sábado, 2 de janeiro de 2016

De palavra em palavra, desvia-se do foco


O que é ser espírita? O "espiritismo" brasileiro não sabe, evidentemente. Afastado dos ensinamentos de Allan Kardec, o "movimento espírita" usa mil artifícios para compensar a ignorância e a desonestidade doutrinárias com palavras bonitinhas, ideais para camuflar a incompetência mediúnica e o desprezo à Ciência.

O que se observa é uma avalanche de "palavras de amor", "mensagens edificantes" e todo o mel e o açúcar da retórica sentimentalista, voltada a uma fé igrejista, e ilustrada por coraçõezinhos e tantas imagens de forte apelo emotivo, como crianças brincando, pobres sorrindo etc.

Tudo isso parece admirável, confortável e animador à primeira vista, que mesmo os críticos da deturpação doutrinária menos vigilantes conseguem defender e apoiar. Mas tudo isso é um desvio de foco, não é este o propósito da Doutrina Espírita, e nunca foi.

Como lembrava Allan Kardec, a Doutrina Espírita tem três princípios fundamentais: Ciência, Filosofia e Moral. Este terceiro elemento foi confundido com Religião e isso abriu o caminho para as deturpações que conhecemos.

E aí o que se observa é que os outros dois princípios caíram no esquecimento e só são lembrados para bajulações e abordagens bastante tendenciosas. Enquanto isso, o elemento Religião, e não mais Moral, permite não só todo tipo de igrejismo como faz com que o "espiritismo" enrole as pessoas através de seu bom-mocismo doutrinário.

De repente, o "espiritismo" virou a "religião da solidariedade", o que é um grande absurdo. Isso porque a doutrina brasileira transforma ideias genéricas como bondade, caridade, fraternidade, amor e solidariedade como "diferenciais" e isso é um grave erro, porque torna tais qualidades uma "vantagem específica" do "movimento espírita".

Isso desvia totalmente o foco porque o Espiritismo não tem como natureza prioritária promover a "solidariedade". A solidariedade deveria ser uma qualidade de qualquer instituição, independente de que crença ou ideologia seja. Se ela vira um "diferencial" de certos movimentos, então isso se torna um processo pernicioso, que nivela por baixo os valores normais da humanidade.

Tal ideia de usar o "amor e a caridade" como "diferenciais" do "espiritismo" brasileiro, além de representar um ideal oportunista e discriminatório, mascara toda a incompetência dos seus integrantes em lidar com seriedade os temas trazidos por Allan Kardec. Como os "espíritas" brasileiros têm dificuldade de entender a Doutrina Espírita, então eles apelam para "serem bonzinhos".

E aí, haja "palavras de amor" e toda mensagem ou imagem de apelo sentimentalista, em que a pieguice vira um artifício para disfarçar a infidelidade doutrinária. Os "espíritas" gostam de usar a desculpa de que "o amor tudo permite", para que assim possam atropelar "com amor" a lógica e o bom senso, para não dizer a ética.

Verdadeiras atrocidades em relação à lógica, ao bom senso ou mesmo à ética, como a usurpação dos nomes dos mortos, são feitas. Plágios e pastiches literários são feitos impunemente. Julgamentos de valor sobre presumidas encarnações passadas são feitos sem exame, e tudo isso é feito sob o véu da "doutrina do amor e da caridade".

Muitas mistificações são feitas sob o verniz do "conhecimento", verdadeiros atos de obscurantismo e persuasão pelos absurdos, e isso é feito porque "o amor tudo permite", toda aberração é válida sendo ela protegida pelo rótulo de "amor e luz".

Daí que o "amor" vira uma desculpa para o desvio de foco, para uma fuga do propósito original. Daí o grande problema do "movimento espírita". Ele tenta enfatizar o "amor" porque é incapaz de abordar, com honestidade e abrangência, a verdadeira Doutrina Espírita.

Tudo fica sendo um festival de discursos, de retóricas, de palavras bonitinhas. Fora isso, apenas atos paliativos de caridade inexpressiva, que pouco transforma e não intervém de maneira definitiva nem decisiva contra as desigualdades sociais.

Ou seja, um "espiritismo" que muito fala e pouco faz, que praticamente nada entende do pensamento de Allan Kardec, não pode ser considerado válido por causa da imagem de "bonzinho". Uma doutrina "boazinha" pode mostrar coisas lindas, mas se ela é inócua em seus propósitos, ela se torna, portanto, inútil. E é isso que o "espiritismo" brasileiro acabou sendo: inútil.

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