domingo, 17 de setembro de 2017

"Espíritas" se confundem ao definir a "data-limite" como fase de turbulência ou regeneração

"PROTEGIDA" POR "NOSSO LAR", PELA RÁDIO RIO DE JANEIRO E PELO JORNAL "CORREIO ESPÍRITA", A CIDADE DO RIO DE JANEIRO VIVE GRAVE SURTO DE VIOLÊNCIA.

Os "espíritas" são marcados pela confusão de argumentos, quando o assunto é evolução da humanidade. Não conseguem se decidir se o que ocorre é uma regeneração ou um momento de turbulência, chegando mesmo a desmentir expectativas que, na véspera, afirmavam como certeiras, tão possuidores da verdade que se acham os "espíritas", que lutam para ter para si a palavra final.

Nos eventos políticos de maio de 2016, houve um processo que depois se definiu como "golpe político moderno", um golpe que foi marcado não pela ação de tanques do Exército nem de grupos paramilitares assaltando o poder, mas pelo aparato de "legalidade" trazida pelos poderes Legislativo e Judiciário, aliados ao Ministério Público e à Polícia Federal. Foi o golpe político que representou a volta dos conservadores ao poder no Brasil, através do governo do retrógrado Michel Temer.

Pois esse golpe político-judiciário, também apoiado pela grande mídia, foi definido pelos "espíritas" como um "momento de despertar para o Brasil". Além do habitual refrão de pedir "orações para as autoridades pensarem no povo brasileiro", os "espíritas" passaram a alternar artigos de puro otimismo com súplicas, cada vez mais constantes, para os sofredores e desafortunados da sorte aceitarem desgraças e limitações pesadas, suportando tudo com "fé e resignação".

Os "espíritas" chegaram mesmo a apelar para os sofredores "amarem o sofrimento". Mas aí, quando se divulgou na Internet que o "espiritismo" brasileiro estava acolhendo a Teologia do Sofrimento, corrente católica-medieval que faz apologia da desgraça humana, os "espíritas", dissimuladores contumazes, logo recuaram e tentam desmentir, criando agora textos sobre "esperança" e até sobre o lema cristão "Pedi e Obtereis".

A defesa subliminar do governo Michel Temer era observada, nos textos "espíritas", por essa Teologia do Sofrimento. Infere-se que as reformas conservadoras do governo Temer são apoiadas com entusiasmo pelos "espíritas": a reforma trabalhista, por evocar valores ligados à hierarquia social, ao desapego material e à conformação com as limitações humanas. A reforma previdenciária, pela ideia de adiar um benefício para a beira do túmulo.

Mas também o "espiritismo" definiu os manifestantes do Março de 2016, que pediram o fim do governo Dilma Rousseff, como "jovens conscientizados", atribuindo a eles um "despertar político" e "intuição de espíritos benfeitores". Há quem viesse a atribuir a ação das "crianças-índigo" e "crianças-cristais" que estariam impulsionando o progresso no Brasil.

Esta alegação parece bonita, mas se torna risível quando se observa quem são esses manifestantes. Uma histérica Janaína Paschoal, recentemente reprovada num concurso para o corpo docente da USP, um Alexandre Frota (que foi famoso ator de TV e chegou a ser casado com Cláudia Raia) que, de tão reacionário, teve conta cancelada no Twitter, e grupos como o Movimento Brasil Livre, Vem Pra Rua e o Revoltados On Line, na ironia dos "espíritas" se dizerem contra qualquer expressão de revolta.

No Movimento Brasil Livre (MBL), se destacam figuras pitorescas como Kim Kataguiri e Fernando Holiday, este um negro homossexual que defende propostas contrárias a negros e homossexuais. Eleito vereador de São Paulo pelo DEM, na chapa que apoiou o prefeito João Dória Jr., Holiday decidiu "peregrinar" pelas escolas públicas patrulhando os professores e forçando-os a seguir as ideias da Escola Sem Partido.

A Escola Sem Partido é um projeto educacional insosso, de moldes conservadores e essência medieval. Consiste em restringir a pedagogia ao processo de ensinar a ler, escrever e aprender um ofício. No nível universitário, ela se restringe à formação técnica. Não se estimula o desenvolvimento real de conhecimentos fora dos limites pragmáticos de cada especialização, e se desencoraja o pensamento crítico, mas, em contrapartida, se permite transmitir fantasias religiosas.

No "espiritismo" brasileiro, o programa educacional de instituições como a Mansão do Caminho, de Divaldo Franco, localizada no bairro de Pau da Lima, em Salvador, encontra afinidades com a Escola Sem Partido, de tal forma que muitos fazem o trocadilho da sigla ESP com o próprio nome "espiritismo".

O próprio Divaldo Franco havia sido um entusiasta dos "novos tempos", mas ultimamente ele estava meio perdido diante dos rumos do Brasil, e, numa entrevista recente durante um "congresso espírita" na Espanha, ele "criticou" aquilo que ele mesmo adorava fazer, o de estabelecer datas prévias para acontecimentos sócio-políticos na Terra.

Divaldo, assim como os demais ícones "espíritas", sempre se embolou ao definir datas futuras. Os "espíritas" apostavam que o biênio 2010-2012 - 2010, pelo centenário de nascimento de Francisco Cândido Xavier - iria ser um preparativo para um período de regeneração da humanidade, mas a onda reacionária que surgiu nas redes sociais e estourou nas ruas e nas urnas em 2016 desmentiu tal perspectiva.

Os "espíritas", então, que na véspera eram tão taxativos e seguros em suas predições, tentam arrumar desculpas para o fracasso de suas visões. Dizem que os "irmãos pouco esclarecidos" (eufemismo para "espíritos inferiores") não deixaram ocorrer a evolução, que turbulências repentinas ocorreram e, por isso, os "benfeitores espirituais" estabeleceram novas datas para a regeneração da humanidade. Foi sempre essa mesma lorota, existente há pelo menos 50 anos.

DATA-LIMITE

Os "espíritas" também se confundem ao definir a data-limite de 2019 "prevista" por um sonho de Chico Xavier como um período de regeneração ou de depuração. Uns dizem que o ano será um marco de um futuro progresso da humanidade, outros um período ainda de turbulências.

Não há uma definição exata e coerente, porque os "espíritas" se arrogam em querer prever o futuro, estabelecer datas fixas para acontecimentos futuros e ficar plantando esperanças vãs com o objetivo de lotar as "casas espíritas" e aumentar a quantidade de fiéis.

Sabe-se que o auge do "movimento espírita", apoiado pelo discurso da "Nova Era" plantado entre 1975 e 2010, representou uma série de perspectivas e expectativas que se revelaram, depois, grandes e profundas bobagens. E, vindas de deturpadores do Espiritismo original, essa bobagem tem suas razões de ser.

Afinal, o próprio Allan Kardec reprovava o estabelecimento de datas prévias para acontecimentos cruciais para a humanidade. Uma citação do espírito São Luís, publicada em O Livro dos Médiuns e cujas ideias estão de acordo com a lógica trazida pelo Codificador, é clara:

"Os Espíritos bons podem fazer-nos pressentir as coisas futuras, quando esse conhecimento for útil, mas jamais precisam as datas. Todo anúncio de acontecimento para uma época certa é indício de mistificação".

A declaração praticamente derrubou Chico Xavier, Divaldo Franco e outros que se atrevem a ser pretensos cristos e pretensos profetas, se valendo do prestígio religioso e do aparato de palavras enfeitadas e textos verborrágicos que soam prolixos e rebuscados, mas são do agrado de muita gente.

Perdidos, os "espíritas" precisam fazer ginástica mental para explicar por que suas "previsões", que julgavam tão certeiras e precisas, foram desmentidas pelos fatos. Criam argumentos e desculpas esfarrapadas, sem medir escrúpulos para contradições, e depois apelam para o "deixa para lá" para ficarem apelando para conceitos igrejeiros de "fraternidade".

Pretensamente racionais, os "espíritas" criam um engodo intelectual, mas no final tudo acaba soando meros apelos igrejistas. Depois os "espíritas" ficam falando mal da "vaticanização" e do roustanguismo.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Mensagem "espiritual" atribuída a Allan Kardec dá indícios de obra 'fake'


É muito pouco provável que o professor Leon Rivail, conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec, tenha deixado mensagens espirituais. As mensagens que foram divulgadas atribuindo-se a ele soam muito igrejeiras, e, no caso brasileiro, bastante grotescas, sendo a mais famosa, por Frederico Júnior, lançada em 1889, mostrando um suposto Kardec que pedia para valorizarmos a "revelação da revelação" (nome dado à causa do deturpador J. B. Roustaing).

O que se pode inferir, com base na personalidade rigorosamente criteriosa e objetiva de Kardec, é que ele não teria retornado à Terra nem enviado mensagens espirituais. Mesmo deixando seu trabalho incompleto, Kardec teve consciência, na fragilidade de sua doença, de ter deixado uma orientação suficiente para a humanidade apreciar sua teoria e suas ideias.

A mensagem que reproduzimos abaixo é uma "pegadinha". Ela foi publicada na França, destinada à Revista Espírita e publicada nos Anais do Espiritismo daquele país. Isso sugere que a mensagem atribuída a Allan Kardec é "autêntica" e "indiscutível", mas indícios de que a mensagem tem veracidade duvidosa, embora sutis, podem ser identificados.

O texto, no seu conteúdo, apresenta um Kardec estranho, que se proclama um "missionário" e não um professor e muito menos lembra o Kardec original que lançava ideias com o objetivo de estabelecer um debate e mesmo um questionamento, a ponto de dizer que, se a Ciência provar logicamente o equívoco de uma ideia lançada pelo Espiritismo, que se prefira a Ciência do que a Doutrina Espírita.

No texto abaixo, embora o suposto Kardec fale em "ciência", o texto soa bastante igrejeiro. Ele transforma a "ciência espírita" numa religião e Kardec, estranhamente, trata a si mesmo como se fosse um "missionário". Isso parece bonito para as pessoas, mas contraria a natureza pessoal de Kardec, que nunca se comportou como se fosse um militante religioso.

As alegações do suposto Kardec soam místicas e o Espiritismo é visto como uma religião, e o texto triunfalista foge da natureza kardeciana original, embora, sendo uma mensagem veiculada na França e não no Brasil (onde supostas mensagens espirituais não escondem seu caráter fraudulento), pareça um sutil arremedo das mensagens que Kardec veiculou em obras finais como A Gênese e a coletânea Obras Póstumas.

Embora pareça estranho para os leigos, a Revista Espírita (La Revue Spirite), periódico fundado por Kardec, escapou dos propósitos originais do pedagogo de Lyon. O Espiritismo original também foi deturpado na França, a partir de J. B. Roustaing, mas mesmo os seguidores de Kardec suavizaram seu legado ao sabor de crenças católicas, o que comprometeu a essência original da Doutrina Espírita.

Isso significa que mesmo o Espiritismo francês se deixou diluir ao sabor do Catolicismo, não com a voracidade que se observa no Brasil, mas de maneira decisiva, tanto que, no decorrer dos tempos, deturpadores como Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, teriam livros traduzidos para o francês.

Vamos ao texto da mensagem do suposto espírito de Kardec.

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Comunicação de Allan Kardec em 30 de Março de 1924, confiada à - "La Revue Spirite" - pelos Anais do Espiritismo de Rocheford-Sur-Mer (França). N. º de julho de 1924.

"Outrora os espíritas podiam ser contados nos dedos. Escarneciam e praguejavam contra aqueles que se interessavam por essa Ciência; esses tais eram tidos por malucos e evitados com cautela; mas, hoje, vai-se fazendo luz intensa sobre o Espiritismo, porque os sábios o explicam e procuram a realidade dos fatos. Eu não disse na minha vida terrestre, que o Espiritismo havia de ser cientifico ou morreria?

E a ciência vai pouco a pouco homologando os fenômenos espíritas.

Para muita gente, nós o sabemos, esses fenômenos continuam ainda incompreensíveis, porque não se pode explicar e analisar a força que os produz, mas dia virá em que os sábios à descobrirão e provarão que, se a matéria compõe nosso corpo, existe também no ser humano uma coisa mais sutil que anima esse corpo: a alma imortal!

Com grande alegria vejo um raio luminoso aclarando alguns sábios que tendo a princípio repelido os fatos com desdém, observando-os depois com atenção, vão reconhecendo a sua realidade.

Direi, portanto, aos que ainda não compreendem o Espiritismo: estudai, observai, mas não o aceiteis senão com a vossa razão e com a ciência; é por atenção acurada na observação dos fenômenos que chega a concluir: Cela est! ("É isso!", em francês - o tradutor manteve a expressão original)

Aqueles que nos fatos espíritas só vêm ilusão e crendices da parte dos médiuns que nós animamos, estão em erro, podem também estar de má fé.

Se há médiuns mais preocupados de seus interesses que da verdade, também os há, e em maior número, que são sinceros e desinteressados e são na realidade uma força psíquica poderosa, capaz de ajudar os Espíritos a produzir fenômenos; esses são para nós preciosos auxiliares que nos permitirão atingir o triunfo de nossa obra de Luz.

Que Deus abençoe esse trabalho dos Espíritos, que vai crescendo de dia para dia neste planeta, para maior bem da humanidade. Quanto a mim, a minha missão espiritual está cumprida em parte, e dentro de alguns anos tornarei a reencarnar-me entre vós, amigos; e muitas pessoas jovens, que aqui se acham presentes, poderão reconhecer-me então pela minha obra de Espiritismo.

Essa missão terrestre eu a aceitarei com jubilo por amor de meus irmãos da Terra; e para bem a desempenhar meu espírito está se instruindo, está se iluminando nestas maravilhas estupendas e sem limites, onde há tanto que observar.

Eu estou aí haurindo poderosas forças espirituais para voltar ao serviço do progresso da humanidade terrestre, para afirmar a meus irmãos a realidade e a beleza desta vida do espírito no Espaço.

Sim, eu voltarei para trabalhar neste planeta onde lutei e sofri, mas estarei com o espírito mais forte, mais generoso, mais elevado, para aí fazer reinar mais fraternidade, mais justiça, mais paz".

sábado, 9 de setembro de 2017

Imagem "dócil" dos "médiuns" impede que eles sejam investigados em irregularidades


O "espiritismo" não passa de um grande balé de palavras bonitas que escondem um conteúdo conservador. Uma embalagem bonita e aparentemente "limpa", mas que no seu interior esconde uma série de graves e terríveis contradições.

No Brasil, há o costume das pessoas julgarem o conteúdo pela embalagem. O jogo das aparências, sobretudo numa sociedade de hierarquias rígidas e desiguais, onde o "topo da pirâmide" fica com tudo e a "base", sem sequer o necessário, é defendido de maneira ferrenha, neurótica e extremamente apegada.

O "espiritismo" brasileiro fala tanto em desapego, mas é uma das religiões que mais sofrem de apegos muito doentios. É o caso dos supostos "médiuns", que se vê claramente deturpando o legado espírita original, mas pelos quais há um esforço obsessivo em mantê-los como representantes daquilo que justamente deturpam e traem com gosto, a Doutrina Espírita.

O Brasil é um dos países mais ignorantes do mundo. Talvez o mais, se levarmos em conta que pesquisas são apenas recortes de uma parcela da sociedade. A desinformação generalizada faz com que muitas pessoas, mesmo tidas como "esclarecidas" e "progressistas", aceitem gato por lebre e cultuem um "espiritismo" que nada tem a ver com o original francês.

O apego aos "médiuns" atinge níveis que são definidos, pela Ciência Espírita original, como processos obsessivos de "fascinação" e, em certos casos, de "subjugação", criando uma ilusão de "boas energias amorosas" que, diante da mais inofensiva contestação, se convertem em explosões de ódio, raiva e até violência.

É o que se vê em relação a Francisco Cândido Xavier e outros. A adoração cega, a "fascinação" e "subjugação" que eram alertados, com muita antecedência, por Allan Kardec e seus mensageiros, infelizmente é um vício do qual dificilmente sai das mentes de muitos deslumbrados, obsediados pela mística e pela magia que se associam aos supostos "médiuns" brasileiros.

Isso é muito terrível. A imagem dos "médiuns" brasileiros, que romperam com o caráter intermediário da função e vivem do culto à personalidade, se equipara à imagem das fadas-madrinhas dos contos de fadas infantis. O próprio entretenimento das "belas estórias", que existe nas palestras e textos "espíritas" em geral, remete a uma forma grosseiramente adulta do lazer de ouvir estórias infantis durante a infância.

Isso garante a imunidade e a impunidade dos "médiuns espíritas", que se tornam "imexíveis" como os políticos do PSDB, às vezes bem mais do que os chamados tucanos. Há casos de irregularidades em obras "mediúnicas", sejam livros, cartas e pinturas, e ninguém investiga, ou, quando se investiga, lembra o simulacro de investigação que remete a atividades recentes da Polícia Federal, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal que promovem uma "justiça seletiva".

São irregularidades graves, que em país menos imperfeito dariam em acusações de falsidade ideológica e ofensa à memória de pessoas mortas. O baiano José Medrado cria um falso quadro de Cândido Portinari, intitulado "São Francisco de Assis", e o exibe como um troféu no seu programa na TV Bandeirantes, mas ele nem de longe lembra o "São Francisco de Assis" original que o pintor havia feito em 1941.

Mas os casos de Chico Xavier são notórios. O aberrante contraste estilístico que se observa em obras espirituais atribuídas aos espíritos de Humberto de Campos, Auta de Souza, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu e tantos e tantos outros, mesmo não-famosos, em relação ao que eles eram em vida, é evidente. Imagine se a adorável poetisa Auta de Souza, no mundo espiritual, abriria mão de seu estilo feminino de lirismo infantil para "escrever" igualzinho ao "médium" que a recebeu?

Tudo isso daria cadeia, em países menos evoluídos. É charlatanismo puro, uma atitude que até Kardec reprovaria com energia. E não foi por falta de aviso que essa irregularidade ocorre livremente no Brasil, pois a contundente obra O Livro dos Médiuns já preveniu a humanidade da apropriação de nomes ilustres que tanto espíritos farsantes quanto supostos médiuns se utilizam para levar vantagem com o sensacionalismo e a mistificação.

Mas experimente iniciar alguma investigação. Lágrimas serão derramadas pelos seguidores dos "médiuns", que chorarão copiosamente só de imaginar vem um de seus adorados como réus num tribunal. A situação é preocupante, porque a obsessão reage com muita cegueira, mediante falácias como "perseguição ao trabalho do bem" a pessoas, que, na verdade, só ajudam muito, muito pouco.

Sejamos sinceros. Se os "médiuns" brasileiros tivessem realmente feito caridade, até pela pretensão de grandeza que se atribui a eles, o Brasil teria atingido níveis escandinavos de qualidade de vida, até porque se alega que a ajuda desses "filantropos" é "profunda e transformadora".

Mas a verdade é que isso é conversa para boi dormir e o que os "médiuns" fazem é mero Assistencialismo, uma caridade paliativa, pontual, sem enfrentamento real com os problemas da pobreza, uma medida que "não cura" a doença da miséria, apenas "alivia" sua dor. Além disso, o Assistencialismo se preocupa mais em promover o "benfeitor" às custas de uma "caridade" que só traz resultados medíocres para os mais necessitados.

Vergonhoso é ver que Chico Xavier fazia todo um espetáculo de ostentação, a níveis de espalhafato, em pomposas caravanas que só serviam para oferecer doações que se esgotavam em três semanas. Enquanto os mantimentos de um evento filantrópico se esgotavam das despensas das famílias carentes, ainda havia muita comemoração por aquele donativo praticado. Os resultados da "caridade" desaparecem, mas as comemorações continuam, em desrespeito ao sofrimento dos mais pobres.

Igualmente vergonhoso é ver que um fanático seguidor de Divaldo Franco, numa comunidade de ateísmo (?!) nas redes sociais, tenha insistido tanto em defender a risível imagem do suposto médium como "maior filantropo do país", quando dados concretos confirmam que ele não chegou a ajudar 1% da população de Salvador, quanto mais em níveis nacionais.

A teimosia do referido internauta, num meio em que a pós-verdade se dispõe de um exército de desculpas que promovem a supremacia do contrassenso sobre a coerência, tão comum nas redes sociais, revela a preocupação que se tem em definir a "bondade humana" apenas pelo rótulo da religião e pelo prestígio de ídolos religiosos. A miséria dos infortunados da sorte é só um detalhe.

É preciso haver mais questionamentos sobre o "espiritismo" brasileiro e que eles possam ultrapassar os limites da Internet, criando esforços para que até a grande imprensa seja, mesmo a contragosto, induzida a admitir os problemas que envolvem a doutrina igrejeira.

Se ao menos a chamada imprensa alternativa, sobretudo a mídia progressista, rompesse com a complacência obsessiva que envolve os "médiuns espíritas" - que, aliás, são protegidos da mídia mais reacionária, sobretudo as Organizações Globo - e resolvesse investigá-los, sem medo de fazer demolir, como castelos de areia, a imagem adocicada aos níveis das fadas-madrinhas, seria um belo esforço.

Afinal, enquanto as paixões religiosas inebriam as pessoas na Terra, acreditando que as mensagens fake atribuídas aos mortos mas vindos apenas das mentes dos "médiuns" são "autênticas" apenas porque mostram "lindas mensagens", nos planos espirituais os espíritos ficam assustados com as pernas-de-pau longas que a mentira "mediúnica" arruma para manter o status de "verdade absoluta".

A ilusão doentia dos "médiuns" imunes a tudo, até mesmo à coerência dos fatos, só foi possível porque as pessoas são desinformadas, se rendem fácil às tentações da paixão religiosa (tão inebriantes quanto as tentações do sensualismo) e são capazes de mentir a si mesmos dizendo que são "as mais esclarecidas e as mais realistas". Infelizes daqueles que estão presos nestas ilusões.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O blefe perigoso do Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho

A EXTREMA-DIREITA CRESCE, NO ÁPICE DA RETOMADA ULTRACONSERVADORA QUE VIGORA NO BRASIL DESDE 2016.

O quadro político brasileiro simplesmente desqualificou, por completo, o mito de que o Brasil seria "o coração do mundo e a pátria do Evangelho". Não há como os "espíritas" falarem que esse mito apenas "começará em 2019" e que "será um longo caminho". Sabe-se que tudo isso se sustenta com muitas falácias e que a situação do Brasil, na comunidade das nações, não só voltou a ser humilhante como se tornou ainda mais constrangedora para o exterior.

Como o "espiritismo" brasileiro não conseguiu mais esconder seu ultraconservadorismo, um resultado amargo, porém natural, pelas escolhas que a doutrina igrejeira fez a partir do apreço a Jean-Baptiste Roustaing, sabe-se que suas perspectivas de que o Brasil entraria numa "nova era" e que "comandaria o progresso da humanidade" são ao mesmo tempo falaciosas e perigosas.

Podemos garantir que, a poucos meses da "data-limite" - a alegada "profecia" de Francisco Cândido Xavier divulgada em 1986, de que um sonho de 1969 prenunciava uma "moratória de 50 anos" para a humanidade planetária, antes da ascensão do Brasil como "nação-guia" do planeta - , o Brasil perdeu todas as condições da tão sonhada posição. Isso parece ruim, mas é bom, em certo sentido.

Em primeiro lugar, os rumos que o Brasil está vivendo desmoralizaram os "espíritas", que demonstraram que, por trás de seu discurso "futurista", havia um conteúdo doutrinário medieval, cada vez mais afastado de Allan Kardec, ainda que seu nome fosse bajulado com insistência e seus ensinamentos, mal interpretados, fossem evocados de forma pedante pelos palestrantes "espíritas".

A chamada "nova era", fantasia que fez lotar muitas casas "espíritas", na carona de tantos movimentos esotéricos e místicos, uns misturando até ufologia e horóscopo com pastiches de religiões hindus e chinesas, foi derrubada quando, no Brasil, se observa a barbárie querendo voltar com toda força.

Recentemente, se fala de casos de vários homens se achando no direito de se masturbarem em público, ofendendo as pessoas que são alvo desse ato grosseiramente praticado em ônibus. E isso fora os casos de racismo, machismo, homicídio, homofobia e outros, além da ascensão "tranquila" e "segura" do político Jair Bolsonaro, que parece estar indiferente às críticas que recebe e aos escândalos, gravíssimos, que provoca.

Mas se até Chico Xavier é imune aos escândalos que provocou, tendo reagido, em seu tempo, aos piores impasses com vitimismo e hipocrisia - o caso Otília Diogo, que ele acompanhou com gosto nos bastidores, é um exemplo - , sempre buscando um meio de se livrar de encrencas e aliciar pessoas (como o caso de Humberto de Campos Filho, que processou o "médium" e depois foi por este seduzido por um espetáculo de Ad Passiones e Assistencialismo em Uberaba), então Bolsonaro também pode tudo.

Vivemos a viciada complacência com as hierarquias e com a desinformação generalizada das pessoas que parecem ter a sensação, bastante enganosa, de que estão vivendo os tempos áureos. Para elas, bastava tirar o PT no poder e era só "arrumar a casa". Elas pensam que os projetos retrógrados do governo Michel Temer - apoiado pelos "espíritas" - irão beneficiar os não-ricos, mesmo com o desmonte dos direitos trabalhistas e a desnacionalização predatória de nossa economia.

Essa sensação enganosa pode até gerar o discurso de que a "data-limite" se "consolidou" em 2019 e o Brasil "está a salvo". Fala-se de falácias como a "inauguração da Pátria do Evangelho" ("Correio Espírita") e "o fim da recessão na nossa Economia" (O Globo). Depois os "espíritas" não gostam quando alguém diz que Chico Xavier não passa de mais uma estrela da Rede Globo...

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Madre Teresa e o Assistencialismo


Há vinte anos, Madre Teresa de Calcutá faleceu, aos 87 anos de idade. Nascida no mesmo ano que Francisco Cândido Xavier, Madre Teresa é um nome do Catolicismo adotado pelos "espíritas", o que diz muito sobre o caráter conservador do "espiritismo" brasileiro, que acolhe esta que é um dos ícones da Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo.

O próprio mito de Madre Teresa de Calcutá, construído pelo discurso engenhoso e emocionalmente apelativo do jornalista católico inglês Malcolm Muggeridge, inspirou no Brasil a reinvenção do mito de Chico Xavier, sem os apelos pitorescos do antigo tutor do "médium", o presidente da FEB Antônio Wantuil de Freitas, mas com a narrativa de novela tomada emprestada da Rede Globo, que fez o papel de "Muggeridge" da ocasião.

A ideia é sempre criar um paradigma de "caridade" e "bondade" que cause mais deslumbramento do que resultados concretos. No que se refere aos efeitos da sociedade, essa "caridade" traz resultados bastante medíocres, expondo mais o nome do "benfeitor" que se torna objeto de idolatria, extrema e cega, até mesmo quando os donativos que haviam sido distribuídos à população carente tenham se esgotado há um tempo.

A sociedade brasileira é extremamente conservadora e mesmo pessoas que se julgam "progressistas" e "modernas" não conseguem mais esconder seu conservadorismo extremo e, por vezes, reacionário, que contraditoriamente só aceita transformações sociais moderadas, que não mexem nos privilégios das elites dominantes.

Daí que é uma sociedade que vê a "caridade" apenas como um derivado da religião. O raciocínio da sociedade é meramente institucionalista, quase mercantil. Afinal, a "bondade" reduz-se a um "produto", no qual as pessoas prestam mais atenção ao "benfeitor" que é alvo de adoração extrema, quase que como um velocino de ouro.

Os necessitados são só um detalhe. Fala-se vagamente que "muitas pessoas" foram beneficiadas, sem dar informações concretas, se contentando com meras propagandas institucionais, em que os "benfeitores" são cercados de crianças e velhinhos e faz sua "humilde" ostentação que lhe garante os prêmios e os aplausos de autoridades e aristocratas.

Há denúncias sobre aspectos sombrios de Madre Teresa de Calcutá, bastante conhecidos. Mas suponhamos que a "caridade" que ela fez foi "verdadeira". Nem considerando assim permite defini-la realmente como caridade plena, pois se trata apenas de Assistencialismo, "caridade paliativa", uma ideia que as pessoas tomadas de paixões religiosas, como os "espíritas", que remetem aos "médiuns" o culto à personalidade, não conseguem perceber.

O que o "espiritismo" sempre fez foi Assistencialismo. Ele é muito diferente de Assistência Social, embora os "espíritas" aleguem essa segunda denominação. Mas a verdade é que a diferença entre Assistencialismo e Assistência Social é que, enquanto o primeiro apenas "alivia as dores", a segunda "cura a doença" da pobreza.

Os "espíritas" criam toda uma retórica sobre "assistência social", "caridade transformadora", "revolução social" etc. Mas, na prática, só fazem Assistencialismo. Afinal, se a caridade fosse realmente transformadora, o Brasil teria atingido padrões escandinavos de vida, se levarmos a sério a pretensão de grandeza que sempre se atribuiu ao "espiritismo" brasileiro.

Infelizmente, o Brasil sucumbiu ao contrário, e vemos o desmonte voraz dos direitos sociais, comandado pelo presidente Michel Temer, e o "espiritismo" brasileiro dá o maior apoio, vendo neste desmonte "uma excelente oportunidade de exercitar o desapego, o acordo entre irmãos, a resignação e a fé diante do sofrimento".

Os "espíritas" que idolatram Chico Xavier, Divaldo Franco, João de Deus, Madre Teresa e outros "filantropos", movidos pelas paixões religiosas, chegam a cometer a incoerência de dizer que "não é missão da caridade promover o progresso sócio-econômico do país", caindo em muita contradição, porque caridade tem a ver com qualidade de vida, sim.

Enquanto a "bondade" servir apenas para a idolatria religiosa de "benfeitores" que comemoram demais pelo pouco que fazem, as virtudes humanas se reduzem a esse estereótipo do rótulo religioso, da visão institucionalista, burocrática e até mercadológica, que comprova a crença de muitos de que a sociedade é sórdida e a bondade só existiria sob o rótulo de um movimento religioso.

Os brasileiros têm essa visão de "bondade" porque veem novela demais, e seu paradigma é o Criança Esperança da Rede Globo. Submetidas a uma narrativa ao mesmo tempo fabulosa e maniqueísta, feita aos moldes de um "conto de fadas" para adultos, as pessoas entendem a "bondade" sem a compreensão realista verdadeira. Mesmo a miséria lhes é apresentada em tons de dramalhão, o que impede a compreensão objetiva do problema.

Uma grande prova do quanto essas pessoas só aceitam uma "caridade" mais restritiva, que promova a imagem pessoal do "benfeitor", é que elas são as mesmas que se irritam quando políticos e ativistas progressistas, como o ex-presidente Lula e o professor Paulo Freire, realizam projetos de inclusão social mais ampla.

As pessoas que costumam glorificar ídolos como Chico Xavier, Divaldo Franco etc. acabam se irritando com os projetos progressistas, que acusam seus idealizadores de "corruptos", "escolas de guerrilheiros", "doutrinação ideológica" etc. Preferem projetos como a pedagogia igrejeira da Mansão do Caminho, de Divaldo Franco, que aliás se insere nos padrões que estão de acordo com a proposta ultraconservadora da Escola Sem Partido.

Para a sociedade conservadora, é melhor defender uma "caridade" espetacularizada que, embora ajude muito menos pessoas e traga resultados medíocres, é envolvida pela fabulosa mística religiosa, rende uma narrativa digna de contos de fadas e, o que lhe é mais importante, não ameaça os privilégios das elites. A definição desta "caridade" como "transformadora" é apenas conversa para boi dormir. E para as elites dormirem sossegadas, também.

sábado, 2 de setembro de 2017

No Brasil das 'fake news', querem reabilitar o falso Humberto de Campos


O Brasil é hoje marcado pelas páginas de fake news, portais reacionários da imprensa de segundo escalão que, na prática, soam como "satélites" da grande imprensa, que também cada vez mais está desinformando e manipulando as pessoas.

Páginas como "Imprensa Livre", "Jornalivre", "Diário do Brasil", ""Folha da Pátria" e o que vier com nomes igualmente pomposos, difundem notícias de valor verídico bastante duvidoso, em muitos casos transmitindo juízos de valor sem provas, visando sobretudo proteger os interesses das classes dominantes, que sustentam essas páginas mentirosas financiando espaços na Internet.

No "espiritismo", a habitual falta de concentração típica dos brasileiros impede a real comunicação com os mortos. Se ela faz os brasileiros não terem paciência sequer para ouvir música ou ler um livro, quanto mais para se comunicar com o povo do além-túmulo?

Daí que os ditos "médiuns", aberrações que são idolatradas e recebem culto à personalidade, recorrem a obras fake, caprichando nas mensagens religiosas para desencorajar qualquer denúncia. Ninguém iria apontar fraude em "mensagens de amor".

O "espiritismo", no seu desespero paranoico de tentar reabilitar o mito de Francisco Cândido Xavier, agora tenta partir para todos os lados. Algumas concessões têm que ser feitas, como o periódico "Correio Espírita" admitir que Chico Xavier não foi reencarnação de Allan Kardec, mas esta concessão foi feita mais para destacar o anti-médium mineiro e reforçar a "peculiaridade" do "espiritismo" que é feito no Brasil.

A reabilitação de Chico Xavier - algo comparável ao que se fez com Aécio Neves na política - envolve até mesmo a duvidosa e farsante obra que usa o nome de Humberto de Campos. O volume da série "Grandes Temas do Espiritismo", da revista Espiritismo & Ciência (sic), insiste em tentar dar alguma validade à farsa que usurpou o falecido autor maranhense.

A capa da edição destaca o pseudônimo que Chico Xavier e o presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas, deu para o pseudo-Humberto, "Irmão X", uma paródia do Conselheiro XX, apesar da pronúncia ser "irmão xis" diante do "conselheiro vinte". Conselheiro XX foi um pseudônimo usado por Humberto para escrever crônicas satíricas sobre personalidades históricas ou de seu tempo.

A revista, que, como muitas outras, ensina e informa mal a Doutrina Espírita, define como "fundamental" a obra do suposto Humberto de Campos para a divulgação do Espiritismo, algo que vemos ter sido bastante duvidoso e de muito mau gosto, por ter sido uma usurpação de um nome ilustre para vender livros, promover sensacionalismo em torno do "médium" e assim seduzir e enganar a opinião pública, aliciada por apelos igrejeiros das "mensagens fraternais".

O QUE REALMENTE ACONTECEU

A farsa do "espírito Humberto de Campos", que causava, com muita razão, indignação nos meios intelectuais, foi o maior escândalo causado por Chico Xavier, uma das confusões deploráveis que o anti-médium causou mas das quais se serviu do vitimismo para sair ileso de qualquer enrascada. O caso jogou Chico e Wantuil para os tribunais, e os dois, espertos, chegaram mesmo a veicular uma carta fake atribuída a Humberto na qual há apelos muito estranhos. Entre eles:

"(...)Exigem meus filhos a minha patente literária e, para isso, recorrem à petição judicial. Não precisavam, todavia, movimentar o exército dos parágrafos e atormentar o cérebro dos juízes. Que é semelhante reclamação para quem já lhes deu a vida da sua vida? Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas, sem maior significação? Ninguém conhece, na Terra, os nomes dos elevados cooperadores de Deus, que sustentam as leis universais; entretanto são elas executadas sem esquecimento de um til".

Essa declaração Humberto nunca daria, porque se trata de uma ideia um tanto estranha. Um autor defendendo a omissão de sua identidade, como se autorizasse a usurpação de seu nome ao bel prazer, sob a desculpa da "elevada cooperação para Deus". A frase é muito estranha e traz um forte indício do estilo pessoal de Chico Xavier.

Algumas verdades devem ser expostas, esclarecendo os incautos que, com a memória curta e com a percepção equivocada da "bondade" trazida pelas novelas da Rede Globo e pelo Criança Esperança - lembremos que Chico é um protegido da Globo - , veem as coisas como se fossem um conto de fadas, e por isso se recusam a perceber o que está por trás do caso Humberto de Campos. Vejamos:

1) Chico Xavier teria feito uma revanche, por não ter gostado da resenha que Humberto, em vida, fez do livro Parnaso de Além-Túmulo. Embora, aparentemente, Humberto tenha visto semelhanças de estilo nos poemas "psicografados" em relação aos autores originais, o que não indica que Humberto teria legitimado o livro, ele reprovou a "psicografia" sob a alegação de que "autores mortos não podiam concorrer com autores vivos". Ao morrer, pouco depois, Humberto teve o nome usurpado por Chico Xavier, que teria inventado um sonho para justificar a "parceria".

2) Os parentes de Humberto de Campos moveram, contra Chico Xavier e a FEB, um processo judicial que foi um tanto ingènuo na petição: pedia à Justiça analisar as "psicografias" para ver se eram autênticas ou não. Se caso positivo, os herdeiros participariam dos lucros dos livros, mediante direitos autorais. Se caso negativo, Chico e a FEB teriam que indenizar os familiares. Faltou firmeza para apontar que a "psicografia" era uma demonstração de falsidade ideológica, facilmente identificável numa leitura analítica.

3) A "seletividade" da Justiça, famosa por inocentar criminosos ricos - "condenados" à liberdade condicional - e, recentemente, por poupar políticos do PSDB e até do PMDB, em 1944 inocentou Chico Xavier pela desculpa de achar o processo "improcedente", ou seja, a Justiça ignorou a verdadeira natureza da questão, pegando mais no problema secundário de direitos autorais, quando se vê que o caso era claramente de falsidade ideológica, pois o "espírito Humberto de Campos" comprovadamente era diferente, em estilo, do que o autor maranhense demonstrou em vida.

4) O escritor Agrippino Grieco, apontado pelos "espíritas" como "comprovador" da "autenticidade" do "espírito Humberto de Campos", por ver, em princípio, algumas semelhanças entre a obra deixada em vida e a "psicografia", mudou seu ponto de vista e se desiludiu ao saber das revelações dadas aos que questionaram a "obra mediúnica". Com isso, Grieco se envergonhou de ter acreditado na "autenticidade", ao ver que havia irregularidades no estilo do Humberto original e do "espírito".

5) Visando abafar futuros processos judiciais, o esperto Chico Xavier tentou fazer agrados aos familiares de Humberto. O filho homônimo, que virou produtor de TV, foi seduzido pela "doce emboscada" de assistir a um culto liderado por Chico Xavier, em 1957. Esperto, Chico pediu à casa espírita (o Grupo Espírita da Prece, em Uberaba), para organizar atividades de Assistencialismo (caridade meramente paliativa), enquanto ele se valia de um recurso considerado falacioso, chamado "bombardeio de amor" (um tipo perigoso de apelo emocional). Assim, Chico "encheu de afeições" o produtor Humberto de Campos Filho, que foi levado a chorar copiosamente, e depois o produtor era levado pelo "médium" a acompanhar uma caravana ostensiva demais para uma finalidade meramente paliativa: a doação de mantimentos e roupas. Portanto, uma "caridade" que serve mais para propaganda do "benfeitor" do que para realizar uma profunda transformação social.

ESTILOS DIFERENTES

Para quem acha que o "espírito Humberto de Campos" tem "semelhanças" com o Humberto de Campos original, impressão que se dá numa leitura meramente superficial e apressada, identificamos as diferenças de estilos entre o autor original e o "espírito", que devem ser levadas em conta.

1) O estilo de narrativa do Humberto de Campos original era ágil, quase cinematográfica e gostosa de se ler. O do "espírito Humberto" era mais pachorrenta, prolixa, cansativa e inspirava uma leitura "pesada" e entediante, que só agrada a quem for beato religioso.

2) O texto de Humberto de Campos original era culto e correto, porém bastante acessível e coloquial. O do "espírito" era prolixo, rebuscado, pretensamente erudito, porém com sérios vícios de linguagem, como escrever "que cada" (trocadilho com "quicada").

3) A escrita de Humberto de Campos original era descontraída, com uma linguagem parnasiana quase modernista. A do "espírito" tem um forte acento igrejista, era melancólica e deprimente, soando mais como um velho folhetim medieval.

4) Os temas de Humberto de Campos original eram diversos, relacionados à realidade política e cultural, e quase sempre laicos. Mesmo um conto sobre Jesus, no livro O Monstro e Outros Contos, falava mais sobre infância e não de religião. Já o "espírito" era monotemático, escrevendo episódios bíblicos ou usando situações cotidianas para veicular mensagens religiosas, não raro correspondendo ao pensamento pessoal de Chico Xavier.

CONCLUSÃO

As observações acima foram constatadas mediante leitura minuciosa e cuidadosa das duas biblografias, a original de Humberto de Campos e a suposta obra espiritual. As semelhanças de estilo entre os dois repertórios não é muita, e quando há, revela um grande pastiche literário.

A verdade é que a atribuição da "obra espiritual" a Humberto de Campos se conclui falsa, porque as diferenças estilísticas são extremas. Daí que a revista "Espiritismo & Ciência", no volume "Grandes Temas do Espiritismo" dedicados ao suposto Irmão X, cometeu uma grande perda de tempo e se junta à onda das "informações fake" que, em certos casos, cria exércitos de jovens fascistas. Os adeptos de Jair Bolsonaro, tido pelas fake news como "o homem mais honesto do Brasil", que o digam.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

As contradições graves dos "pensadores espíritas"


Quanta hipocrisia acontece no "movimento espírita" nos últimos 40 anos. Tanta deturpação do legado de Allan Kardec é feita, mas os próprios deturpadores insistem em explorar sua teoria, como se fossem "autênticos" adeptos da obra deixada pelo pedagogo de Lyon.

Quantos exércitos de palavras bonitas, perfumadas e enfeitadas, são acionados na desesperada preocupação de palestrantes, escritores e "médiuns" do "movimento espírita" ficarem com a palavra final. Quantos esforços de textos que apelam para a coerência dos outros, quando os próprios "espíritas" desprezam a sua própria coerência, se contradizendo o tempo todo.

Lançar ideias é um ato de profunda responsabilidade social, mas uma ideia não é um produto que, num dia, é mal servido e, em outro, é corrigido. Que é possível um pensador corrigir suas ideias e lançar obras que possam desmentir alguns conceitos apresentados, tudo bem, mas não da forma leviana que fazem os "espíritas".

Estes, sempre se preocupando com a palavra final, acreditando estarem com a posse da verdade - embora, no discurso, tentem desmentir isso, fingindo "caráter mais humano" - , sempre lançam uma ideia equivocada com a pretensão de apresentarem uma visão definitiva e coerente das coisas. Lançam, acreditando na ilusão de que não serão questionados por tal ideia apresentada.

Mas eis que a ideia repercute mal e eles têm que rever as ideias que acreditavam serem definitivas e pouco mutáveis. Imaginam que se podem produzir conceitos diferentes dos anteriores como alguém que prepara um pastel sem higiene e, no dia seguinte, o prepara com a maior limpidez possível.

Só que não é assim. A pretensão da posse da verdade, ou, pelo menos, da palavra final sobre as coisas, tudo para proteger o prestígio religioso do "espírita", faz o palestrante escrever ou dizer uma coisa, achando ser uma visão definitiva, e no momento seguinte escrever ou dizer algo diferente.

Dizer que todos somos falíveis é inútil, porque o "espírita" recorre a isso para evitar a decadência de sua reputação religiosa. Ele precisa "explicar" seus erros para evitar a desqualificação, mas, ao continuar bancando o "intelectual espírita", ele acumula uma obra cheia de contradições, um vergonhoso engodo de palavras bonitas e amistosas, mas um conteúdo extremamente confuso e cheio de incoerências.

PARÓDIAS DA PEREGRINAÇÃO DE JESUS

Poucos admitem que Jesus de Nazaré andava de casa em casa conversando com as pessoas para esclarecer a sociedade atrasada de seu tempo de diversas coisas. A posteridade deu uma abordagem religiosa da coisa, mas o que Jesus queria fazer, numa atitude reprovada pelos pais (Maria e José não aceitavam que ele virasse um andarilho a dizer coisas "subversivas"), era trazer às pessoas revelações inquietantes que a inteligência peculiar do jovem Jesus analisava da sociedade de seu tempo.

Jesus era um grande crítico dos pretensos intelectuais do seu tempo, da tirania do Império Romano e da ganância das pessoas. Seu trabalho era mais sócio-político do que religioso, e sua missão de falar com as pessoas era um ato considerado "anormal" e condenado pela sociedade dominante. Tanto que, por difundir "certas coisas", Jesus foi condenado à cruz, sem o julgamento de Pilatos que foi uma invenção ficcional da Idade Média para culpar os judeus e inocentar os romanos.

Embora os "espíritas", que vivem fazendo turismo pelas mais belas cidades a pretexto de "divulgar a boa nova", digam que estão fazendo o "mesmo trabalho peregrino de Jesus", o que eles fazem, na verdade, está mais próximo do que os velhos sacerdotes e escribas e dos pretensos profetas usurpadores da crendice alheia fizeram no tempo de Jesus e que este reprovava duramente.

Se Jesus voltasse e visse a maioria dos religiosos que atuam em seu nome, ele ficaria envergonhado bem mais do que quando viu os comerciantes de uma sinagoga venderem suas mercadorias em frente ao templo, episódio que ficou conhecido como "os vendilhões do templo".

Jesus havia alertado sobre os falsos cristos e falsos profetas. Allan Kardec alertou sobre os deturpadores do Espiritismo. Até o espírito Erasto se manifestou sobre tal risco, ele que viveu no tempo de Paulo de Tarso (o antigo anti-cristão Saulo, que depois virou admirador de Jesus). E no entanto nós vemos não só falsos cristos e falsos profetas, mas falsos kardecs, falsos erastos, falsos herculanos pires e o que vier de "lobo em pele de cordeiro".

Mesmo os "conceituados" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, eles mesmos deturpadores de primeira hora a envergonhar o legado espírita original, não escapam a esse festival de incoerências e confusões em suas obras rebuscadas e prolixas, de palavras perfumadas e enfeitadas escondendo toda uma podridão de sentidos obscuros e levianos.

De que adianta centenas de livros ou de palestras (Chico Xavier lançou mais de 400 livros), na mais espetacular coreografia das palavras agradáveis, arrancando lágrimas de gente incauta como que num orgasmo pelos olhos, se seu conteúdo é confuso, contraditório, em que conceitos primeiramente tidos como definitivos e taxativos são desmentidos depois da maneira mais desavergonhada e cafajeste?

Um Divaldo Franco, por exemplo, ávido em ficar prevendo os anos de evoluções da humanidade, veio desmentir, recentemente, esse passatempo, criticando a mania "dos outros" em estabelecer datas para isso e aquilo. Ah, os argueiros dos outros, ignorando a trave dos próprios olhos!

A paródia da peregrinação cristã, feita pelos fariseus contemporâneos do "espiritismo", os rebaixa aos piores sacerdotes dotados da vaidade obtida pela pretensão de alcançar os céus com menor demora possível, às custas de uma carreira de palavras enfeitadas e perfumadas e atos fajutos de caridade que mais produzem idolatria e devoção do que resultados concretos para a sociedade.

Se reunissem os textos isolados que certos palestrantes "espíritas" produzem, como se juntam as peças de um quebra-cabeça, o que se resultará é uma vexaminosa antologia de textos contraditórios que não se dialogam entre si, em que num texto se expõe a correta teoria kardeciana e em outro os delírios igrejeiros de André Luiz e Emmanuel.

A contradição não é um problema em si, se houvesse contexto para tal. Mas para os "espíritas", que sempre lançam um ponto de vista que julgam firme e definitivo, partir para uma ideia contrária à anterior demonstra total incoerência, manchando sua obra que se pretende ser a "expressão do bom senso e da coerência", mas que resulta num festival de contrassensos e incoerências que só são aceitas por quem não é suficientemente informado e esclarecido das coisas.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

"Espiritismo" brasileiro e sua crise irrecuperável


O "espiritismo" brasileiro está numa das piores crises de seus 133 anos. A situação está insustentável, porque vieram à tona todo um acúmulo de equívocos trazidos desde quando o movimento preferiu seguir a orientação dos místicos, em detrimento dos científicos. A coexistência dos dois, longe de representar um equilíbrio, só provocou problemas que apenas são abafados momentaneamente.

Atualmente, o "movimento espírita" consiste numa Torre de Babel traçada por imenso acordo. Palestrantes e "médiuns" entram em choque em pequenas nuances da abordagem igrejeira que cometem, além da dissimulação que faz uns bajularem Erasto, outros admitirem Roustaing, uns falarem em "data-limite", outros discordarem disso etc etc etc.

Mas tudo isso é apenas uma tentativa de criar uma "desordem organizada", no qual todos deturpam a obra de Allan Kardec, mas adotam modos pessoais de dissimulação. Condenam a "vaticanização" no discurso, mas na prática são seus mais entusiasmados praticantes.

O aparato de "amor" e "caridade", o balé de belas palavras, a aparente facilidade dos deturpadores arrumarem desculpas para todo que fizerem, cria uma ilusão de que o "espiritismo" pode tudo, que o "espiritismo" é a única religião brasileira capaz de desafiar a lógica e o bom senso, na esperança de liquidá-los em prol de um "espaço reservado" para o contrassenso e as invencionices feitas ao sabor da fé deslumbrada.

Nos últimos anos, a "solidariedade espírita" se deu em torno da deturpação. A manutenção de muitos roustanguistas enrustidos representou toda uma sorte de hipocrisias, quando os palestrantes "espíritas" passaram a expor "corretamente" a teoria espírita original, mas praticam, até com mal disfarçado entusiasmo, o mais extremado igrejismo.

De que adianta expor a teoria espírita original se a mediunidade é fake? De outro modo, é também inútil "rechear" as mensagens supostamente espirituais com um conteúdo "mais verossímil", como nas dos jovens falecidos, antes escritas em tom estranhamente solene, hoje excessivamente coloquiais, havendo sempre o "efeito Jair Presente", que apresentou tais distorções extremas.

Mensagens "espirituais" acabam sendo produzidas como se fossem salgadinhos ao gosto do freguês. O próprio caso de Jair Presente (jovem engenheiro que faleceu em 1974) já ocorreu nos primórdios da "fase dúbia" do "movimento espírita", quando a primeira mensagem trazida por Francisco Cândido Xavier mostrava o habitual igrejismo e as mensagens posteriores mostravam um coloquialismo excessivo e forçado, estranhamente neurótico e por demais alucinado.

O próprio Chico Xavier deixou sua máscara cair, deixando de lado sua imagem "santificada" ao se irritar com os comentários justos dos amigos de Jair, que não conseguiam ver autenticidade alguma nas supostas psicografias. Paciência, eram pessoas que conviveram com Jair, sabiam como ele era e como ele se expressava com os outros. E Chico Xavier disparou um comentário bem ríspido, chamando a desconfiança dos amigos de Jair de "bobagem da grossa".

O "espiritismo" brasileiro apresentou, nos últimos 40 anos, uma série de circunstâncias infelizes. A religião mais blindada do país, embora não seja a mais popular - todavia, é a religião que conta com o apoio da Rede Globo - , tenta de tudo para manter uma imagem "limpa", lançando mão até de revistas ruins nas bancas, que ensinam tudo errado da Doutrina Espírita e reduzem Kardec a um boneco e servir de brinquedo para seus deturpadores brasileiros.

A situação, porém, está insustentável e a crise é irrecuperável. Isso porque a promessa dos deturpadores do Espiritismo em "aprender melhor Kardec", com uns até exagerando e forçando a barra na pretensão ao falar em "não apenas aprender, mas viver Kardec", nunca deu certo. Volta e meia e o velho igrejismo roustanguista que muitos julgam superado e combatido retorna com muito mais força do que se imagina.

Figuras de formação católica como os "médiuns" Chico Xavier e Divaldo Franco, ao serem promovidos a "líderes espíritas", deixam a doutrina refém do igrejismo, tornando inúteis os esforços como o de Alamar Régis Carvalho, que alega reprovar a "vaticanização", e de Orson Peter Carrara, que bajula o espírito de Erasto, porque até eles praticam o igrejismo de raiz roustanguista.

Há muita hipocrisia e antes os "espíritas" tivessem assumido renegar o legado de Kardec e assumir o roustanguismo de vez. A volta da velha promessa de "não apenas aprender, mas viver Kardec no dia a dia", será mais uma promessa em vão, porque o "espiritismo" continuará correndo atrás do próprio rabo, praticando o roustanguismo que esconde sob uma embalagem pretensamente kardeciana, dando apenas continuidade à "fase dúbia" que arruinou o Espiritismo no Brasil.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O topo da pirâmide social em chamas


O topo da pirâmide social está em chamas porque as pessoas que detém vários tipos de privilégios sociais, do porte de arma ao prestígio religioso, passando pelos privilégios da fama, do dinheiro, dos diplomas, da tecnocracia, da visibilidade, do poder político etc passam por decadência severa, pois tais privilégios foram alcançados de forma tendenciosa e revelam agora suas ruínas.

Todos tentam se salvar. A partir do governo Michel Temer, que, isolado do povo brasileiro, tenta apenas se manter no prazo de seu mandato, mesmo com graves denúncias de corrupção contra si, o topo da pirâmide segue apagando seu incêndio com querosene, e, com sorte, sob o consentimento ou a indiferença popular.

Desde 2016 se viveu um momento negativamente único. Segmentos sociais se mobilizaram para retomar a supremacia antes plena durante a ditadura militar, e reagiram de forma violenta às mais diversas transformações sociais. A marcha-a-ré forçada da retomada do ultraconservadorismo, não apenas para manter os privilégios que restaram mas para recuperar os antigos, tornou-se a tônica dos últimos tempos.

A situação é tão surreal que existe até o medo de se ver homicidas ricos morrerem. No Brasil, há pelo menos três idosos - dois feminicidas e um fazendeiro mandante - , responsáveis por homicídios de grande repercussão em todo o país, que apresentam indícios de doenças graves que sugerem que eles poderão falecer a qualquer momento.

Todavia, a sociedade conservadora reage a tais tragédias de maneira insólita, se revoltando apenas por serem informados das doenças desses homicidas. Informar sobre a vulnerabilidade trágica de homicidas ricos não tão idosos assim, então, enfurece a sociedade moralista, sem razão lógica aparente.

E a imprensa nem se arrisca a noticiar tais tragédias, se elas realmente tiverem que acontecer. Mesmo quando, em tempos de convulsões sociais insólitas, a morte de um petista é mais festejada que a de um homicida rico impune (ainda que por doenças como infarto, potencial entre pessoas do tipo), foi-se o tempo em que a imprensa noticiava sem qualquer problema os falecimentos de um Michel Frank, Leopoldo Heitor ou Otto Willy Jordan. Se fosse hoje, eles morreriam sob o silêncio dos jornais.

Se há um medo paranoico desses, que faz com que a mídia prefira transformar os obituários num quase paraíso, povoados de grandes artistas, ativistas sociais e gente digna de um prêmio Nobel, isso ilustra a paranoia que o alto da pirâmide social vive, com o medo da perda dos privilegiados, ainda que sejam aqueles que, sob juízos de valor moralistas ("direito à propriedade" e "honra masculina"), decidam tirar a vida de outrem, produzindo a tragédia alheia e tentando fugir da própria tragédia.

Há um clima de "ninguém sai", como no famoso conto de Luiz Fernando Veríssimo sob um jogo de baralho, que tenta preservar quase todos os personagens do "topo da pirâmide". O esforço de fazer com que o ano de 1974 nunca terminasse e os protagonistas dos mais diversos retrocessos sociais, feitos para proteger seus privilégios de todo tipo, torna-se desmedido e desesperado, a ponto de deixar o Brasil em situações tipicamente kafkianas.

As reformas trabalhista e previdenciária são dois exemplos. Dois processos de reverter as conquistas trabalhistas, favorecendo mais as finanças dos patrões e deixando os empregados em situações degradantes como eram antes de 1930. Elas são um meio de aliviar as obrigações financeiras do patronato com seus empregados, liberando-os até para atrasar salários, extinguir encargos trabalhistas e vincular as ajudas de custos aos salários propriamente ditos.

No âmbito da mobilidade urbana, existe até um apego neurótico aos ônibus padronizados, que agora começam a ser pejorativamente apelidados de "ônibus iguaizinhos", quando diferentes empresas de ônibus têm uma mesma cor e, em certos casos, uma empresa de ônibus chega a ter dois ou mais pinturas se atuar em diversas áreas ou com diversos tipos de veículos.

O horror de ver a pintura padronizada ser cancelada, um dia, em Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte, ou em outras cidades que adotam esta medida - que complica a vida dos passageiros, que, com seus inúmeros compromissos pessoais, ainda têm que parar para ver a diferença de uma empresa e de outra para não embarcar no ônibus errado - , não é atenuado quando se observa que é justamente esse "baile de máscaras" sobre rodas que favorece a corrupção político-empresarial.

Isso ficou comprovado quando se denunciou a corrupção das empresas de ônibus do Rio de Janeiro, através da Operação Ponto Final, derivada da Operação Lava Jato, que chegou a prender, por alguns dias, empresários da "máfia dos transportes" carioca. Não por acaso, cidades onde adotam pintura padronizada, como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Curitiba e Florianópolis revelam piores escândalos no setor de transportes.

Isso se dá por uma razão simples. O fato de esconder diferentes empresas de ônibus dificulta a identificação das mesmas, porque elas apresentam o mesmo visual, o mesmo design. O passageiro comum não consegue ver qual a empresa que presta mau serviço.

É claro que se a empresa mostrar sua identidade visual o serviço não melhora em si e a corrupção não desaparece, mas o passageiro têm mais condições de poder denunciar a empresa infratora. Já imaginou se as linhas intermunicipais fluminenses já tivessem pintura padronizada, a exemplo das paulistas? Haveria muito mais dificuldade de combater empresas de atuação desastrada como a Transmil, da Baixada Fluminense, devido à mesma pintura de outras de melhor serviço.

Mas o status quo que combina tecnocracia, poder político e poder econômico bate o pé e tenta manter os "ônibus iguaizinhos" a todo custo. Tanto que, nos últimos anos, cidades como São Luís, Fortaleza, Brasília, Juiz de Fora, Porto Alegre e Belo Horizonte tentam mudar o design da pintura padronizada, apenas "mudando a máscara" e "trocando o seis pelo meia-dúzia". "Mudar para continuar o mesmo", mantendo um sistema de ônibus que confunde os passageiros no seu ritual de ir e vir.

As pessoas não se indignam porque ainda confiam na "superioridade" dos diplomas, do poder político, do dinheiro, da fama, do prestígio social, etc etc. E isso, nos diversos âmbitos sociais, é que faz as pessoas se consentirem até das gafes, dos equívocos e até dos crimes cometidos pelo pessoal do "alto da pirâmide".

Mesmo nos crimes de homicídio, as pessoas parecem se lembrar do bordão dito por Jesus de Nazaré, "quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra", se esquecendo que Jesus disse uma ironia, para intimidar as pessoas de se lançarem contra a vida alheia.

Acham que homicidas que agem movidos por bandeiras "morais" como "direito à propriedade" e "defesa da honra masculina" são semi-deuses, por isso não podem ser considerados vulneráveis nem ter sua tragédia divulgada na sociedade. Um homem rico que tira a vida da própria mulher é tratado como se fosse um deus que quebrou um copo de vidro. Ninguém imagina que um homicida desses sofre pressões sociais diversas e intensas, que o tornam altamente vulnerável à sua tragédia pessoal.

Há todo um sentimento que mistura complacência, indiferença, consentimento e até diversão, se colocarmos todos os erros, encrencas e crimes cometidos no "alto da pirâmide". No caso da corrupção dos políticos do PSDB, conhecidos como "tucanos", há, entre as pessoas, uma certa resignação, movida pela visão equivocada de não se levar essa corrupção a sério, tratada como se fosse uma peça de um espetáculo cômico.

Desta maneira, políticos como José Serra, Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin, ou então similares como os peemedebistas Michel Temer, Romero Jucá, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco, muito diferentes da suposta corrupção petista que desperta ódio descomunal, têm seus episódios de corrupção narrados como se fossem palhaçada de circo, mais divertindo as pessoas do que causando qualquer tipo de indignação.

No "espiritismo" brasileiro, o que se nota é uma profunda complacência com os supostos médiuns que produzem mediunidade fake, difundem ideias católicas-medievais ao arrepio dos ensinamentos kardecianos originais e se promovem às custas do Assistencialismo, forma fajuta de caridade que mais promove o "benfeitor" do que beneficia os necessitados.

A imagem dos "médiuns", feitas à maneira das fadas-madrinhas dos contos de fadas mescladas com os mestres das estórias de fantasias, faz do "espiritismo" brasileiro uma espécie de contos-de-fadas para gente grande, oferecendo o "açúcar das palavras" como forma de fazer a deturpação de raiz roustanguista, mas servida sob o rótulo de "fidelidade absoluta a Allan Kardec", se tornar aceita sem qualquer tipo de reserva.

Os próprios ídolos "espíritas", palestrantes, escritores ou "médiuns", se valem desse prestígio religioso que, por mais que seja mascarado pelo verniz de "simplicidade" e "humildade", os insere também no rol de privilegiados do topo da pirâmide social, até pela presunção de "proximidade com Deus" que expressa este tipo de privilégio.

Hoje vemos a decadência dos mais diversos tipos de privilégios sociais. Até o prestígio religioso desafia a zona de conforto de muitos acreditarem que a religião está acima de todas as coisas e que os mesmos ídolos religiosos que cometeram os erros gravíssimos que arruinaram suas doutrinas irão consertá-las, como raposas prometendo reconstruir os galinheiros.

O que vemos é que os antigos detentores de privilégios sociais de toda ordem, e que pareciam modernos entre 1964 e 1974, se desgastam e fazem com que o topo da pirâmide seja um reduto de bolor tóxico de estruturas sociais arcaicas e mofadas. O consentimento social, marcado pela ignorância, pela catarse e pelo apego a valores retrógrados, é que sustenta os últimos suspiros desse "topo" que perece de forma acelerada e irreversível.

sábado, 19 de agosto de 2017

Intolerância religiosa? Não seria concorrência religiosa?


Há muito mito em torno da intolerância religiosa. Na verdade, a intolerância é apenas um pretexto para a concorrência religiosa, e as religiões, salvo raras exceções - o "espiritismo" brasileiro NÃO É uma delas - , querem apenas disputar espaços e ampliar domínios.

O discurso vitimista apareceu, recentemente, nas manifestações de supremacistas de Charlottesville, no Estado da Virgínia, EUA, quando fizeram sua marcha. Eles reclamavam que eram "vítimas de humilhações" e adotavam um discurso vitimista. Em certo sentido, eles também reclamavam da "intolerância" contra eles.

Tempos atrás, as seitas neopentecostais também faziam um discurso de que sofriam "intolerância" e "preconceito". Hoje, são os mesmos que, com representantes no Congresso Nacional, a chamada "bancada da Bíblia", estabelecem projetos que se voltam claramente à exclusão social e à intolerância às chamadas minorias sociais.

É preciso ter cautela com esse discurso de intolerância, porque, por outro lado, há a permissividade das religiões de se imporem à realidade e criarem um "mundo paralelo" que, agindo em supremacia sobre a realidade objetiva, pode se tornar perigoso.

Tolerar religião não pode ser sinônimo de tolerar mentiras ou supremacias. A religião não está acima da humanidade nem da realidade, a fé não está acima da lógica e do bom senso. Paciência, o ser humano é um ser racional e a falácia do "tóxico do intelectualismo" só serve para que o obscurantismo de certas crenças não deva ser questionado.

O "espiritismo" brasileiro, cada vez mais se transformando numa versão repaginada do velho Catolicismo jesuíta e medieval do Brasil-colônia, usa o pretexto da "intolerância" para não ser duramente criticado. A traição que a doutrina brasileira faz dos ensinamentos de Allan Kardec é notória e explícita, mas os "espíritas" querem se manter em contradições e ainda se acham "rigorosamente fiéis" ao pedagogo francês que traem com muito gosto.

A realidade é que religiões são criações humanas. Elas podem perecer, desaparecer e coisa e tal. Isso é muito doloroso para muitos e o que se nota é que vários movimentos de extrema-direita e de grupos jihadistas se apoiam na religião para estabelecer sua supremacia.

O problema é que a "intolerância do eu" é que é sempre lamentável, vista como injustiça e preconceito. Mas a "intolerância do outro" é que é "necessária". O "eu" tem seus espaços, mas quer o do "outro", e se o "outro" rejeita o avanço do "eu", o "eu" é "discriminado". Mas se é o "outro" que perde os espaços pelo avanço do "eu", então o avanço é "merecido", é uma "conquista de espaço".

Na cultura popular, manifestações de valor duvidoso trabalhadas pela mídia empresarial, definidas como "brega" ou "extremamente popular", durante anos usaram a desculpa do "preconceito" para ampliar seus espaços e se inserir nos redutos de gente considerada mais culta e instruída. O midiático "funk" é um típico exemplo desse discurso ativista.

Enquanto isso, manifestações culturais autênticas, mesmo as de origem pobre, são tão discriminadas que correm o risco de virar peças de museu. O samba está morrendo aos poucos e sofrendo a supremacia de formas caricaturais - o chamado "pagode romântico" - que apenas imitam o som de uma meia-dúzia de sambistas genuínos que as rádios permitem tocar.

As mulheres-objetos, fruto de uma ideologia machista, também quiseram se apropriar do feminismo de forma que o próprio feminismo virasse refém de glúteos apelativos. Pior: criticar isso era visto como "machista", enquanto as mulheres-objetos vendiam a imagem de "donas do corpo" ostentando para machistas sexualmente desvairados nas redes sociais.

Criticar a degradação da cultura popular também foi visto como "intolerância" e "preconceito". Mas era o "preconceito do eu", a "intolerância do eu". Quantas vezes uma Emma Watson, com seu feminismo humanista, foi esculhambada pelas feministas brasileiras que defendiam o "feminismo" de glúteos siliconados, da embriaguez toda noite e do cigarro que destrói o organismo aos poucos.

Voltando ao "espiritismo", quantas vezes os "espíritas" se esquecem do "eu", quando falam para os outros aceitarem as adversidades da vida? Aos "outros", pedem paciência, resignação, amor ao sofrimento, abandono de necessidades, confundindo qualidade de vida com luxo.

Eles falam ao "outro" como se este fosse o "eu". Mas o palestrante "espírita", ele mesmo o "eu" do seu discurso, não tem paciência para a chegada ao céu, insistindo numa carreira de palavras bonitas, que escondem e disfarçam, de maneira cosmética, as arrepiantes contradições que comete ao trair os ensinamentos de Allan Kardec com ideias igrejeiras.

E o que dizer do suposto médium Divaldo Franco? Criticá-lo faz muitas pessoas tremerem de medo e muitas lágrimas se derramam diante de tantos comentários contra seu ídolo religioso. Mas Divaldo, com sua verborragia e pose de mansuetude, fez um juízo de valor severo contra refugiados do Oriente Médio, acusados, na cara dura, de terem sido "colonizadores sanguinários que queriam recuperar seus tesouros na Europa".

Diante desta e de tantas coisas, refletimos que o discurso de intolerância religiosa requer muita cautela. Há intolerâncias e "intolerâncias". A a intolerância às crenças afro-brasileiras, uma injustiça contra a manifestação cultural de um povo com sua cultura própria. Essa intolerância, sim, deve ser questionada e combatida pela sociedade, respeitando uma cultura de um povo diferente.

Já no caso do "espiritismo" brasileiro, ele nem de longe sofre intolerância. É blindado pela mídia e sua contradições e irregularidades - sobretudo nas atividades ditas "mediúnicas" - são até aceitas e estimuladas pela sociedade. O "espiritismo" é até protegido demais e a menor crítica, mesmo construtiva, faz seus palestrantes chorarem. Intolerância, mesmo, vem dos próprios "espíritas", que não aceitam críticas.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"Espiritismo" brasileiro e o fim da utopia da Nova Era


Para quem gosta de sonhar com a Nova Era, através de devaneios místicos e religiosos, melhor se contentar com ilustrações como a publicada nesta postagem, entre outras cuja beleza remete mais à imitação das estéticas de discos de rock progressivo do que de um prenúncio do que vai ser a humanidade no futuro.

A utopia da Nova Era, consagrada nos anos 1960 pelos movimentos de Contracultura e anunciada como "certa" na década de 1990, após a derrubada do Muro de Berlim em 1989, motivou o auge de muitos movimentos religiosos e esotéricos, levando multidões ao misticismo na esperança de se prepararem para os "novos tempos", sob a promessa de um "coração mais puro" e "energias mais favoráveis".

Livros de autoajuda e obras religiosas passaram a vender como pipoca na entrada do cinema. Gurus surgiram, desde o ramo empresarial da autoajuda - sob o rótulo de Empreendedorismo - até a religião "espírita", passando pelo modismo da "inteligência emocional", passaram a se projetar, prometendo "salvar o mundo" com um repertório de palavras bonitinhas.

E como o açúcar das palavras descia bem nos estômagos das almas sonhadoras, muitas pessoas passaram a atribuir o passaporte para o céu dos malabaristas das palavras, sempre em pose de mansuetude, voz doce, oratória habilidosa e um pedantismo confuso mas tão bem revestido de pretensa erudição que garante um equivocado mas apaixonado rótulo de "filósofo".

No "espiritismo" brasileiro, a utopia da Nova Era, que no contexto brasileiro só foi de fato efetivada nos anos 1990, pois na época hippie (1966-1970) o país vivia sob a ditadura militar, representou a consagração da "fase dúbia", aquela em que os "espíritas" bajulam Allan Kardec mas seguem o legado de Jean-Baptiste Roustaing, num falso equilíbrio doutrinário entre "místicos" e "científicos", que privilegia os primeiros.

A partir daí, palestras e congressos "espíritas", com cartazes com ilustrações futuristas e desenhos de humanoides em formas anatômicas, supondo pretenso cientificismo biopsicológico, surgiram mascarando o igrejismo com pedantismo intelectual, fazendo a fortuna e o prestígio de supostos médiuns, como Divaldo Franco, a fazer turismo pelo mundo com o balé de belas palavras, religiosamente piegas e intelectualmente ocas.

Tudo isso funcionou quando os retrocessos sociais, já latentes nos anos 1990, não eram explícitos e não pareciam ameaçar os relativos progressos sociais garantidos pela evolução tecnológica e pelos programas de bem-estar social, incluindo o controle nas economias dos países. A globalização sugeria uma utopia de que as fronteiras seriam rompidas e a solidariedade iria avançar por toda a humanidade, espalhando justiça social até em ambientes mais sombrios.

Só que tudo isso foi por água abaixo. A violência tornou-se maior, e cada vez mais praticada por pessoas de melhor condição econômica e supostamente com significativa educação moral. O reacionarismo tornou-se uma bandeira da rebeldia juvenil, contrariando a crença de que a juventude fosse um oásis de ideias progressistas e de vanguarda. O consumismo tornou-se desenfreado e até as religiões tornaram-se motivação não para a solidariedade, mas para o egoísmo e a cupidez.

O próprio "espiritismo" não tardou a revelar seus equívocos, gravíssimos. Depois dos últimos escândalos entre 1966 e 1975, envolvendo desde a farsa da "médium" Otília Diogo, que teve a cumplicidade de Francisco Cândido Xavier, até o fim da trajetória do prepotente Antônio Wantuil de Freitas à frente da FEB, passando por uma ameaça de publicação, pela FEESP, de traduções ainda mais roustanguistas da obra kardeciana, a "fase dúbia" nem de longe cumpriu o prometido equilíbrio.

A estabilidade forçada é mantida pelo "movimento espírita" pela sorte de muitos acordos, seja entre diferentes expositores "espíritas" que mantém a sua "diversidade doutrinária" (eufemismo para visões pessoais sobre temas e práticas doutrinários), seja entre eles e a Justiça, que nunca investiga as irregularidades doutrinárias (que envolvem até falsidade ideológica em obras "mediúnicas"), e a grande mídia, que sempre divulga uma imagem positiva do "espiritismo" brasileiro.

É, portanto, uma estabilidade forçada pelas circunstâncias, num momento em que o "topo da pirâmide social" vive em acordos sucessivos que evitem o desgaste definitivo da plutocracia, mesmo diante de graves crises e escândalos de arrancar os cabelos. Se existe até acordo para a imprensa não publicar óbitos de criminosos ricos, que "desaparecem" como semi-deuses em "ascensão ao Senhor", então tudo é feito para que a Torre de Babel contemporânea seja construída sem maiores conflitos.

Vivemos um período delicado de profundos retrocessos sociais e quando os maiores casos de sordidez humana se encontram em pessoas de significativo status social. A ilusão de que os erros graves se atenuam conforme a posição social de seu praticante, crença ainda persistente em muitas pessoas, anestesia a sociedade e abre caminho para pessoas ainda mais perversas que se protegem pela marquize do prestígio, do dinheiro e da visibilidade.

Com os profundos retrocessos sociais, o "espiritismo", ele mesmo perdido em tentar explicar a suposta "fidelidade a Kardec" mediante o apreço às ideias de J. B. Roustaing, se encontra na mais aguda crise, que atinge níveis insustentáveis. A esperança dos deturpadores da Doutrina Espírita comandarem mais uma promessa de "recuperação das bases espíritas originais" continua forte, mas ela será sempre inútil, porque os defeitos serão sempre mantidos.

Essa promessa já foi dada há 40 anos, deu na "fase dúbia" que conhecemos e o resultado foi desastroso. O "espiritismo" ganhou em popularidade, sobretudo com a blindagem da Rede Globo aos "médiuns espíritas", até hoje tidos como "intocáveis", mas aumentou sua hipocrisia, pois seu igrejismo de herança roustanguista nunca esteve tão fortalecido, apesar de tantas e insistentes alegações de "respeito rigoroso e fidelidade absoluta" ao legado kardeciano.

E agora com os tempos sombrios em que se vive, e o questionamento dado às utopias místicas e esotéricas que prometeram a "salvação da humanidade", o sonho da Nova Era se esfacela e põe em xeque as doutrinas e movimentos que se apoiaram nessa ideia, incluindo o próprio "espiritismo" brasileiro.

É possível que, num prazo mais tardio, a humanidade se evoluirá, mas a perspectiva será muitíssimo diferente do que sonhavam as utopias místicas e esotéricas, incluindo alguns movimentos religiosos. Novos paradigmas se formarão que escaparão das predições igrejeiras de gurus de ocasião, pretensos profetas, falsos sábios e, sobretudo, os "médiuns espíritas" que, aos poucos, veem a posse da verdade escaparem de suas mãos.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Protestos de Charlottesville e a tese da "Data-Limite" de Chico Xavier


No último fim de semana, um grande protesto de grupos neo-nazistas reunidos numa praça em Charlottesville, contra a retirada da estátua do combatente confederado e escravocrata Robert E. Lee, proposta pela prefeitura dessa cidade do Estado da Virgínia, nos EUA, põe em xeque as perspectivas otimistas, sobretudo da parte do "espiritismo" brasileiro.

A manifestação, no contexto dos EUA, reflete uma onda ultraconservadora que mostra uma inclinação de muitos jovens a movimentos obscurantistas. A adesão de jovens a grupos terroristas e entidades fascistas atinge índices assustadores, revelando não só um aparente descontentamento com os rumos da sociedade contemporânea e o fracasso de muitos ideais progressistas, como também a "noção de novidade" que certas causas retrógradas apresentam para quem tem menos de 45 anos.

Outro protesto, de negros e outras minorias sociais que fizeram uma "muralha humana" no campus da Universidade da Virgínia, também ocorreu e houve confronto entre as duas manifestações, com a polícia tentando resolver a situação, prendendo vários agressores.

O ápice nem se deu pelas multidões saindo à noite marchando e segurando tochas, lembrando os primórdios do tenebroso movimento Klu Klux Klan (cuja sigla KKK chama a atenção por coincidir com a grafia das risadas dadas pelos chamados "fascistas mirins" na Internet).

Ele se deu quando o jovem neo-nazista, James Alex Fields Jr., que dirigia um carro, avançou sobre uma multidão de manifestantes anti-fascistas, ferindo vários deles, causando uma vítima fatal, a ativista Heather Heyer, de 32 anos. A morte dela rendeu comparações com a da deputada britânica Jo Cox, assassinada em 2016 por um neo-nazista inglês, que está preso, como no caso de Fields Jr..

Fields Jr. teve o pedido de liberdade condicional sob fiança negado porque a defensoria pública se recusou a defender o preso. A recusa se deu porque uma das vítimas do atropelamento foi um familiar de um funcionário da Defensoria Pública, o que fez a Justiça local exigir que Fields Jr. arrume um advogado de defesa.

O lamentável episódio ocorreu nos EUA e, aparentemente, nada contradiz em relação à suposta profecia do "médium" Francisco Cândido Xavier, sobre a tal "data-limite" que supostamente prevê um período de turbulências e regeneração espiritual.

A "profecia" tem valor factual duvidoso, é cheia de erros de abordagem geológica (como o Chile ser poupado de uma onda de explosões vulcânicas no Círculo de Fogo do Pacífico) e sociológica (pressupõe que eslavos migrem para o calorento Nordeste brasileiro, se esquecendo que os eslavos, ao chegar ao Brasil no século XX, escolheram a região Sul) e nem todos os seguidores de Chico Xavier acreditam nessas "previsões", trazidas por Geraldo Lemos Neto.

Da nossa parte, consideramos que Chico Xavier teria feito tais "profecias", sim, porque em outras ocasiões, como em livros "psicográficos" e na entrevista ao programa Pinga Fogo, na TV Tupi, em 1971, ele teria dito coisas semelhantes. Além disso, a "profecia" segue o ideal de "coração do mundo" e "pátria do Evangelho" que Xavier sempre desejou ao Brasil.

Dois aspectos, porém , revelam o equívoco e o risco da "profecia" do anti-médium mineiro. Um é que o protesto neo-nazista de Charlottesville foi apoiado por muitos internautas nas redes sociais, que citaram sobretudo o ídolo deles, Jair Bolsonaro. No Brasil, também há a ascensão de grupos fascistas. Uma suposta organização, intitulada "International Klans", espalhou folhetos colados em vários lugares em Niterói, Estado do Rio de Janeiro.

Isso contraria a tendência de que o Brasil se tornaria "mais progressista" num contexto destes. É verdade que existem também muitos brasileiros condenando o episódio, mas o cenário sócio-político dominado por forças conservadoras que retomaram o poder em maio de 2016 revela a ascensão de forças sociais retrógradas e reacionárias, que tomaram as rédeas numa pauta socialmente mais excludente e obscurantista.

Os próprios "espíritas" parecem complacentes com esse cenário, até demonstrando, mesmo sem assumir no discurso, o apoio ao governo Michel Temer e aos grupos reacionários que comandaram a onda ultraconservadora. Um deles, curiosamente, é denominado "Revoltados On Line", incluído entre outros "iluminados" (como o Movimento Brasil Livre e o Endireita Brasil), que os "espíritas" atribuíram como "articuladores do processo de regeneração da humanidade no Brasil".

Mas existe também, sob uma outra abordagem, o risco da ideia do "Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" rumar para um projeto tirânico, combinando teocracia com imperialismo. Ideias de religiões dominantes, como o Catolicismo medieval, e de um poder político centralizador, como tentou ser a Alemanha nazista, são um grave alerta disso.

Alegações de que a "pátria do Evangelho" não representará essa ameaça por causa da vocação de "tolerância" dos "espíritas" são verossímeis, mas bastante perigosas. Afinal, os "espíritas" brasileiros já revelaram, por outro lado, a inclinação de fazer juízo de valor e a atribuição de "resgates morais" para justificar os prejuízos de outrem.

Com o "espiritismo" brasileiro cada vez mais voltado à Teologia do Sofrimento e cada vez mais caminhando para ser uma versão rediviva do velho Catolicismo jesuíta e medieval, que vigorou no período colonial, também podem impulsionar para esse dado sombrio da doutrina igrejeira. A experiência do Catolicismo da Idade Média, também anunciada com belos pretextos, é um bom alerta à humanidade.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

"Espiritismo" e os tesouros e títulos da Terra


Os "espíritas" deveriam olhar para si mesmos, já que se preocupam com o argueiro dos olhos dos outros e se esquecem das traves dos seus próprios. No "Correio Espírita" deste mês, uma matéria fala das "novas necessidades da civilização", entre elas a de abrir mão de "tantas necessidades", como as dos títulos e tesouros da Terra.

Cada vez mais voltado para a Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica, o "espiritismo" brasileiro, há muito catolicizado - apesar das bajulações, carregadas de muita hipocrisia, a Allan Kardec e seus relacionados - aos moldes do velho jesuitismo medieval, sempre apela para os outros abrirem mão até mesmo de quase tudo.

Se depender das pregações "espíritas", estaríamos reduzidos a animais domésticos que apenas demonstram afeto e simpatia para outrem, se alimentando talvez de algum verde e algum alimento qualquer nota e nos preocuparmos apenas a sobreviver e olhar a paisagem.

Seríamos, neste caso, um misto de cachorrinhos obedientes e fofos, de avestruzes a baixar a cabeça o tempo todo e de papagaios a apenas reproduzir os sons dos outros. A razão, a ética, a transparência e a sinceridade são apenas "pequenos" e, talvez, "desnecessários", detalhes.

Os "espíritas", sintonizados com o governo Michel Temer - ao qual nunca declararam apoio oficial, mas subliminarmente comprovam estarem solidários a ele - , sempre estão pedindo para os sofredores aceitarem sua coleção de desgraças, "na esperança de um futuro melhor", pouco se importando com os sobressaltos, infortúnios, angústias, impasses e tragédias por eles sofridos.

A ênfase do sofrimento desmascara os "espíritas", que se vangloriam pela suposta fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas o traem de maneira bastante cruel e irresponsável. A apologia do sofrimento humano, que está na pauta de quase todas as obras "espíritas", é uma herança não dos postulados originais de Kardec, mas dos delírios católicos trazidos por Jean-Baptiste Roustaing.

E aí se tem o apelo de "abrir mão de tudo". Há apelos como "O rapaz quer uma mulher de caráter e inteligência? Que aceite aquela periguete burra e ensine coisas a ela!" ou "A moça quer um príncipe encantado e só chegou aquele rapaz sombrio que já cometeu um feminicídio? Seja complacente ao olhar tristonho dele e seja sempre submissa a ele" que são dados aos montes nas "casas espíritas".

Mas o "espírito de renúncia" os "espíritas" apelam para os outros. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Quanto aos "espíritas", eles mesmos esquecem que seus maiores ídolos são os mais afoitos e privilegiados na coleção de títulos e tesouros na Terra.

O que pensar nos "médiuns" que excursionam pelo planeta, vendo as maiores relíquias turísticas das grandes capitais do Brasil e do mundo, se hospedando nos melhores hotéis, fazendo plateias para ricos e posando ao lado de juristas, autoridades e aristocratas, enquanto a "revolucionária caridade" que dizem praticar traz resultados tão medíocres e inexpressivos para a população carente?

A glorificação que marcou as carreiras de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, dois grandes deturpadores da Doutrina Espírita, que publicaram livros cujos conceitos e ideias causam arrepio de tanto contrariarem os postulados espíritas originais, é bastante ilustrativa desses tesouros e títulos terrenos.

O próprio Chico Xavier, católico medieval protegido de Antônio Wantuil de Freitas (então presidente da FEB) e, dos anos 1970 até a posteridade póstuma de hoje, blindado pela Rede Globo de Televisão como se fosse um Aécio Neves da filantropia, colecionou medalhas e títulos concedidos pela sociedade elitista.

E Divaldo Franco, então? Um sujeito ainda mais espertalhão, mas "santificado" pela sua habilidosa pose de mansuetude, delicadeza vocal e pedantismo, sempre passeando pelo mundo como um pretenso ativista social, enquanto sua "admirável caridade" nunca ajudou sequer 1% da população brasileira, é ainda mais afoito na coleção de tesouros e títulos da Terra.

Só os dois anti-médiuns, que se consagraram pelo culto à personalidade, colecionaram medalhas, diplomas e condecorações por causa de uma imagem de "caridade" que, embora cause deslumbramento a muita gente, nunca trouxe resultados profundos para a humanidade, constituindo no que especialistas definem como a técnica fajuta do Assistencialismo, uma "caridade" que serve mais para promover o "benfeitor" do que ajudar de verdade os mais necessitados.

O mito de que Chico Xavier "doou os direitos autorais para a caridade" é hipócrita. O que o "médium" fez foi deixar os direitos autorais para Wantuil e depois, quando este se aposentou, Xavier criou um jogo de cena fingindo ter se decepcionado com o uso de suas obras "mediúnicas" para alimentar os interesses comerciais da federação.

Chico Xavier apenas não tocava em dinheiro, mas sempre viveu de um considerável conforto e tinha a blindagem das elites e dos grandes empresários de mídia. Desde os anos 1970 Xavier tornou-se um protegido da Rede Globo, conhecida pela manipulação traiçoeira do inconsciente coletivo das pessoas, a ponto de impor costumes, modos de ver o mundo e, principalmente, os políticos que o povo brasileiro deveria amar ou odiar.

É como os maiores aristocratas fazem hoje. Chico abriu um precedente: não gostava de tocar em dinheiro. Hoje os mais ricos pregam a "morte da moeda" e se servem de um cartão eletrônico para pagar suas contas, criando uma movimentação financeira "invisível" e feita apenas dentro dos bancos.

A própria "moeda" do livro Nosso Lar, de 1943, o chamado Bônus-Hora, lembra um cartão de crédito. Serve para o uso do transporte (BRT?), para ir ao cinema, para comprar alimentos. Se é certo que muito suposto pioneirismo atribuído a Chico Xavier é grosseiramente duvidoso, há um "relativo pioneirismo" no caso dos cartões de crédito, que na época era um artigo de luxo para fregueses de estabelecimentos comerciais, serviços e instituições financeiras.

Neste sentido, o Bônus-Hora era um cartão de crédito "universalizado", numa obra de ficção não-assumida que foi lançada numa época em que até a classe média tinha que pagar as coisas usando "dinheiro vivo", pois a popularização do cartão de crédito só se deu a partir da segunda metade da década de 1950 e, no Brasil, do começo da década seguinte.

Quanto aos títulos, Chico Xavier e Divaldo Franco, além dos prêmios que recebiam das elites e das autoridades, também recebiam títulos informais e um tanto hipócritas como "sábios", "mestres" e até "filósofos", "intelectuais" e "pensadores". Mas até a denominação de "espíritos iluminados" e "símbolos do amor ao próximo" também se inserem nesse contexto de títulos terrenos, movidos pelas paixões religiosas, tão materialistas e mórbidas quanto os chamados gozos materiais profundos.

E AS FORTUNAS DO ALÉM-TÚMULO?

O que poucos conseguem cogitar é que também existe a ilusão das "fortunas do outro lado". É como se os "espíritas" adiassem seu materialismo para o pós-morte. Evocam o "espírito de renúncia", com sua pretensa humildade e falsa modéstia, e saem pregando a defesa do sofrimento alheio prometendo o "socorro de Deus na hora certa (sic)".

O problema é que, entre os "espíritas", existe uma ânsia muito grande do "acesso ao Céu", depois do retorno ao que eles entendem como "pátria espiritual". Com suas crendices místicas, acreditam que o retorno ao mundo espiritual será como no desembarque de um aeroporto, onde algumas pessoas queridas lhe aguardam para receber o desencarnado dentro de um cenário de um "chão de nuvens brancas" e um céu sempre azulado, como num paraíso de filme de Hollywood.

Em relação a uma figura como Divaldo Franco, já existe até a narrativa de seu retorno ao além-túmulo, toda pronta: uma grande cerimônia, com corais de anjos, autoridades de vários planetas, cerimônia de discursos e concessão de medalhas e prêmios, e além disso Jesus tendo que comparecer ao evento para chamar o "médium" para ir ao convívio definitivo com Deus. É bom demais para ser verdade que isso possa ser assim, ainda mais envolvendo um deturpador grave do Espiritismo.

Asneiras semelhantes a esta já foram narradas a respeito de Chico Xavier. Uma narrativa supôs que ele estava com sua mãe e alguns amigos antes falecidos, até que veio Jesus para chamar o "médium" para o "mundo dos puros" e Xavier foi "sugado" como um espectro por um aspirador de pó. Narrativa ridícula, até porque o anti-médium mineiro, em verdade, levou um grande choque ao saber que nada disso ocorreu e que, alertado por seus graves erros, já deve ter reencarnado para pagar pelo que fez.

Isso é um jogo de linguagem e psicologia. E revela uma ilusão tão pior quanto os materialismos da Terra. Uma ilusão de que tesouros e títulos "verdadeiros" existam no "além-túmulo", o que representa uma transferência da ambição humana para "o outro lado". A roupagem de "humildade" e "pureza espiritual" não isenta os efeitos nocivos que se nota no materialismo terreno e isso traz até uma sensação ainda pior nos "espíritas" que encerram sua vida material.

Pois, quando eles retornam ao além-túmulo, eles são os que mais sentem choques, extremamente violentos e traumatizantes, diante da desilusão de que o "outro lado" não lhe oferece sequer os descontos de futuras reencarnações expiatórias.

O materialismo é transferido para o mundo espiritual, mas a realidade do além-túmulo lhes decepciona, de forma que os verdadeiros umbrais são apenas reflexos das desilusões dos "espíritas", considerados apenas "puros" ou "quase puros" em função das mesmas paixões materiais da Terra, muito mal disfarçadas por um espiritualismo de fachada.