têm suas irregularidades sendo denunciadas cada vez mais pela sociedade.

A Igreja Universal tem um lobby maior, por ser dona de uma rede de rádios e TVs a partir do controle da TV Record de São Paulo, uma das mais antigas emissoras de TV do Brasil (surgiu em 1953). O "movimento espírita" tenta "comer pelas beiradas", com espaços eventuais na TV aberta e na TV paga ou na tentativa de criar canais especializados.

No Rio de Janeiro, o "movimento espírita" tem a Rádio Rio de Janeiro e o jornal Correio Espírita como seus veículos. A Federação "Espírita" Brasileira comanda um lobby aparentemente modesto, com um mercado editorial que encabeça um cenário onde há também a ação de outras editoras "espíritas" independentes.

Apesar disso, o "movimento espírita" tem um lobby social maior do que o da IURD. De vez em quando, a Igreja Universal é alvo de denúncias de irregularidades e a ascensão do "bispo" Edir Macedo como empresário de mídia é fartamente discutida como um problema midiático.

Já o "espiritismo", mesmo na sua situação aparentemente modesta, passa incólume em qualquer investigação oficial, e até hoje Francisco Cândido Xavier, o baladado "médium" Chico Xavier, nunca foi oficialmente condenado, mesmo por um ato póstumo simbólico, pela apropriação indébita do prestígio de Humberto de Campos, que uma leitura atenta confirma não ser ele o autor espiritual das obras "mediúnicas" que trouxeram seu nome ou o pseudônimo "Irmão X".

Consta-se que, além do forte lobby que a FEB exerce nos meios jurídicos e acadêmicos, o que garante uma imunidade para tudo quanto é deturpação da Doutrina Espírita e outras irregularidades, há a proteção sutil das Organizações Globo, corporação midiática que chegou a ser hostil a Chico Xavier, mas nos últimos anos vive em solidariedade infinita a ele.

Entende-se que a corporação midiática, de formação católica, enxergue em Chico Xavier e outros ícones do "movimento espírita", como Divaldo Franco, propagandistas da fé católica sem apelarem para os ritos e o vestuário de padres e sacerdotes, já que o "espiritismo" brasileiro consiste, na prática, numa espécie de versão informal e flexível do Catolicismo.

Nesta competição religiosa, indagamos se o "movimento espírita" terá coragem de fazer uma adaptação cinematográfica de Há Dois Mil Anos, para fazer frente a Os Dez Mandamentos. Afinal, a obra "bíblica" ditada por Emmanuel é dotada de gravíssimas falhas históricas, comprovada por pesquisas sérias, o que poderia colocar o filme "espírita" em páginas como Falha Nossa antes mesmo de obter algum êxito nas bilheterias.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Chico Xavier usou frase sobre humildade em causa própria


Sobre a humildade, Francisco Cândido Xavier, adepto da Teologia do Sofrimento, disse duas frases. A primeira, para desmentir que humildade seja o mesmo que pobreza, indigência, fome e outros flagelos. A segunda, no entanto, chama a atenção pelo fato de parecer generosa, mas que traz oculto um dado bastante oportunista e malicioso.

Para começo de análise, vamos analisar a referida frase, para entendermos melhor. Primeiro, citaremos a mesma inteiramente: "A humildade está na pessoa que, tendo o direito de reclamar, julgar, reprovar e tomar qualquer atitude compreensível no brio pessoal, apenas abençoa".

Á primeira vista, nota-se o caráter ridículo desta frase. Afinal, humildade é sinônimo de dar bênçãos? No jargão católico, benção é uma espécie de "selo de aprovação" dado por figuras religiosas. Somos todos padres, párocos, freiras, sacerdotes? Já não basta o igrejismo a que atribui a todo aquele que morre através de supostas mensagens espirituais?

Analisando a frase em separado, no entanto, nota-se que o beneficiário desta frase é tão somente Chico Xavier. Ele a usou em causa própria, para tirar vantagem dele mesmo, diante dos escândalos e confusões que ele criou, das fraudes literárias às farsas mediúnicas, tendo sido cúmplice, com muito prazer, da farsante Otília Diogo, o que fez Waldo Vieira romper com seu antigo ídolo e parceiro.

Vamos então analisar as expressões em separado, para que podemos desconstruir o discurso chiquista em frases que não podem ser consideradas filosóficas porque simplesmente não buscam a verdade, são mistificadoras e não esclarecedoras e só promovem o conformismo com todo esse engodo sócio-cultural brasileiro no qual se insere o "espiritismo".

"TENDO O DIREITO DE..., APENAS ABENÇOA"

Nota-se a "doce" censura de Chico Xavier àqueles que questionam, contestam e duvidam. Chico Xavier nunca foi progressista, era um homem extremamente conservador, até reacionário muitas vezes. Era, portanto, um figurão de direita, apesar de tal constatação parecer ofensiva.

Ele prefere a sua concepção de "bênção", que é uma combinação de conformismo, submissão e gratidão, sobretudo para os sofredores que sofrem que devem ser felizes com as desgraças que acumulam em suas vidas. Por esses pensamentos, Chico Xavier é "santificado", mas Madre Teresa de Calcutá foi chamada de "anjo do inferno" por pregar a mesmíssima coisa.

Segundo essa ideia de "tendo o direito de", Chico Xavier se mostra docilmente autoritário. As palavras são carinhosas, mas o conteúdo é perverso. Para ele, a pessoa "pode" reclamar, julgar e reprovar e tomar qualquer atitude compreensível, mas seria melhor que não fizesse.

"RECLAMAR, JULGAR, REPROVAR"

Chico Xavier remete a episódios de confusão e escândalo dos quais tenta eximir-se de culpa. Sabemos que ele é culpado, sim, pelos pastiches literários e estranhas reparações editoriais feitas em Parnaso de Além-Túmulo e em pastiches e plágios literários aqui e ali, além do "médium" ter sido obsediado por Humberto de Campos, de forma mais traiçoeira possível.

Sim, porque Chico Xavier parece não ter gostado das resenhas irônicas que Humberto de Campos fez de Parnaso de Além-Túmulo ainda em vida, e, uma vez morto (será que Chico rogou prática ao seu crítico?), o anti-médium mineiro esperou algum tempo para se apropriar do falecido autor, pegar carona em seu prestígio e praticamente virar "dono" de seu legado.

Chico dirigiu esse recado sobretudo aos críticos literários, juízes e à sociedade que reprovava suas atividades fraudulentas e suas obras igrejistas de conteúdo medieval. Aos críticos que reclamavam e reprovavam, aos juízes que julgavam, aos jornalistas que investigavam. Chico Xavier pedia aos outros complacência até aos seus atos mais irresponsáveis.

"TENDO O DIREITO DE...JULGAR...APENAS ABENÇÕA"

Chamemos a atenção do termo julgar. Chico Xavier dizia para as pessoas não julgarem, apelava para que ninguém fizesse qualquer tipo de avaliação. Implorava para que as pessoas apenas "amassem" e "orassem".

Com isso, Chico agiu pedindo a mesma "misericórdia" com que pediu Madre Teresa de Calcutá aos irresponsáveis empresários da Union Carbide depois de terem causado a tragédia de Bophal, Índia, em 1984, com vários mortos e feridos.

Só que Chico Xavier julgava, até de forma mais perversa que ele pedia para os outros não fazerem, como foi no caso da tragédia do Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, quando um incêndio criminoso matou centenas de pessoas, a uma semana do Natal de 1961. Chico acusou as vítimas de terem sido romanos sanguinários em outra encarnação.

Vendo todo o desprezo dos "espíritas" com o cientificismo de Allan Kardec, consideramos com segurança que o julgamento, presente no livro Cartas e Crônicas, de 1966, é infundado e até ofensivo, pois as pobres famílias atingidas direta ou indiretamente pela tragédia não tinham dinheiro para contratar um advogado para processar Chico Xavier.

Desta forma, assim como os adeptos da Teologia do Sofrimento se nivelam a Pôncio Pilatos quando defendem o sofrimento de Jesus, Chico Xavier se nivelou ao criminoso Dequinha ao buscar uma "razão" para os sofrimentos das vítimas e seus familiares, como se houvesse mérito em passar por aquela situação traumatizante.

"TOMAR QUALQUER ATITUDE COMPREENSÍVEL NO BRIO PESSOAL"

O que significa isso? Os crentes não raciocinam e deixam passar esse trecho sem questionar. Mas também, a julgar pelos próprios apelos de Chico Xavier, não é para questionar, mesmo. Até porque esse trecho é bastante rebuscado e prolixo, apesar da expressão relativamente clara.

Rebuscado, por causa da pretensa erudição que apenas complica o entendimento, usando até a palavra "brio", que, apesar de simples, é um jargão da língua culta. Até porque a própria ideia de "tomar atitude compreensível" é reprovada por Chico Xavier. Então não é para compreender mesmo, é só para acreditar. Nem nos arrisquemos a perguntar por quê.

Prolixo, por causa da forma com que se trabalha essa ideia. O que Chico Xavier quis dizer, com isso, é que a pessoa, tendo o direito de buscar coerência e lógica, apenas abençõa. Mas aí, se ele disser que reprovava a coerência e lógica, ele seria desmascarado.

Afinal, os incoerentes e ilógicos tentam atribuir seus absurdos à pretextos de "coerência" e "lógica". A natureza do mentiroso é fazer crer que está dizendo a verdade. Um mentiroso nunca iria admitir que está mentindo, porque aí seria dizer a verdade, o mentiroso que assume a mentira deixa de ser um mentiroso.

Dessa forma, um incoerente precisa fazer crer que é amigo da coerência. Um ilógico sempre tem que se passar por paladino da lógica e do bom senso. O "espiritismo", mistificador e obscurantista, sempre buscava defender no discurso o conhecimento e a ciência.

Por isso, Chico Xavier não pôde dizer claramente que a pessoa, por mais que tenha direito de buscar a coerência e a lógica em qualquer atitude ou ideia, prefira apenas abençoar (ou seja, ser submisso, conformado e grato).

Concluímos então que, com a análise que fizemos a respeito desta frase de Chico Xavier, ela foi feita em causa própria. Chico Xavier queria é que seus seguidores ficassem complacentes com seus erros e mentiras, queria que seus privilégios de celebridade religiosa fossem respeitados de qualquer forma.

Portanto, a frase poderia muito bem ser resumida em poucas palavras e traduzida como:

"Eu só considero as pessoas humildes se elas, mesmo podendo contestar, questionar e reprovar meus erros e mentiras, se conformem com elas e me aceitem de qualquer forma".

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Coitadismo "espírita" contraria ideia de Autoconhecimento


O "espiritismo" é cheio de contradições. Defensor da Teologia do Sofrimento, o "espiritismo" tenta pregar que "ninguém nasceu para sofrer". Sem definir as coisas, os palestrantes e articulistas "espíritas" se contradizem quando o assunto é se devemos sofrer ou não ou até que ponto continuaremos sofrendo.

Quando o "espiritismo" recebe críticas severas diante das contradições aberrantes que a doutrina brasileira apresenta, são seus expositores que se fazem de coitados, posando-se de vítimas e choramingando em suas mensagens dizendo que estão sendo atingidos por "campanhas desagradáveis".

E é essa onda de contradições, de contrastes discursivos que faz com que o "espiritismo" seja ineficaz e impotente para resolver os problemas das pessoas. Sua preferência pelas referências católicas trazidas pelo hoje renegado Jean-Baptiste Roustaing, em detrimento do pensamento de Allan Kardec, autor tão bajulado quanto ignorado em essência, já faz o "espiritismo" ser uma religião medíocre, por mais que inspire simpatia entre seguidores e até leigos.

O coitadismo ou vitimismo "espírita" consiste nos membros da doutrina brasileira choramingarem quando são criticados, ou reagirem numa pose de melancólico silêncio, como se ficassem tristes com os erros apontados.

Pois o que se observa é que, quando se denunciam os erros do "movimento espírita", eles nem de longe podem ser considerados "campanha de perseguição", "lamentáveis manifestos de fúria e ódio" ou coisa parecida, mas constatações feitas através de diversas análises e observações.

O coitadismo é a mania de alguém se achar o coitado por pouca coisa. O vitimismo é um tipo de coitadismo quando se enfoca o motivo dessa postura. E isso acaba complicando os próprios "espíritas", porque essa postura de bancarem os tristonhos quando são contrariados, sem adotar autocríticas, cria uma série de impasses.

O "espiritismo" comete o desastre de escolher a mistificação religiosa herdada do Catolicismo medieval, cria um moralismo próprio da Teologia do Sofrimento, e depois não aceita críticas, porque julga o que faz como "certo" ou como "coisa imperfeita, com erros, sim, mas viável". E daí é que vem os males que acabam comprometendo o valor da doutrina brasileira.

Pois, na medida em que não se decide se a pessoa nasceu ou não para sofrer, que tem em seu "mestre" Francisco Cândido Xavier pregando que "devemos sofrer em silêncio e aceitar os infortúnios com amor e fé em Deus", mas que jura nas palestras em "centros espíritas" que só viemos para "sermos felizes", o "espiritismo" se contradiz com tal postura sem pé nem cabeça.

Isso contraria a ideia tão mitificada pelos "espíritas" sobre o Autoconhecimento, que na prática mais parece Autoconformismo. E complica ainda mais o mito de "reforma íntima" que eles pregam em sua ideologia, porque um engodo moralista se respalda nesse mito de "conhecer a si mesmo", um pastiche de filosofia adotado pelo "movimento espírita".

É porque o que eles entendem como "autoconhecimento", base da "reforma íntima", é fazer as pessoas abrirem mão de suas necessidades e potenciais para viver uma vida "qualquer nota", para aceitar as limitações pesadas na vida, mesmo que a pessoa tenha que abrir mão do que aprendeu em desilusões na vida.

Isso porque chega um momento em que a pessoa que desiludiu demais na vida e aprendeu muita coisa com isso acaba se tornando escrava das ilusões dos outros. Com isso, não valeram as desilusões e os choques na vida. A pessoa sofreu e, além do direito de não reclamar, também não tem o direito de aproveitar as lições desse sofrimento.

A pessoa que sofre não pode interferir contra os infortúnios, não pode se queixar, nem questionar, nem contestar. E não pode sequer tirar proveito de suas limitações. Ela sofre à toa, e terá que viver como se nada tivesse acontecido e se servir às ilusões mais estúpidas de outrem.

Daí o problema. É fácil o "espiritismo" culpar as vítimas de sofrimento. Da mesma forma que os "espíritas" que se fazem de vítimas quando são contestados. De contradição em contradição nada se resolve e tudo se complica, principalmente entre aqueles com a responsabilidade de ajudarem a resolver alguma coisa, mas que não se acham na obrigação de fazê-lo. Aí fica mais complicado ainda.

domingo, 24 de janeiro de 2016

A decadência da trolagem movida pelo exemplo de Chico Buarque

JOÃO PEDROSA, O ANTIQUÁRIO E SUPOSTO JORNALISTA QUE XINGOU CHICO BUARQUE E A FAMÍLIA DO CANTOR.

A era da trolagem, da livre caluniação na Internet, movida pelas mídias sociais e por páginas ofensivas, parece entrar em declínio. Depois de tantos exemplos de ataques verbais contra feministas, negros e ativistas sociais, os chamados trolls, ou troleiros, começam a sentir o efeito bumerangue de seus vandalismo digital.

Depois da má repercussão causada por aqueles que ofenderam as famosas negras Maria Júlia Coutinho, jornalista, e Taís Araújo, Cris Vianna e Sheron Menezzes, atrizes, atacadas nas mídias sociais com comentários racistas, e a professora universitária Lola Aronovich, vítima de um blogue ofensivo que parodiava seu esquerdismo com supostas posições radicais que Lola nunca assumiria, foi a vez de um troleiro ser abatido pela sensatez do cantor e compositor Chico Buarque.

Chico Buarque, hostilizado por uma parcela de intelectuais que queriam o fim da MPB e a supremacia da bregalização musical, a desnorteou diante do episódio em que o cantor foi interpelado por dois burgueses que o ridicularizaram, já que a intelectualidade pró-bregalização, falsamente esquerdista, não poderia estar no lado dos dois riquinhos, desta vez deixou a "galera irada" da trolagem com medo.

O cantor foi vítima de ataques verbais de um antiquário que se dizia "jornalista", João Pedrosa, que, comentando fotos de Chico com sua ex-mulher Marieta Severo (de quem o cantor se separou de maneira amigável e respeitosa) e suas filhas no Instagram de uma destas, a atriz Sílvia Buarque, havia escrito, raivosamente: "Família de canalhas!!! Que orgulho de ser ladrão!!!", um comentário tão estúpido quanto o dado pelos burgueses cariocas: "Chico, vá morar em Paris! O PT é bandido!".

Outros caluniadores também atacaram Chico, como Guilherme Junqueira. Enquanto isso, outros caluniaram a presidenta Dilma Rousseff, como o ex-lutador Wanderlei Silva, que culpa o PT com alegações sem provas e responsabiliza a chefe do Executivo federal pelo atraso de uma obra que é de responsabilidade do Governo de Goiás.

Outro que amaldiçoou Dilma foi o próprio Pedrosa, que depois de xingar Chico Buarque e a família, ainda fez um comentário calunioso contra o nascimento do neto da presidenta: "Maldita até a sétima geração!!!", disparou o antiquário, com mais uma exclamação tripla.

O advogado de Chico Buarque, João Tancredo, está processando João Pedrosa, que tentou enviar uma carta à imprensa "pedindo desculpas". No entanto, Chico e o advogado não aceitaram os argumentos e mantém o processo por danos morais em andamento.

Troleiros são reacionários que tanto seguem valores retrógrados e preconceitos sociais diversos quanto endeusam ideologias dominantes e que, em primeiro momento, soavam como "cães de guarda" de valores e procedimentos diversos, mesmo de âmbito cultural ou político.

Pesquisas nas mídias sociais mostraram que até fenômenos como a "programação roqueira" da FM carioca Rádio Cidade, a gíria "balada" (jargão "infanto-juvenil" popularizado por Luciano Huck) e a pintura padronizada nos ônibus imposta pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, estavam entre as causas defendidas pelos chamados trolls, que reagiam com ironias, agressões e ameaças contra quem questionasse esses fenômenos.

As agressões chegaram ao ponto de ameaçar "invadir a conta" dos questionadores ou mesmo saíam da realidade virtual para a vida real, com agressores invadindo as cidades de suas vítimas na esperança de algum encontro pessoal para represálias físicas.

Há exemplos de troleiros que acabaram levando a pior. Um busólogo da Baixada Fluminense que trabalhava em uma prefeitura para ensinar Informática teria usado o trabalho para fazer trolagem, para defender a pintura padronizada nos ônibus cariocas e bajular o prefeito Eduardo Paes.

O troleiro busólogo criou blogue de calúnias contra questionadores, crio uma campanha contra eles nas mídias sociais e chegou a invadir as cidades de suas vítimas na esperança de linchá-las e promovia ataques verbais até em fóruns e petições na Internet.

No entanto, ele foi denunciado por amigos e acabou sendo desmascarado e desmoralizado. Seu blogue calunioso foi denunciado para a Safernet (entidade que acolhe denúncias de crimes diversos), e dizem rumores que, de tanto visitar as cidades de suas vítimas, quase atraiu a atenção da "máfia das vans" (controlada por milicianos), que desconfiam de estranhos que usam máquinas fotográficas para registrar imagens junto aos pontos desse tipo de transporte.

Dizem que o busólogo perdeu o antigo emprego e, de tão desacreditado e hostilizado, teria se mudado para Minas Gerais ou "tirado férias" no Estado, sendo um caso de trolagem que acabou rendendo maus resultados ao próprio troleiro, que já não pode mais reagir com ironias e ameaças porque pode ser condenado criminalmente por isso.

A própria repercussão negativa dos casos mais famosos faz com que os antigos praticantes de trolagem passem a sentir medo até de suas sombras. E o exemplo de Chico Buarque em manter um processo judicial contra um troleiro abre precedentes para o fim dos tempos em que os caluniadores digitais se julgavam invulneráveis e impunes.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A banalização da inteligência emburrece o Brasil


Todo mundo se acha "inteligente". O troll estúpido da Internet, a "boazuda" que só mostra seu corpo siliconado, o burocrata que exige demais sem saber por quê, o cantor canastrão de brega que se acha o "gênio da MPB", o político que promete muito o que está incapaz e até indisposto a cumprir, e o chefe de recursos humanos que estabelece critérios de admissão de emprego que ele não entende.

O Brasil banaliza a inteligência, como se ela fosse o capim que serve de alimento para os burros. E é o país do "espiritismo", a doutrina igrejista que finge ser "científica" e trabalha os assuntos da espiritualidade com especulação e devaneios, para não dizer o faz-de-conta que permite muitas fraudes "em nome do amor".

A crise de valores e de princípios que atinge o país reflete no apego desesperado a paradigmas confusos e velhos, ao contexto de desigualdades diversas em que os privilegiados não abrem mão de seus privilégios e os sofredores têm que sacrificar mais do que podem para vencerem na vida.

É um país que perde as melhores mentes, vê grandes intelectuais e artistas morrerem cedo ou no auge de sua produtividade e tem medo de ver morrer simples assassinos ricos das próprias esposas ou de ativistas sindicais urbanos ou rurais, mesmo quando os criminosos estão velhos e doentes.

O Brasil que está perdido em velhos paradigmas moralistas, tecnocráticos e místicos, que usa seu moralismo conservador tanto para "proteger" a "defesa de honra" da violência machista e a suposta "bondade" do proselitismo religioso, é tomado por um contexto de insegurança, na qual a suposta inteligência dos privilegiados não consegue mais trazer respostas.

No mercado de trabalho, o medo de empregadores de contratarem pessoas inteligentes ou testar a admissão de pessoas que lhes parecem "excêntricas" é muito grande e os faz contratarem um funcionário "mais ou menos", suficientemente submisso para cumprir as normas da empresa e suficientemente esperto para usar o jogo-de-cintura de sua ascensão pessoal.

Não bastasse a aberração dos empregadores em exigir pessoas ao mesmo tempo jovens e experientes, "veteranos" com idades de "estagiários", agora veio a nova exigência de sugerir dos aspirantes um talento humorístico, criando a figura do "funcionário comediante", que fica "brincando" com os colegas e interage com os fregueses com alguma piadinha pronta.

Se a moda pega, os concursos públicos - conhecidos pelos cacoetes de impor programas de conteúdo universitário a candidatos com formação limitada ao ensino médio - vão passar a exigir redação de piadas humorísticas, com base em "modelos" como o Porta dos Fundos e o Pânico na TV.

Não bastasse os concursos públicos sobrecarregarem os candidatos com provas de questões prolixas, que fazem com que avaliações com 75 questões, que exigem 10 minutos de resolução, sejam feitas em quatro horas (espreme-se o raciocínio de 750 minutos em no máximo 240), exigir que um candidato, além de uma "bagagem" jurídica de um Miguel Reale Jr. o conhecimento matemático de um Einstein, uma habilidade humorística de um Renato Aragão é demais e além da conta.

A sociedade exige demais porque acha que a inteligência surge como capim. Quem está no lado de baixo da pirâmide social tem que sacrificar demais porque, para quem está no lado de cima, é fácil estudar demais e saber tudo de Matemática ou enfrentar questões prolixas nas provas de concursos.

A inteligência se torna algo "fácil demais" e basta qualquer esforço, em certos casos, ou nenhum esforço, em outros, para obtê-la, dependendo dos critérios que se tem a respeito de quem "precisa" ou não se esforçar demais.

Daí as relações confusas entre mediocridade, pedantismo, burocracia, moralismo profissional, que corrompe os humores até de pais de família, que exigem demais dos filhos porque acham que estes são super-heróis com super-poderes e dotados de frieza emocional e capacidades astronômicas para enfrentar as mais sufocantes dificuldades (que, de tão opressivas, já não são desafios e sim infortúnios).

No lado da mediocridade, vemos as "boazudas" siliconadas que vendem o corpo como mercadorias de fantasias sexuais, para consumo por parte de machões sexualmente impulsivos, se achando "inteligentes" porque usam constantemente o Instagram, têm conta no Facebook, "filosofam" em mensagens escritas nas mídias sociais e conhecem o apelido de "Zap-Zap" dado ao WhatsApp.

Há também os canastrões da breguice musical que criava pastiches de samba e música caipira, através dos chamados "pagode romântico" e "sertanejo", que, só por conta de um banho de loja, de tecnologia e técnica e macetes transmitidos, nos bastidores dos espetáculos, por produtores televisivos e fonográficos e por arranjadores musicais, passam a emular a MPB em seus clichês mais conhecidos.

A inteligência se torna ao mesmo tempo um motivo para pessoas medíocres dizer que "têm talento" ou "fazem alguma coisa" quanto para justificar os sacrifícios descomunais que pessoas com dificuldade para se ascender na vida enfrentam só para atingir um benefício mínimo. E isso quando conseguem.

MERITOCRACIA

O fenômeno que permite essas relações desiguais é a meritocracia, a "supremacia do mérito". Por incrível que pareça, não é uma ideologia que valoriza a competência, o talento e a vocação humana, mas antes as desvalorizassem em nome de jogos de interesses diversos.

A ideologia considera o mérito como aptidão para alguma vantagem ou missão. Só que o mérito é considerado por critérios subjetivos, relações de status, interesses estratégicos, em que se combina o poder político, econômico, acadêmico e social (no caso, a ampla visibilidade, sob o apoio da mídia).

Cria-se uma hierarquia na qual os privilegiados não precisam se esforçar mais, enquanto quem está fora do "bacanal" dos afortunados precisa sempre se sacrificar demais para ter apenas alguma coisa. Enquanto os medíocres assumem atribuições que não são de sua competência, as pessoas diferenciadas, mas que não obtém privilégio algum, têm que arrumar "qualquer coisa" para subir na vida.

Daí casos surreais de patrões estúpidos ou "mãos-de-vaca" que só contratam pessoas diferenciadas quando o interesse é vincular os talentos destas às vaidades pessoais daqueles. Fora isso, mesmo empresas conceituadas preferem contratar funcionários medíocres, na esperança de "adestrá-los" de acordo com as perspectivas da empresa.

Banaliza-se a inteligência também pelo adestramento. Tanto faz se é um cantor de "pagode romântico" que mal sabe a diferença do samba do Recôncavo Baiano com o dos morros do Rio de Janeiro ou da colônia italiana de Bexiga, bairro de São Paulo. Muitos acreditam que basta "treiná-lo" e jogar um "banho de loja" e tecnologia para ele parecer um "sambista de verdade", como certos autoproclamados "gigantes do samba".

Daí tantas aberrações. Internautas reacionários que fazem trolagem e dizem que "não precisam raciocinar porque nasceram inteligentes". Empresários e médicos de apenas 60 anos de idade que, envaidecidos pelos cabelos brancos, se apressam a supor uma "bagagem" de vida de idosos de 80 anos, mal conseguindo entender o universo de suas idades.

A inteligência se torna alvo de uma grande ilusão em que ela é fácil de adquirir. A ilusão é alimentada pelo fato de que o Brasil está conectado pela Internet e pela informação aparentemente instantânea, realidade antes impossível, e essa ilusão faz as pessoas acreditarem que tornou-se fácil ser inteligente e sábio, bastando apenas colher ideias como quem enche um carrinho de supermercado.

É, portanto, uma ideia materialista, e que ignora questões como o fato de que é insuficiente a pessoa saber de alguma coisa sem se identificar com ela. Há muito know how sem o feeling necessário, só para usar o preciosismo dos termos em inglês, que o público médio entende. E é isso que derruba muitas e muitas ilusões.

Gafes inteiras são cometidas aqui e ali. Pessoas erradas são contratadas para cargos importantes. Políticos sucumbem à tentação da corrupção porque são incapazes de lidar com a coisa pública de maneira séria, porque requer muita administração e investimentos. E quem não sabe fazer fica ofendido quando assume algum trabalho do qual não tem vocação e é chamado de incompetente.

Até na cultura, o caso aberrante da Rádio Cidade, que jogou seu histórico de rádio pop barranco abaixo para viver uma "aventura" como pretensa rádio de rock, se baseou na ilusão de ter uma equipe sem qualquer especialização no gênero musical, por causa do recurso paliativo de usar uns três produtores com "alguma noção de rock" para pesquisar páginas especializadas e colher notícias das mesmas.

A ilusão de radialistas sem especialização dependerem da "livre sugestão" de ouvintes de rock para pedir músicas e dizer o que esses radialistas devem fazer - imagine um locutor de estilo Jovem Pan ter que fazer o papel de um "conhecedor" de rock pesado - reflete essa suposta facilidade das pessoas "aprenderem" algo que, no fundo, não têm a menor vocação em fazer.

As relações de pretensiosismo, de conveniências, de burocracia, de moralismo e tantos interesses levianos faz com que o Brasil se perca num padrão de desigualdades que se revela irreversível porque quem está em cima não quer "largar o osso" e abrir mão de tantos critérios, interesses e preconceitos que norteiam, ou melhor, desnorteiam as relações sociais, políticas, profissionais e até artístico-culturais.

Não há uma flexibilização nas exigências de emprego nem em concursos públicos, não há uma consciência de limites dos medíocres que embarcam em qualquer aventura em nome das vaidades pessoais - como o "sertanejo" ou "pagodeiro" bregas que tentam fazer MPB ou o radialista "poperó" que quer fazer uma "rádio de rock".

Quem é incompetente embarca em qualquer "corrida ao ouro" assumindo causas que nem entendem, dos políticos incompetentes aos músicos canastrões, das "musas" que "mostram demais" aos tecnocratas que dão pitaco sobre o que acham que o povo quer ou precisa, e isso corrompe a inteligência de uma forma ou de outra.

Quem realmente sabe tem que sacrificar demais para conseguir algo abaixo de seus talentos. Quem não sabe obtém privilégios e vantagens e passa a ser vinculado a uma habilidade que no fundo tem dificuldades de exercer, mas que busca artifícios para dar a falsa impressão de que está fazendo um "bom trabalho".

Isso acaba emburrecendo o país em todos os aspectos, barrando o acesso às nossas melhores mentes e deixando o Brasil num contexto social, cultural, político, econômico, tecnológico e midiático totalmente viciado, perdido numa decadência silenciosa que a própria mediocridade esconde por sua própria natureza. Os ignorantes ignoram a própria ignorância que têm.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O que pode significar o egoísmo de um "espírita"


O que pode representar e significar a ganância e o egoísmo de um conhecido "líder espírita" que, ao não poder ter sob seu contrato uma pessoa com perfil diferenciado de profissional, rogar pragas de forma que esta pessoa não conseguisse ter um emprego, por mais que se esforçasse?

Muita coisa. É certo que as coisas não caem do céu, que existe crise no país, mas o jovem se queixa que foi amaldiçoado pelo "líder espírita" por causa da incapacidade de obter um emprego, porque, independente de ser uma realidade comum, a realidade é bem mais pesada para esse rapaz.

Afinal, chova ou faça sol, seja na prosperidade ou na crise, o jovem tinha as mesmas dificuldades de obter um emprego, pesadíssimas, que nenhum esforço conseguia superar. Podia haver todo tipo de jogo de cintura, toda compostura, toda dedicação, toda perseverança, nada conseguia. Nada. Nada.

Temos que ver que, se de um lado existe o sacrifício do indivíduo, de outro há as circunstâncias que deveriam condicionar a conquista de alguma finalidade. Se o sacrifício é extremo e muitíssimo habilidoso, mas a finalidade nunca é conquistada, seria simplório dizer que foi o indivíduo que "não soube se esforçar", "faltou fé" ou "não teve perseverança".

É muito fácil culpar quem está embaixo. As barreiras são pesadas demais e o indivíduo, com o máximo de esforço, não consegue realizar suas metas. Culpa dele? Não. Mas é de praxe no Brasil culpar o peixe por não conseguir subir na árvore. Faltou-lhe "mais fé" e "mais esforço".

O jovem que trabalhou numa editora "espírita", que não recebia a devida remuneração - afinal, ele tinha que sobreviver, pagar contas, tocar sua própria vida - , chocou o patrão quando, com apenas três meses de trabalho, decidiu pedir demissão, vendo que muitos colegas de trabalho faziam o mesmo. E ele recusou a oferta do patrão em promovê-lo a redator-chefe de uma revista.

Também, o que ele ia fazer, se ia fazer praticamente tudo sozinho? E ainda mais sem remuneração devida, só recebendo dinheiro para o almoço e "filando" a refeição com wafer, comprado às escondidas, só para segurar mais dinheiro pagando menos?

A sina do rapaz tornou-se um inferno. Familiares e amigos dos pais dele perguntavam por que ele nunca conseguia emprego, perguntava o que ele tinha na cabeça, que problema mental ele tinha, se ele era um bobalhão, um preguiçoso ou um vagabundo. Danos morais vieram.

Enquanto isso, os únicos empregos que apareciam para ele eram em empresas de perfil duvidoso, jornais do interior localizados em áreas perigosas, jornais comunitários em favelas violentas, rádios corruptas de uma capital nordestina. Como ele aproveitaria seus melhores potenciais nesses ambientes horrorosos?

E tudo isso porque o patrão "espírita" estava feliz da vida em ter trabalhando para si uma pessoa dotada de inteligência e talento. Infelizmente, os talentosos só são aproveitados quando o patrão vê neles uma forma de se autopromoverem, como patrões que se "alimentam" dos cérebros de outrem, visando vantagens e vaidades pessoais.

E é o mesmo patrão que manda frases na Internet, é metido a falar de assuntos do cotidiano, diz ser "totalmente fiel" a Allan Kardec. Isso é muito, muito grave. E é um sujeito badaladíssimo, querido pelos seus pares, realizador de palestras bem concorridas, embora não fosse um bom malabarista das palavras como se observa em um Divaldo Franco.

Mas sua reputação é suficiente para nos alertarmos como são certas pessoas, como é o egoísmo de um "líder espírita" que não conseguiu ter um bom profissional sob seu controle. E, como não teve, rogou praga e declarou que ninguém mais o teria como profissional. Coisa muito feia para alguém que usa a "caridade" e as palavras bonitas para se promover.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O lado explorador de um ídolo "espírita"


Um conhecido palestrante "espírita", com reputação nacionalmente reconhecida no seu meio, teria explorado funcionários de sua editora, mantendo-os sem remuneração, o que indica um regime de escravidão moderna, quando o trabalho é feito sem qualquer compensação numa sociedade em que se precisa de dinheiro para pagar contas e aquisição de bens.

Um jovem que deixou de ser "espírita" acusa o "líder espírita" de ter rogado praga contra ele. O rapaz há muito tempo não consegue obter emprego, e não é por falta de esforço: em todas as suas iniciativas para vencer na vida, ele fez de tudo, mas o azar não o deixa conquistar sequer as oportunidades que parecem mais fáceis.

Que está difícil obter um emprego, isso é a mais pura verdade. Mas quando alguém se esforça de maneira adequada, sempre tem uma oportunidade de trabalho mesmo no apertado funil do mercado. Mas o rapaz, mesmo "metendo a cara" como um condenado, sempre encontrou as portas fechadas, não havendo jogo-de-cintura nem perseverança que adiantassem.

Ele relata o drama que passou a viver depois que teve que trabalhar três meses (sim, apenas três meses, porque ele não aguentou a barra) em uma editora "espírita", numa conhecida capital do país. Foi há cerca de uma década.

Jornalista de formação, ele viu a oferta de emprego num anúncio publicado no mural da reitoria de uma universidade. Animado, ele resolveu preparar o currículo e se dirigir ao local. Foi acolhido pelo próprio "espírita" que conversava com uma bondade quase paternal. Ele recebeu o currículo e disse para o aspirante para ele aguardar uma resposta para o trabalho, anunciado como um "estágio".

Ao entrar na editora, ele começou a ver a realidade quando, no fim do primeiro mês, ele não recebeu o salário prometido, que era de R$ 1.000, considerado um valor razoável de mercado, naquela época. Ele só recebia o dinheiro da refeição - o chamado "vale-refeição" - que, na verdade, já estava incluído no salário.

A remuneração só lhe chegava parcialmente, com "adiantamentos". Em vez de receber o salário integral de R$ 1.000, ele só recebia uma pequena parcela, fora o que era abatido em almoço. No trabalho, ele viu o descontentamento dos colegas.

Sua atividade era de editar uma revista "espírita", com vários colaboradores do meio. Como chargista, foi contratado um conhecido desenhista que fazia tirinhas numa revista de rock. O editor escrevia cerca de três textos por edição, mas só podia creditar autoria em um deles, outros saíam sem sua assinatura.

O rapaz descobriu depois que não estava fazendo "estágio", mas trabalho comum, embora a remuneração fosse sempre atrasada e pendente. No almoço, quando ele não ia junto com o patrão e seus familiares para um restaurante e podia ir sozinho, ele ia para um supermercado para comprar um wafer, então valendo R$ 0,45, para "segurar" o dinheiro para as despesas pessoais.

Em conversa com uma funcionária que cuidava da cozinha, fornecia o cafezinho e contatava a marmita para todos os presentes, havia conversado com o rapaz sobre o drama que sofria. Mãe solteira, ela pedia emprestado dinheiro de familiares para comprar remédios, pagar despesas e outras compras mais urgentes.

No terceiro mês de trabalho, ele via os colegas se demitindo da empresa um a um. O ambiente de trabalho ficava cada vez mais vazio. Para piorar, o "líder espírita" queria promover o editor como redator-chefe e o referido funcionário via o barco se afundar.

O jovem resolveu então pedir demissão, dizendo que o fazia por problemas de salário. O patrão "espírita" ficou decepcionado, achando que ele estava trabalhando por "caridade". A contragosto, o "líder espírita" admitiu a demissão prematura, de apenas três meses de trabalho, mas não registrou o período de encerramento na Carteira de Trabalho, "manchada" com o carimbo da editora, num trabalho que era "de gente grande" e não um estágio.

Tempos depois, uma funcionária de uma emissora de TV de propriedade do mesmo "líder espírita" o convidou para participar da equipe, mas o jovem recusou. Este voltou à editora para pedir satisfações e negociar a dívida salarial, mas nada foi feito.

Um ano depois, ele percebia, como intuição, ao ver seu currículo num lixo próximo à sede da editora, que seu ex-patrão deve ter reagido com muita raiva e rancor, irritado de não ter mais trabalhando para ele um profissional de talento, que servia para alimentar a vaidade pessoal do "espírita".

E foi a partir daí que o jovem passou a ter azar. Ele não conseguia conquistar uma oportunidade de emprego, enfrentava concursos públicos que, por azar, ele sempre perdia, por mais que estudasse e procurasse marcar as questões de maneira mais correta possível.

Algumas oportunidades lhe escapavam das mãos, de forma sinistra. Ele havia feito um concurso para uma autarquia que era fácil e tinha um excelente programa de estudo e uma bibliografia interessante para ser lida. Era o concurso de seus sonhos cujo cargo lhe traria grandes oportunidades de realização profissional.

Só que, quando ele foi arranjar um material de estudos, greves surgidas do nada fecharam bibliotecas que ajudariam a obter alguns dos livros indicados. Na filial da autarquia, um funcionário de plantão responsável pela biblioteca que tinha todos os livros indicados, nunca compareceu. O jovem teve dificuldades de obter material, fez um péssimo concurso e foi reprovado.

Um outro concurso, para uma outra instituição, parecia ter mais sorte. O jovem ficou em 15° lugar entre os aprovados e a empresa prometia contratar mais de 30. No entanto, ele só recebeu uma proposta de emprego, fracassada, e tudo por conta da "mancha" da editora "espírita" na Carteira de Trabalho, com sua data de encerramento "pendente".

A convocação de aprovados para essa empresa chegou a prorrogar por mais de dois anos, e o rapaz sempre telefonava para saber quando novos aprovados seriam chamados. Estranhamente, só seis foram chamados. E, nas últimas ligações, as funcionárias trocaram o tom educado pelo ríspido, dizendo que não será mais possível chamar novos aprovados.

Enquanto isso, o que "sobrava" de emprego para o rapaz era só encrenca. Um jornal de uma cidade do interior, politiqueiro e de péssima qualidade, com redação em péssimas instalações, e cujo patrão era conhecido por fazer "teste do sofá" com empregados homens.

O jornal ficava numa região com rodovias esburacadas, o carro da reportagem era péssimo e rodava em altíssima velocidade até mesmo de noite, com estradas em plena escuridão. O risco de um acidente fatal era altíssimo.

Não havia carga horária fixa, pois o rapaz poderia trabalhar das 7h30 da manhã e encerrar às 23h. A remuneração também era de R$ 1.000 - o emprego seria pouco após o da editora "espírita" - e também era diluída em vale-alimentação. E a linha editorial era tendenciosa, se depender do caso um político corrupto da região teria que ser elogiado em reportagens sociais.

O jovem também recebeu uma proposta de emprego, na capital onde morava, de um jornal comunitário em um subúrbio. que estava em processo de implantação. O futuro editor-chefe já adiantava dizendo que ele sofria ameaça de gente da região por causa de "divergências locais", o que seria um trabalho arriscado.

O rapaz nos escreveu dizendo como seria arriscado trabalhar nesse jornal, já num bairro bastante perigoso, e um dia ter que ir para a redação e, de repente, encontrar o seu chefe de redação morto, com o corpo perfurado por balas. A oferta não foi aceita.

Outra queixa do rapaz é que, durante duas vezes - uma em uma entrevista de emprego e outra no "auxílio fraterno" em um "centro espírita" - ele foi aconselhado a trabalhar numa rádio FM cujo dono é um ex-prefeito corrupto. A própria rádio teria nascido de um esquema de corrupção, quando seu dono, também locutor, armava com um comparsa um desvio de grande quantia de verbas públicas, quando o dono da rádio era titular da Prefeitura, para as fortunas pessoais dele e seu parceiro.

O rapaz reclama que foi amaldiçoado pelo "líder espírita". Este continua dando suas palestras e entrevistas, publicando textos, aparecendo em emissoras comunitárias da TV por assinatura. Enquanto o "líder espírita" se faz de bonzinho alegando "fidelidade absoluta" a Allan Kardec, o rapaz amaldiçoado continua vivendo com os pais enquanto tenta arrumar um lugar no mercado de trabalho.

É constrangedor. Os familiares perguntam por que o rapaz nunca consegue um emprego. "Que problema ele tem?", perguntam, como se suspeitassem de algum problema mental. Os danos morais que ele passou a ter são incalculáveis. O rapaz, hoje, só sente amargura e tristeza pela realidade que ele não consegue resolver mesmo "metendo a cara".

Daí que pode ser maldição. Afinal, o "espiritismo" brasileiro estabelece contradições sérias em suas práticas e ideias, combinando igrejismo, moralismo conservador, misticismo ocultista, pseudociência e outras irregularidades.

É uma doutrina que faz com que um "espírita" se torne mão-de-vaca, querendo que uma pessoa de talento trabalhe para ele, sem que uma remuneração justa seja dada (afinal, o rapaz tinha que pagar suas contas e sobreviver por conta própria, né?), e, quando o rapaz não aguenta, o "simpático espírita" não gosta, fica irritado e roga maldição para o rapaz não arrumar mais outro emprego.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

E tudo começou com um mero comércio de livros


Realmente, o "espiritismo" é uma religião cheia de absurdos e as pessoas não percebem isso. Acham que é a "doutrina da solidariedade" ou a "religião da bondade" e se apegam demais a seus mitos e totens, muitas vezes com cego fanatismo. Não sabem o que está por trás das aparências.

A condescendência dos "espíritas" quanto aos erros doutrinários é tanto que muitos incautos acreditam que basta ler melhor Allan Kardec, nas traduções de José Herculano Pires, que irá resolver o problema. Não vai.

Afinal, ler as traduções de Herculano Pires só é o primeiro de uma série muito longa de passos. Se as pessoas leem estas traduções, que melhor correspondem ao texto original de Kardec, mas acreditam como "legitima" a pseudo-psicografia atribuída a Humberto de Campos, isso significa que os erros continuam acontecendo.

As pessoas nem percebem que o mito de Francisco Cândido Xavier foi construído com os interesses comerciais da Federação "Espírita" Brasileira para vender livros. e que ganhou um reforço sob a influência que Malcolm Muggeridge, com seu documentário sobre Madre Teresa de Calcutá, exerceu sobre a grande mídia e o "movimento espírita".

Daí que o mito de Chico Xavier, que fascina tanta gente, não passa de uma armação que veio, primeiro, da ganância dos chefões da FEB, que queriam vender livros "em nome da caridade" e, depois, com a associação dos mesmos com os barões da grande mídia brasileira.

As pessoas deveriam parar de serem ingênuas. Afinal, se há gente que parece empolgada demais quando o lucro que "vai para a caridade" é consumado, é bom estranhar. Ninguém fica feliz demais porque uma grande soma de dinheiro se acumula para os necessitados. Se alguém fica feliz quando vê muito dinheiro em suas mãos, não é para os pobrezinhos que a maioria dessa grana irá se destinar.

Observando bem, a euforia é demais. Diz a anedota que é uma alegria maior que a festa. E se existe tanto burburinho porque os livros de Chico Xavier vendem que nem artigo de liquidação, é porque algo traiçoeiro existe. E, se em muitas atividades filantrópicas, desvia-se dinheiro e bens para o gozo ou o comércio pessoal dos poderosos, na roustanguista FEB não poderia ser diferente.

Chico Xavier era um plagiador de trechos de obras literárias e um criador de pastiches não muito sofisticado, mas correto. Podia elaborar textos rebuscados, com linguagem aparentemente erudita, mas era incapaz de fazer textos que deem prazer de ler, que sejam de fácil entendimento e expliquem muito com poucas palavras.

Pelo contrário, ele escrevia textos que tinham vícios de linguagem, passagens prolixas, narrativas pesadas. É isso que se observou no caso Humberto de Campos e só uma leitura comparativa entre o que este autor deixou em vida e as obras supostamente atribuídas a seu espírito que se desmascara a farsa. O "espírito Humberto de Campos" escreve de forma bem diferente do que o autor maranhense.

A combinação de moralismo religioso, misticismo herege e pseudociência herdados de valores medievais fazia o "espiritismo" se tornar intragável e indigesto, daí que é necessário criar um mito associado ao "amor e bondade" e que personifique, mesmo sob os preconceitos elitistas e paternalistas, uma concepção conservadora de "humildade" e "superação".

E aí o mito de Chico Xavier foi construído, aproveitando os pontos fracos de uma sociedade acomodada e radicalmente conservadora. O mito do "interiorano humilde", que as manobras da FEB tentavam colocar acima de qualquer escândalos, tentando fazê-lo imune a qualquer incidente, foi decisivo para os interesses comerciais da federação.

Chico Xavier era um roustanguista convicto, mas tinha muito medo de assumir esta postura. Na verdade, ele nunca foi "espírita" e, até 30 de junho de 2002, ele nunca foi com a cara de Allan Kardec, o qual o "médium" mineiro, no fundo, achava um "grande chato", cujos livros lhe eram de difícil compreensão.

No entanto, ele foi empurrado ao longo dos tempos para "representar a Doutrina Espírita", e seu mito se agigantou. Houve oportunidades de Chico Xavier ser desmascarado, em 1944 e 1958. Em 1944, os juízes, melindrosos com o estereótipo "humilde" do "caipira inocente", não permitiram levar adiante o processo judicial contra Chico Xavier e a FEB.

Já em 1958, as denúncias de fraude na "mediunidade", trazidas pelo sobrinho Amauri Xavier Pena, fizeram a FEB recorrer a uma campanha difamatória contra o rapaz, com o apoio de vários "espíritas" que escreveram coisas rancorosas contra o jovem, que recebeu acusações infundadas (ele era tido até como "falsificador de dinheiro"), foi maltratado num sanatório "espírita" e teria morrido envenenado, porque é difícil uma pessoa morrer com 27 anos apenas porque "bebeu demais".

Até na crise do roustanguismo quiseram salvar o "midas da FEB", como deveria ser conhecido Chico Xavier. Ele, assim como seu discípulo Divaldo Franco, forjaram falsas mensagens atribuídas ao médico Adolfo Bezerra de Menezes (que teria reencarnado pouco após 1900, como seria de pessoas como ele, provavelmente sendo uma outra pessoa ainda encarnada dos anos 1960 aos 1980, época das supostas mensagens), dizendo-se "arrependido" pelo roustanguismo.

Era uma forma dos ditos "kardecistas autênticos" - termo citado, no sentido contestatório, por Carlos Imbassahy - tomarem o poder, usando Allan Kardec apenas por uma estratégia política, já que a cúpula da FEB, centralizadora e contrária aos interesses das federações regionais, era assumidamente adepta de Jean-Baptiste Roustaing.

Aí foi outro interesse leviano. Os roustanguistas "regionais", com a adesão de Chico Xavier e Divaldo Franco, apenas se opusaram a Roustaing porque ele era o símbolo do anti-regionalismo da FEB, como se este tivesse fundado o Partido de Roustaing e os "regionais" tivessem fundado o Partido de Kardec.

Só que as próprias mensagens do suposto Bezerra de Menezes apelavam para "kardequizar" (e não "kardecizar", como seria de praxe), o que indica uma corruptela do termo "catequizar", o que comprova que o igrejismo de herança roustanguista era mantido em sua essência, com toda a alegação de "respeito e fidelidade absoluta" ao professor lionês.

Até o fato da FEB colocar alguns livros de Chico Xavier para serem publicadas em outras editoras ou, mais recentemente ainda, filmes "espíritas" não muito baratos serem integralmente disponíveis de graça no YouTube, escondem o preço do tendenciosismo, da "livre reprodução" de obras, já que as entidades "espíritas" arrumam outros modos de arrecadação financeira que possam atrair mais gente.

Portanto, são apenas jogos de interesses. E o pessoal feito bobo alegre acreditando que existam pessoas que fiquem felizes porque muito dinheiro lhes chega nas mãos para ser passado para pessoas humildes. Se isso fosse realmente verdade, teríamos sentido a diferença em todo o país, mas o problema é que a pobreza continua havendo e até se agravado nos últimos tempos.

Daí que as atividades do "movimento espírita" são dotadas do mais puro tendenciosismo, e a boa-fé de muitos faz com que não se perceba o "espírito" da coisa. Pois enquanto as pessoas acreditam inocentemente na "bondade mais pura", mal conseguem perceber que essa retórica toda não passou de um apelo para vender mais livros e enriquecer dirigentes religiosos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Razões para as más energias do "espiritismo"


Por que o "espiritismo" brasileiro traz más energias? Porque nós somos malcriados e reagimos contra o trabalho do bem? Não. As más energias ocorrem por causa das contradições que essa doutrina confusa traz para si, pelos seus próprios atos, ideias e procedimentos.

A culpa é do próprio "movimento espírita" como um todo. Ele rompeu com Allan Kardec nos primórdios da Federação "Espírita" Brasileira, preferindo o igrejismo obscurantista de Jean-Baptiste Roustaing. Mas o pior não foi apenas isso.

Afinal, chegou-se um momento em que os "espíritas" enfrentaram a crise do roustanguismo e, sem deixar o legado deixado por Os Quatro Evangélicos, passou a personificar o que Carlos Imbassahy havia definido de forma pejorativa como "kardecistas autênticos".

Daí a grande e mais perniciosa contradição. Os "espíritas" mantinham o legado igrejista de Roustaing mas punham o nome deste autor debaixo do tapete, enquanto fingiam "fidelidade e respeito absoluto" à obra de Allan Kardec e investiam na pseudo-ciência para dar a impressão de "seguirem corretamente" o pensamento do pedagogo de Lyon.

Por meio disso tudo, a figura de Francisco Cândido Xavier se ascendeu através de muitas confusões e escândalos. A constatação de que o "médium" mineiro fez plágios e pastiches literários em seus livros mostrou-se verídica, para infelicidade dos "espíritas", por uma simples comparação com os estilos originais dos autores alegados, sejam Olavo Bilac, Auta de Souza, Augusto dos Anjos, Humberto de Campos, entre outros.

A figura confusa e contraditória de Chico Xavier, se foi "antena psíquica" de alguma coisa, foi para atrair espíritos traiçoeiros e perigosos que vieram confundir as pessoas num misto de deslumbramento religioso e moralismo conservador.

Chico Xavier atraiu o espírito do padre Manuel da Nóbrega, conhecido pelo autoritarismo extremo, pela personalidade violenta, pelas ideias reacionárias com boas doses de racismo e machismo em sua trajetória, conforme registros históricos imparciais o definem. Ele ressurgiu sob o codinome Emmanuel e manteve muitos de seus severos preconceitos sociais e ainda ameaçou de morte Chico Xavier se caso ele não cumprisse suas ordens de produzir uma bibliografia mistificadora e igrejista.

Sim, são más energias, que fazem com que o "espiritismo" brasileiro se perdesse em infinitas contradições e irregularidades diversas. Há até mesmo denúncias de escravidão envolvendo o palestrante "espírita" Alamar Régis Carvalho, acusado de não remunerar dignamente os funcionários da Editora Seda, que faliu diante de tantos processos trabalhistas contra ele, que, com o filme "queimado", se mudou para São Paulo.

Quem acompanha este blogue e o Dossiê Espírita fica chocado com uma série de incidentes negativos envolvendo o "movimento espírita". A primeira reação que se tem é dizer "Não, não pode ser verdade. Isso é invenção". Só que fatos confirmam tudo isso, com provas apresentadas e análises das mais imparciais e fidedignas.

Do lado dos "espíritas", eles são incapazes de explicar muitas irregularidades. Uns tentam minimizar, dizendo que é um erro de "poucos espíritas menos influentes". Outros tentam dizer que foram "erros menores". Mas a maioria apenas se limita a fazer coitadismo ou vitimismo, se dizendo "vítimas de maliciosas campanhas contra o trabalho em prol do próximo", sem dar argumentos sequer verossímeis.

As más energias do "espiritismo" travam o Brasil que seus ideólogos e adeptos tanto sonham em ver como "coração do mundo". E causam efeitos devastadores até em famílias que buscam positivamente aderir a essa religião.

Não por acaso, muitos devotos "espíritas" são alvos de infortúnios aqui e ali, perdendo seus melhores filhos em tragédias que poderiam ser evitadas ou arrumando conflitos em qualquer situação. Os "espíritas" se expõem mais aos algozes do que os ateus. Tratamentos espirituais trazem mais azar do que sorte e não cumprem a promessa de resolver os problemas que motivaram tais terapias.

"Centros espíritas" são instalados em lugares perigosos, de assaltos constantes. Mas também a má conduta de quase todos eles, seja pelas vaidades pessoais de seus dirigentes, seja pela forma autoritária com que são feitas as doutrinárias, com instalações trancadas para impedir a saída de seus fiéis, mostram a carga vibratória pesada do "movimento espírita".

No bairro do Uruguai, em Salvador, um dos núcleos do "centro espírita" Cavaleiros da Luz é uma pequena casa sem instalações de segurança e conforto. Localizada junto a "gatos" (instalações elétricas irregulares), ainda tem acessos estreitos de saída, sem qualquer acesso de emergência.

O "centro espírita" tranca suas portas nas doutrinárias de sábado à noite, forçando o frequentador a ficar até o final, para depois demorar a esperar o último ônibus da linha 0207 Massaranduba / Itaigara que serve aquele dia.

Além disso, se ocorrer um incêndio no local ou na vizinhança, fatalmente quem está no "centro espírita" irá morrer, da mesma forma que os frequentadores da boate Kiss, na cidade gaúcha de Santa Maria, naquele famoso incêndio de 2013.

Tantos episódios lamentáveis são de responsabilidade dos próprios "espíritas", do "movimento espírita" como um todo. A falsa mediunidade, o rígido igrejismo, o moralismo retrógrado são raiz para muitos e muitos erros, e relatá-los não é de forma alguma campanha de difamação ou perseguição.

Afinal, culpar o faxineiro, que realiza a limpeza de um local, pela sujeira antes acumulada, é uma forma de mascarar os erros, e mais suja é a complacência a essas irregularidades graves do que denunciar os mais graves erros e fraudes cometidos.

O próprio espírito Erasto já havia advertido para criticar as fraudes "espíritas" sem qualquer tipo de condescendência, por saber que essas fraudes e outras ações traiçoeiras dos inimigos internos da Doutrina Espírita trazem efeitos danosos e devastadores. Erasto nos preveniu contra as farsas do "espiritismo" brasileiro. Os brasileiros é que não o ouviram.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

"Teologia do Sofrimento" defende gradual "limpeza social"

PARA A "TEOLOGIA DO SOFRIMENTO", VIVER ASSIM É "FELICIDADE".

Um "holocausto do bem". A definição irônica da Teologia do Sofrimento pode parecer extremamente cruel com essa ideologia religiosa, mas ela é bastante realista, na medida em que se observam suas "dóceis palavras" sobre o quanto o sofrimento é considerado "lindo" e o sofredor tenha que sofrer o que há de pior para obter as "graças do céu".

A Teologia do Sofrimento, num contexto religioso em que se fala em "união", é controversa até entre os católicos. A ideologia é própria de correntes medievais e ortodoxas, mas renegada por correntes mais progressistas. A Teologia da Libertação, que consiste num Catolicismo de esquerda, renega a ideia do "sofrimento lindo" ou do "bem sofrer" e busca meios para tirar os sofredores de seus infortúnios, até de maneira que incomode as alas mais conservadoras que dominam o Vaticano.

Fora do contexto católico, a Teologia do Sofrimento é defendida pelo "movimento espírita", de uma maneira não-assumida, e pela Cientologia, de uma forma mais complexa e engenhosa. Em ambos os casos, o verniz "científico" tenta camuflar a defesa dessa ideologia medieval e ultraconservadora.

No "espiritismo", a Teologia do Sofrimento é personificada pelo próprio Francisco Cândido Xavier, pela influência do Catolicismo ortodoxo que era a profissão de fé do "bondoso médium". Embora isso pareça uma "acusação indevida" contra o "pobre homem", ela se constata pelas frases deixadas pelo próprio anti-médium mineiro, uma lembrança para quem imagina, incauto, que os erros de Chico Xavier nunca foram de sua responsabilidade.

Chico Xavier sempre disse para as pessoas "sofrerem amando e em silêncio". Ele recomendava que os sofredores não fizessem questionamentos, queixas, contestações. Todos tinham que aguentar as piores coisas da vida, não se sabe até quando, mas visando o prêmio das "graças do Céu" e das "bênçãos da vida futura".

Tínhamos que acreditar na incerteza da vida futura como a "certeza" de benefícios que não temos certeza se realmente virão. A humanidade é golpeada por retrocessos sociais aqui e ali, e, se somos impedidos de aproveitar nossos potenciais de vida por causa de barreiras intransponíveis, não é em outra encarnação que haverá a garantia de que esses potenciais possam ser aproveitados.

Se hoje nossos ideais são bloqueados por tantos obstáculos difíceis de serem superados, amanhã poderá não haver oportunidades para esses ideais, mesmo que eles sejam liberados e banalizados. Se hoje temos pessoas que impedem nosso caminho, amanhã teremos oportunistas que usarão nosso caminho para passar a perna e tomar nossos ideais como sendo de criação deles.

A ideia do "bem sofrer" é descrita pelos católicos com um discurso pretensamente benevolente, mas muito prolixo e sem pé nem cabeça. Os defensores da Teologia do Sofrimento tentam argumentar que o sofrimento "não é defendido por Deus", e tentam convencer a opinião pública que a fé, ou seja, cruzar os braços e se apegar à devoção religiosa, poderiam "tirar" o sofredor de sua situação infeliz.

No "espiritismo", a retórica é bem mais sutil. Oficialmente, o "espiritismo" não segue a Teologia do Sofrimento e os palestrantes, feitos bobos alegres, tentam convencer as pessoas que "ninguém nasceu para sofrer". Tantos livros "espíritas" falam em "felicidade" e "propostas para a qualidade de vida", e até Divaldo Franco, sob o ditado de Joana de Angelis, lançou um livro chamado Vida Feliz.

É o habitual malabarismo discursivo dos "espíritas", e que mostram o caráter desumano que seus integrantes acabam tendo. Em uma entrevista no "auxílio fraterno", um paciente reclamava a dificuldade de atrair mulheres de sua afinidade pessoal, só atraindo aquelas com as quais ele não se identificava nem se sentia atraído. Hipócrita, o "bondoso" entrevistador pensou que o paciente era homossexual e insistiu nesse julgamento de valor, mesmo quando desmentido pelo entrevistado.

A Teologia do Sofrimento acaba, tanto através do Catolicismo, do "movimento espírita" e da Cientologia, criando um "holocausto" politicamente correto e a defesa do sofrimento como "algo lindo" não se refere aos privilegiados, porque a ideologia esconde um dado cruel de sua pregação.

Esse dado cruel consiste na ideia de que os privilegiados devem permanecer privilegiados e os sofredores devem permanecer sofredores. Quem é desgraçado, que fique nesta situação. O que as religiões fazem é apenas minimizar os efeitos nefastos e evitar as consequências fatais - ou, se não evitar, dar uma "justificação divina", como os "espíritas" fazem, atribuindo os sofrimentos pesados ao pretexto de "resgates espirituais" - com a chamada caridade paliativa.

Não se trata de lutar para superar o sistema de classes, mas cruzar os braços e apenas adotar soluções "moderadas" para resolver as coisas "sem choques". Donativos são fornecidos sem que possam transformar pobres em pessoas capazes de gerar suas próprias rendas. Sistemas educacionais são adotados sem que estimulasse nos estudantes uma postura crítica e criativa em relação ao mundo, mas apenas uma capacidade de ler, escrever e fazer algo sem ameaçar padrões do "estabelecido".

Fora essas atitudes inócuas que só resolvem parcialmente, e, podemos dizer, precariamente, os problemas humanos, a Teologia do Sofrimento católica, "espírita" e cientologista, ou de alguma crença similar, não se compromete em resolver as desigualdades humanas.

Na sua essência, a Teologia do Sofrimento defende a manutenção das desigualdades humanas, apenas evitando seus efeitos mais extremos. Se baseando na noção hierárquica do moralismo religioso, ela legitima privilégios de minorias se baseando na meritocracia e na intervenção divina. Com isso, a ideologia consiste em defender que os privilegiados e sofredores permaneçam em suas respectivas condições.

Isso pode gerar uma chamada "limpeza social", porque, ao defender a manutenção das desgraças dos sofredores, eles de uma forma ou de outra sucumbem, ainda que seja aos poucos. A caridade paliativa não resolve os problemas e, em dado momento, se torna escassa.

As pressões dos infortúnios levam pessoas a cometerem crimes ou suicídios e os obstáculos extremos levam as pessoas a serem vítimas das próprias privações, morrendo por causa da fome, do desemprego e até de conflitos diversos com outros desgraçados mais agressivos.

A força do sofrimento não contestado estimula o consumo de drogas, a prática de latrocínios, o rancor humano, daí a inutilidade dos apelos da "paz" e da "caridade", que berram por "aceitação" e "mais fé" para pessoas que, de tanto sofrer, acabam se tornando ríspidas, agressivas, apáticas, descrentes e violentas.

Não adianta, portanto, a "boa verborragia" das religiões, que com seus coraçõezinhos enfeitando textos bonitinhos, apelam para a "paz" a "solidariedade" e a fé, se deixam as pessoas morrerem ao defender que o sofrimento é "lindo" e um "caminho seguro para Deus".

A fé, na Teologia do Sofrimento, afirma que sofrer é "rota segura para bênçãos futuras". Só que, de tanto defender o sofrimento, acaba influindo, mesmo de forma indireta, nas tragédias que são mais frequentes "no lado de baixo". E mostra uma crueldade por parte de seus "bondosos" pregadores.

Desta forma, não são os pregadores da fé, que defendem a Teologia do Sofrimento, que sofrem. Eles são privilegiados, detém um status quo às avessas, através do estrelato religioso baseado no aparato de pretensa humildade. E a "bondade" deles de definir o sofrimento humano como "presente de Deus" e "caminho para a bênção", os aproxima mais dos condenadores de Jesus de Nazaré do que deste próprio.

E aí, vemos um processo sutil de "limpeza social", pois os sofredores, permanecendo na desgraça, morrerão em consequência da mesma, geralmente bem cedo e em grandes quantidades. A histeria religiosa que faz os sofredores correrem para igrejas, templos e até "centros espíritas" em busca de socorro não resolve, porque as desgraças continuam, ou talvez mudam, com a substituição de uma desgraça por outra, dando a falsa impressão de que o motivo anterior de sofrimento acabou.

Além disso, na medida em que os desgraçados morrem vítimas de seus infortúnios, os religiosos mostram mais uma crueldade. Alegres, eles apenas "lamentam" os óbitos "repentinos" e tentam "consolar" as pessoas dizendo que os desventurados da vida alcançaram o "seio de Deus", estando agora "protegidos" pela "força de Jesus". Hipocrisia e cinismo maiores que isto não há.

Afinal, isso significa um prazer oculto pelo sofrimento humano. Achar que fulano só será "feliz" se morrer, depois de aguentar tantas desgraças na vida, é uma perversidade que a doce retórica religiosa tenta em vão ocultar ou desmentir, mas deixa a nu se observarmos as coisas por trás das aparências.

E mais uma vez as pessoas têm que tomar muito cuidado com as aparências. Pois existem inúmeras formas de cometer perversidades, uma delas é se apoiar das mais belas, doces e admiráveis palavras e dos mais positivos pretextos. Convém tomarmos muito cuidado.