sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Faz sentido apenas expor a teoria original de Allan Kardec?

NEM A LEITURA DAS TRADUÇÕES DE JOSÉ HERCULANO PIRES FARIA OS DETURPADORES DO ESPIRITISMO ESTAREM EM DIA COM ALLAN KARDEC.

O "espiritismo" brasileiro acumulou muitos problemas que foram escondidos debaixo do tapete. A opção igrejeira do roustanguismo fez com que uma série de más decisões fossem feitas, e, diante de muitos impasses, resultar em posteriores dissimulações.

Hoje o "espiritismo", na prática, se afastou de Allan Kardec. O professor de Lyon foi reduzido a um objeto de bajulação e sua apreciação se dá por conta de traduções catolicizadas das editoras FEB e IDE, o que não corresponde ao pensamento original da Codificação.

A hipocrisia acabou reinando entre os "espíritas" que cometem traições gravíssimas a Allan Kardec, mas juram de pés juntos que são "rigorosamente fiéis" a ele, algo que só pode ser definido como leviandade.

Não estamos dizendo isso por intolerância religiosa, mas por intolerância à farsa, à mentira e à dissimulação. A liberdade religiosa não pode ser usada como desculpa para que se cometam traições e deslizes e depois se esconda a sujeira debaixo do tapete.

Os "espíritas" fazem o que querem, mas querem sair pela porta dos fundos. São beneficiados pelo mito de que só podem ser responsáveis por seus atos quando eles são positivos e acertados. Mas, quando se tratam de erros e atitudes danosas, eles fogem de qualquer responsabilização mesmo quando dizem "assumir seus erros". Só que "assumem" para não serem punidos, e isso mais parece uma demonstração de orgulho: "Quem nunca errou na vida? Todos erram, nós somos que mais erramos na vida!".

Não há autocrítica e os "espíritas" se corrompem em vaidades imensas. Reduzem o suado trabalho de Allan Kardec a um engodo, desmoralizando o trabalho do pedagogo, que investiu nas pesquisas sem apoio alheio, senão o de sua esposa, e tirando o dinheiro do próprio bolso, diferente dos festejados "médiuns", que vão fazer turismo sob patrocínio de empresas ou desviando o dinheiro da caridade, só para falar coisas inócuas para os ricos e receberem medalhas dos poderosos.

O "espiritismo" chega a ser mais vergonhoso do que as seitas "neopentecostais". Elas, de fato, são retrógradas, obscurantistas e muitos de seus pastores, em suas pregações, parecem ensandecidos, mas o neopentecostalismo pelo menos não comete desonestidade doutrinária. A desonestidade pode ser pelo âmbito financeiro, cometendo estelionato religioso arrancando dinheiro dos fiéis. Mas eles, pelo menos, assumem que seus valores são retrógrados e voltados ao Velho Testamento.

Os "espíritas" seguem muitas contradições. A principal delas é alternar seu igrejismo entusiasmado, sua "vaticanização" convicta na prática mas nunca assumida no discurso, com eventuais exposições, aparentemente corretas, da teoria espírita original.

A interpretação correta dos textos de Allan Kardec, no entanto, não é garantia que os "espíritas" estejam realmente sendo fiéis aos postulados espíritas originais. Em muitos casos, há até mesmo uma alternância contraditória, em que num momento os "espíritas" expõem as ideias kardecianas autênticas (ainda que com base em traduções igrejeiras), em outro "soltam a franga" e expõem o mais derramado igrejismo.

Geralmente os "espíritas" só querem soar "corretos" em momentos mais discretos, mas dos quais são voltados a um público mais criterioso. São entrevistas em programas de TV - em boa parte, por assinatura - , canais da Internet, periódicos diversos e bastidores de seminários.

Mas quando se tratam de congressos "espíritas", lançamentos de livros e outros eventos nos quais existe um acolhimento mais caloroso das pessoas, eles ostentam o mais escancarado igrejismo, marcado por uma visão, herdada do Catolicismo medieval, sobre temas como religiosidade, fraternidade e caridade. Aí se mostram os "Constantinos" que em outros momentos fingem rejeitar a "vaticanização do Espiritismo".

Essa atitude contraditória revelou o fracasso da promessa que os deturpadores do Espiritismo fizeram, há mais de 40 anos, que é a de "aprender melhor o legado deixado por Kardec". Uns, exageradamente, falavam até em "viver Kardec", mas eram os primeiros a manter a deturpação em dia. O fracasso se deu porque a simples exposição das ideias kardecianas não impediu que seus expositores, em outras situações, manifestassem sua paixão pela deturpação igrejista.

São contradições assim que mancham o "espiritismo" brasileiro, que agora vive a sua mais aguda crise, agravada por circunstâncias recentes, como o apoio de Divaldo Franco à "farinata" de João Dória Jr.. E mostra o quanto a promessa de "aprender Kardec" não foi mais do que uma conversa para boi dormir.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A viciada contradição em torno dos "médiuns espíritas"


O episódio da "farinata" quase derrubou um "médium espírita". Quase, porque a complacência generalizada e o silêncio da mídia fizeram vista grossa diante do envolvimento de Divaldo Franco e seu evento Você e a Paz no lançamento oficial do condenado alimento do prefeito de São Paulo, João Dória Jr..

Nem a imprensa de esquerda observou o caso, ficando em silêncio sepulcral, mesmo quando o "espiritismo" é blindado pela Rede Globo e embarca em bandeiras como a defesa do aborto até mesmo em casos de estupro e ameaça à saúde da mãe, que são contrárias aos interesses dos movimentos sociais, que defendem o aborto nestas situações.

Isso porque os "espíritas" gozam de uma imunidade a níveis estratosféricos, superando o PSDB em termos de blindagem, ainda mais numa época em que os políticos tucanos começam a ser questionados até pela imprensa conservadora que os protegia. Talvez seria hora dos tucanos adotarem a atividade de "médiuns" e mudar o partido para ESPÍRITAS, se quisessem manter a antiga blindagem.

Os "médiuns espíritas" brasileiros gozam de uma reputação engraçada. Quando cometem ações acertadas, são associados a uma ideia de "perfeição espiritual", "superioridade moral", "sabedoria plena" e "capacidade de decisão". Mas, quando cometem ações erradas, mesmo graves, são considerados "imperfeitos", "falíveis", que "fizeram sem saber" e "nunca foram eles que decidiram isso". Fala-se até que os "médiuns" foram "manipulados por obsessores".

Que vida mansa. Nunca foi tão fácil ser "médium" na vida. Os "grandes" Francisco Cândido Xavier, Divaldo Franco, João de Deus e José Medrado fazem das suas, e saem ilesos. Divaldo ofereceu seu Você e a Paz para divulgar a "farinata" de João Dória Jr. e saiu de fininho. A imprensa de esquerda deixou tudo para lá: só falta acusar o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer de ter apresentado J. B. Roustaing aos "médiuns espíritas".

O "médium" pode ser considerado "humilde" mesmo excursionando pelo país e pelo mundo, fazendo palestras para ricos. São "ativistas" mesmo fazendo a filantropia medíocre do Assistencialismo (que ajuda muito pouco e sobrepõe o "benfeitor" ao necessitado, ao garantir-lhe a promoção pessoal). Pode fazer psicografias ou psicopictografias fake que são consideradas "autênticas" mesmo apontando aberrantes irregularidades de estilo. E por aí vai.

Os "médiuns espíritas" traem os ensinamentos de Allan Kardec, não apenas por romperem com a função intermediária, mas por desempenhar papéis considerados negativos pela obra seminal, mas nem sempre agradável a muitos, O Livro dos Médiuns. Cometem traições de arrancar os cabelos e que podiam causar apreensão em qualquer um, mas oficialmente os "médiuns" brasileiros são considerados, erroneamente, como "rigorosamente fiéis ao legado kardeciano original".

A trajetória de Chico Xavier foi cheia de muita confusão. Ele se valeu de usar nomes de grandes literatos - praticando aquilo que é claramente condenado por Kardec, o uso de "nomes ilustres" para impressionar a opinião pública - em supostas psicografias, causou muita confusão e desordem e, no entanto, saiu não só impune, mas também recorrendo ao vitimismo para forçar a comoção pública.

Fotos tiradas por Nedyr Mendes da Rocha, fotógrafo "espírita" solidário a Chico Xavier, mostrando claramente o "médium" acompanhando todos os preparativos da farsa da também suposta médium Otília Diogo, observando inclusive a jaula da qual sairia a falsa Irmã Josefa, dão fortes indícios de que Chico foi cúmplice de Otília, desmascarada anos depois. Mas oficialmente Chico foi considerado "enganado" pela farsante, quando provas fotográficas de gente a favor dele desmentem essa visão.

MESMO SOB INTUIÇÃO DE "OBSESSORES", "MÉDIUNS" NÃO SÃO INOCENTES POR SEUS MAUS ATOS

É surreal e aberrante a visão de que os "médiuns" são, ao mesmo tempo, "perfeitos e imperfeitos, sábios e desprevenidos, decididos e manipulados, infalíveis e falíveis". A ideia de que o "médium" só deve ser responsabilizado por atos positivos é uma leviandade que, com toda a certeza, Kardec condenaria com toda a firmeza e clareza de seus ensinamentos.

Mesmo quando os "médiuns" são intuídos por espíritos inferiores, considerados "obsessores", a fazerem maus atos ou caírem em armadilhas, mesmo assim eles não são isentos de responsabilidade de seus atos, porque um simples consentimento revela consciência plena de seus atos. O apoio, o consentimento, a aceitação, tudo isso feito de maneira consciente, não pode significar que o "médium" tenha sido enganado se caso uma farsa foi desmascarada.

Muitos ficam apavorados diante da hipótese de que a "farinata" derrubou Divaldo Franco, como o caso Otília Diogo poderia ter feito com Chico Xavier. Em 1970, Xavier também saiu de fininho e, no ano seguinte, já recebia a blindagem total dos Diários Associados, não apenas pela TV Tupi - cujo programa Pinga Fogo havia recebido o "médium" - , mas pela revista Cruzeiro que antes era hostil a ele.

Por ironia, foi Chico Xavier ser apoiado pela revista Cruzeiro (antes chamada O Cruzeiro) e sua obra Nosso Lar ser adaptada por Ivani Ribeiro para a novela A Viagem, da TV Tupi, para os Diários Associados entrarem em falência e a TV Tupi ser extinta, em 1980. Cruzeiro encerrou, oficialmente, mais cedo, em 1975, mas chegou a ser produzida por dez anos com uma linha editorial e um padrão gráfico diferente dos originais.

"LÓGICA DE FACEBOOK"

O que contribui para essa visão complacente sobre os "médiuns", que só "sabem o que fazem" quando acertam, mas, quando erram, "agiram sem saber", é um raciocínio, ao mesmo tempo raso, confuso mas persistente que predomina nas redes sociais. É uma forma de compreensão cheia de contradições e equívocos, marcada por uma insistente teimosia em usar desculpas, chamada de "ginástica mental".

A "ginástica mental" - que, no contexto de hoje, pode ser também apelidada de "lógica de Facebook" - se dá quando uma pessoa com um ponto de vista equivocado sobre um assunto insiste em argumentar em defesa do mesmo, como se fosse "dono da verdade". Faz de tudo para argumentar, mesmo à mercê de cometer contradições e gafes, no esforço desesperado de ficar sempre com a palavra final sobre o referido assunto.

No caso dos "médiuns", é intensa a ginástica mental que blinda sobretudo Chico Xavier - ídolo no Facebook, reduto de forças conservadoras e reacionárias e acusado de dificultar, sob mecanismos técnicos, a divulgação de páginas de conteúdo mais progressista e voltado aos movimentos sociais - e Divaldo Franco.

Recentemente, um adepto de Divaldo Franco se infiltrou numa página dedicada aos ateus (?!) para defender, com a habitual "ginástica mental", a validade do risível título de "maior filantropo do Brasil" que a Rede Globo, através do Fantástico, deu ao "médium" baiano.

Um cálculo sobre o número de beneficiados em 63 anos da Mansão do Caminho, em torno de 163 mil, revela que o número é medíocre e não faz jus ao título dado a Divaldo, pois, só em relação a Salvador, a relação entre o número de beneficiados e os anos de existência da instituição não chega a representar 1% da população soteropolitana. Em índices nacionais, o índice se torna ainda mais ínfimo, o que desqualifica completamente o título que já rendeu tantos aplausos ao "médium".

Não é coincidência o fato de que Chico Xavier e Divaldo Franco tenham bom cartaz nas redes sociais, antros de profundo reacionarismo e hostilidade às forças progressistas. Os dois agradam ao padrão médio do internauta das redes sociais, um arrivista social que, conforme as conveniências, pode atribuir perfeição e imperfeição para si mesmo, num estado de confusão moral que o faz ser o "dono da verdade" e, ao mesmo tempo, orgulhoso de seus erros ("quem nunca errou na vida?").

Isso dá a tônica do quanto os "médiuns" sofrem em blindagem, já superando, de longe, os políticos do PSDB, que começam a sofrer seu inferno astral. A blindagem dos "médiuns" é tanta que, no mercado literário, se priorizam os livros fakes atribuídos a Humberto de Campos através de Chico Xavier, enquanto as obras originais do autor maranhense se encontram condenadas ao esquecimento.

Isso completa a situação aberrante num país cheio de aberrações que é o Brasil. No tempo de Kardec, médium era apenas um anônimo prestador de serviços, sem pretensões de intelectualismo barato e messianismo religioso. Mas, no Brasil, os ditos "médiuns" vivem do culto à personalidade, praticam Assistencialismo, fazem obras de auto-ajuda barata de igrejismo piegas, mas que são tidas como "obras filosóficas" e ainda são tidos como "símbolos de humildade e ativismo social".

Assim fica fácil. Daqui a pouco, as pessoas vão começar antes a fazer carreira com pretensas obras mediúnicas e construir supostas casas de caridade para obterem a impunidade mais absoluta. Assim, se cometerem erros graves, desses de arrancar os cabelos, a simples função de "médium" garantirá a isenção de qualquer efeito drástico de seus atos nefastos. Se a Justiça não pega tucano, muito menos se empenha em pegar um "médium".

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Distanciado de Allan Kardec, "espiritismo" brasileiro prova ser religião conservadora

O ATOR CARLOS VEREZA - "ESPÍRITA" E ABERTAMENTE CONSERVADOR.

O "espiritismo" brasileiro prova, cada vez mais, ser uma religião conservadora. Antes que os internautas médios tentem fazer uma "ginástica mental" e, com sua mania de argumentar com papo "cabeça" suas convicções pessoais, dizer que "isso não tem a ver", é bom prestar atenção aos fatos.

O "espiritismo" brasileiro sempre foi conservador, desde que preferiu, de forma mais aberta, o igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing ao cientificismo de Allan Kardec. Depois, porém, os "espíritas" passaram a desenvolver uma série de dissimulações, no sentido de que, mesmo praticando seu roustanguismo, deem a falsa impressão de que "aprenderam e passaram a respeitar Kardec".

Esse conservadorismo, no entanto, tornou-se mais explícito a partir de 1964, quando os "espíritas" participaram da Marcha da Família, em São Paulo, que pediu o golpe militar. Mesmo assim, prestando atenção nos maiores astros do "movimento espírita", os "médiuns" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, nota-se que ambos sempre foram pessoas extremamente conservadoras.

Chico Xavier era um caipira que, influenciado pelo ambiente social de Pedro Leopoldo, uma cidade que havia sido localidade rural na primeira metade do século XX, então um modesto distrito de Santa Luzia. Num contexto da República Velha, Xavier era um saudoso do Segundo Império. Sua educação era ultraconservadora e ele assimilou com prazer esses valores.

Xavier sempre foi conservador. Era até de direita, para infelicidade dos esquerdistas que, levados pela aparente humildade do "médium", foram apoiá-lo sem qualquer estranheza. Xavier era anti-kardeciano convicto, porque Kardec sempre defendeu o debate e o questionamento, e o "médium" (que alguns idiotas se atreveram a crer que foi "reencarnação do pedagogo francês") sempre recomendava o contrário, dizendo que o silêncio era "a voz que melhor soava aos ouvidos de Deus".

Daí não ser incoerência nem absurdo que Chico Xavier tenha defendido a ditadura militar, e logo em sua fase mais repressiva. E isso abertamente, num programa de TV de grande audiência, o Pinga Fogo, em 1971, com gravação reproduzida no YouTube, visto por milhões e milhões de pessoas.

Em 1971, parte da direita que apoiou o golpe militar estava na oposição. O maior entusiasta do golpe, o jornalista e ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, havia passado para a oposição, a ponto de fazer as pazes com seu desafeto Juscelino Kubitschek - numa lição de perdão de fazer os "espíritas" ficarem de queixo caído - e, juntos, tentar um movimento de redemocratização que só foi extinto por imposição dos generais.

Isso mostra o quanto Chico Xavier sempre foi uma figura abertamente conservadora, esculhambando, no Pinga Fogo, os movimentos operário e camponês, que são comandados por pessoas humildes. Isso tudo choca as pessoas que, movidos pelas paixões religiosas e pela fascinação obsessiva, construíram uma imagem idealizada dos "médiuns" como se fossem fadas-madrinhas de contos infantis.

Divaldo Franco também não difere muito. Mais verborrágico e dissimulado que Xavier, Franco também sempre foi conservador. Vestido à maneira dos velhos professores dos anos 1930-1940, Divaldo adota uma oratória rebuscada como se fosse um tribuno da República Velha, com ares professorais que remetem aos tempos de saber hierarquizado no qual professor e aluno eram separados pelo status quo que atribuía certo ar de superioridade ao docente.

Evidentemente, mesmo os aparentemente progressistas estranham isso. "Ué, mas o professor não é superior ao aluno, por ter mais experiência de vida e saber do que este?", pergunta um desavisado. É, mas desde as experiências trazidas por Paulo Freire, essa hierarquização havia sido quebrada, desde os anos 1960, quando o saber passou a ser democratizado e socialmente compartilhado, trazendo a realidade social para as salas de aula.

É essa quebra de hierarquia do saber que a Escola Sem Partido quer combater. Embora seja um projeto de evangélicos, identificamos na pedagogia do "espiritismo" brasileiro, em instituições como a Mansão do Caminho e a Cidade da Luz, elementos da Escola Sem Partido. Há até uma piada de que a sigla desse projeto remete às três primeiras letras de "espiritismo", o que parece, no contexto brasileiro, ter tudo a ver.

Nos últimos tempos, os "espíritas" passaram a se identificar, pasmem, com figuras decadentes e impopulares da vida política nacional, mas alinhadas com um projeto ideológico conservador. A adesão de Divaldo Franco a João Dória Jr., a ponto de oferecer o Você e a Paz para o lançamento de um estranho complexo alimentar, e a de João Teixeira de Faria, o João de Deus, a Michel Temer (político com aprovação de apenas 3% dos brasileiros), é ilustrativa.


Agora é a vez do ator Carlos Vereza, "espírita" convicto, intérprete do dr. Adolfo Bezerra de Menezes no cinema, mas também feroz crítico das esquerdas, membro do Instituto Millenium e apoiador da Operação Lava Jato. Provável suspeito de levar Camila Pitanga para o "bom caminho do Espiritismo", junto ao "coronel" João de Deus, Vereza recentemente visitou o presidente Temer para lhe prestar apoio, num encontro realizado anteontem, em Brasília.

Nesse encontro, Vereza pedia a Temer políticas de combate à "ideologia de gênero", ou seja, as mudanças sociais que estimulam as relações homoafetivas (casais do mesmo sexo). "Estão mudando toda a biologia", "estão erotizando e traumatizando nossas crianças", disse Vereza, afirmando sua postura homofóbica, por ironia, poucos dias após outro ator da Rede Globo, Luiz Fernando Guimarães (do seriado Os Normais) revelar que está casado com outro homem.

O "espiritismo" tem uma postura dúbia em relação ao homossexualismo, sem definir claramente contra ou a favor, hesitando entre conceitos de "livre-arbítrio" e o moralismo social conservador. Mas Chico Xavier deixou vazar sua homofobia, no final dos anos 1960, quando atribuiu o homossexualismo à "confusão mental de pessoas encarnadas".

Outra bandeira dos "espíritas" associada a pautas conservadoras é a reprovação radical do aborto, do qual não admitem sequer a hipótese de estupro, já que, defensores da Teologia do Sofrimento, preferem que a vítima e o estuprador se "entendam" num "acordo fraterno".

Em compensação, os "espíritas" defendem também a criminalização da vítima (a tese dos "reajustes morais") e consideram o homicídio "menos grave" que o suicídio, pois, enquanto consideram o suicídio um "crime hediondo", o homicídio é quase sempre "culposo", supostamente movido por "antigas dívidas" entre executor e vítima. Essa pauta revela o quanto o "espiritismo" também tem seu lado punitivista.

Muitos irão argumentar que os "espíritas" dariam a mesma consideração até a João Pedro Stédile, líder do MST, se uma vez o encontrassem. Engano. Seria o mesmo que dizer que o Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, ou as páginas amarelas da revista Veja, do Grupo Abril, estivessem solidárias a esquerdistas só porque abriram espaço para entrevistá-los.

Uma coisa é a consideração diplomática, uma espécie de cordialidade formal. Outra coisa é a cumplicidade, a afeição, a preferência afetiva, e nisso os "espíritas" revelam predileção explícita aos conservadores, e, como se não bastasse, a políticos decadentes, em crise de reputação, algo tão explícito que não se pode comparar a baixa reputação de Temer e Dória a Jesus de Nazaré condenado na cruz, porque Jesus era uma figura progressista.

Pior é que os "espíritas" aderem ao governo Michel Temer - que apoiavam desde sua ascensão - de forma ainda mais escancarada justamente quando ele lança as medidas retrógradas, como as "reformas" que causam a degradação do mercado de trabalho.

Isso lembra o caso de Chico Xavier apoiando a ditadura militar na sua fase mais repressiva, cometendo o descaramento de pedir para "orarmos pelos generais" (e, por conseguinte, para os coronéis, como Brilhante Ustra e Sérgio Fleury, e para instituições "de muita luz" como o DOI-CODI), que estariam criando um "reino de amor" do Brasil futuro.

Que "reino de amor" é esse que se desenvolve sob o banho do sangue de inocentes é algo que não dá para explicar. Também não dá para apelar para a "ginástica mental" dos "filósofos de Facebook" a fazer teorias persistentes para suas convicções. O "espiritismo" brasileiro mostra seu caráter conservador, uma realidade que as paixões religiosas e a fascinação obsessiva tentam a todo custo esconderem das pessoas.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Por que estamos falando muito do caso Divaldo Franco-farinata?


ALIMENTO PODERIA TER CAUSADO INTOXICAÇÃO, SE FOSSE OFERECIDO PARA ESCOLAS E INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS.

Muitas pessoas estão apavoradas, diante da associação de Divaldo Franco ao episódio da "farinata" do prefeito de São Paulo, João Dória Jr.. O estranho alimento, condenado por nutricionistas e ativistas sociais por não conter dados nutricionais conhecidos e representar uma ofensa à dignidade humana, abalou seriamente a reputação do político.

Mas a associação de Divaldo assustou as pessoas, que evitam ler as páginas que tratam do delicado assunto, tão medrosas e tomadas do mais completo e preocupante apego à imagem adocicada de um "médium", sempre envolta de flores, céu azul, nuvens brancas e sol, como se fosse uma fada-madrinha de contos de fadas. Só de ver o título, evitam ler textos que iriam derrubar suas ilusões e fantasias em torno de um mito religioso.

"Tem certeza disso? Quem foi que disse essa mentira?", arriscam-se a dizer, chorosamente, muitos. Só que essa "mentira" pode ser facilmente identificada pela camiseta apresentada por João Dória Jr. em fotos divulgadas amplamente pela imprensa em todo o país.

Portanto, foi João Dória Jr. que revelou essa associação, e, até agora, Divaldo Franco não processou o prefeito de São Paulo pelo uso de seu nome e do nome de seu evento. Dória, um representante das elites, poderia ter aparecido no evento apenas de paletó e camisa comum de colarinho.

O fato de Dória ter aparecido, no Você e a Paz, com camiseta do evento, casaco esportivo e tênis, é até irônico para sua sociedade, porque no contexto das elites existem empresários, economistas, advogados e até médicos que usam terno e sapatos sem a menor necessidade, até para comprar pão na esquina, um passeio num shopping ou para ver uma tola comédia de cinema com a esposa num domingo.

O vínculo de imagem é coisa séria. O fato de João Dória Jr. usar a camiseta do Você e a Paz e Divaldo consentir o uso do evento e de seu nome e ainda oferecer o encontro para homenagear o prefeito indica compromissos e responsabilidades graves. Admitir isso não é intolerância religiosa nem perseguição a um "homem de bem". São fatos reais e decisões graves que o prestígio religioso não pode pôr debaixo do tapete.

Não se usa o prestígio da fé para acobertar más decisões. É muito fácil dizer que um "médium", ao cometer um deslize grave, "fez sem saber". Muito provavelmente, o próprio Allan Kardec teria feito cobranças similares a Divaldo, o pedagogo francês, com sua firmeza e coerência, teria sido "tão chato" quanto nós ao cobrar responsabilidades de um "médium" que abriu seu evento para o lançamento de um alimento duvidoso e depois saiu de fininho.

POR SORTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS

O que faz nós batermos a tecla neste assunto ocorrido há um mês e, aparentemente, está superado, se deve a vários fatores. Um é o silêncio da imprensa, que fez vista grossa para a camiseta que João Dória Jr. ostentava claramente para o Brasil e para o mundo. Outro é o risco que um alimento de caráter duvidoso poderia causar, se fosse realmente lançado.

O que faz tranquilizar muitos incautos é a sorte das circunstâncias. O silêncio generalizado da imprensa evitou que se produzisse um escândalo de grandes proporções no "movimento espírita". O fato mais aberrante é que a imprensa de esquerda também compartilhou desse silêncio, porque, se fosse a imprensa conservadora, de direita, isso seria compreensível, porque esta, a partir da Rede Globo de Televisão e do Grupo Abril, faz blindagem com os "médiuns espíritas".

Aparentemente, a imprensa de esquerda parece ser tomada de um paulistocentrismo, uma concepção, um tanto bairrista, de coisas que acontecem em São Paulo. Essa visão faz crer, por exemplo, que o poder midiático só se expressa em empresas com escritórios na capital paulista - o que, erroneamente, credita como "mídia alternativa" a Rádio Metrópole FM, de Salvador, do barão midiático Mário Kertèsz - , embora tal ilusão, se usasse como parâmetro ter escritórios em Nova York, também faria muito veículo da grande mídia hegemônica brasileira parecer "mídia alternativa".

O paulistocentrismo permitiu à imprensa de esquerda uma certa "desinformação" de que Você e a Paz é um evento idealizado e comandado por um "médium espírita". Acreditaram, ou, talvez, fingiram acreditar, que o Você e a Paz, só por envolver mais de uma religião (o encontro acolhe setores do Catolicismo e do Protestantismo), foi um evento promovido por uma entidade católica local, a Arquidiocese de São Paulo, e o arcebispo dom Odilo Scherer pagou sozinho o apoio à "farinata".

Outro aspecto é que, simplesmente, a má repercussão evitou o lançamento da "farinata", o que, por sorte, fez com que a potencial ameaça não ocorresse, embora haja denúncias de que, numa instalação da Missão Belém em Jarinu, no interior paulista, catorze internos, vários ex-moradores de rua, teriam morrido por causa do consumo constante de "farinata", tendo supostamente servido de "cobaias humanas" do alimento feito a base de restos de comida de procedências duvidosas diversas.

QUEDA DE REPUTAÇÕES

Imagine, porém, se o alimento tivesse lançado e, pouco depois, ocorresse uma série de intoxicações alimentares de alunos da rede pública de São Paulo que passaram dias se alimentando a base de "farinata", com algumas mortes? Seria muito grave, para um "médium" que diz responder todos os assuntos, ter oferecido um evento para um composto alimentar muito perigoso.

Paciência. Vivemos tempos em que reputações andam caindo. O ator José Mayer, meses atrás, foi denunciado por assédio sexual, chocando muitos de seus admiradores. No exterior, o premiado produtor de Hollywood, Harvey Weinstein foi também denunciado por atos similares. Há poucos dias, o badalado jornalista da Rede Globo, William Waack, foi flagrado num vídeo no qual afirmava, sob risos, que "buzinar era coisa de preto".

Nenhum prestígio autoriza a pessoa a fazer o que quer. O que chamamos a atenção, e as pessoas se recusam a admitir, é que o prestígio religioso também não tem essa autorização, pouco importando se o sujeito está ou não "mais próximo de Deus".

Divaldo Franco tinha toda chance de cancelar a homenagem a João Dória Jr., se soubesse do risco que o produto que o prefeito iria lançar representaria. Também faltou a Divaldo a firmeza de um verdadeiro líder, que poderia muito bem exigir do alimento o rigor de exames e documentos confirmando se o produto era ou não uma ameaça à saúde pública. E logo Divaldo, que se julga o "maior e mais correto (sic) discípulo de Allan Kardec" no Brasil!

QUALQUER ALIMENTO NECESSITA DE EXAMES TÉCNICOS PARA CHEGAR AO MERCADO

Exigir exames e documentos não é falta de misericórdia. Todo alimento precisa desses exames técnicos. Mesmo os produtos mais conhecidos dos brasileiros, como um leite em pó ou uma salsicha de marcas bem conhecidas, não são postos no mercado sem antes haver exame rigoroso, pelo qual se obtém documentação, vistoria e avaliação pelos ministérios da Saúde e da Agricultura.

O ministério da Agricultura só autoriza a comercialização do produto se ele passar por esses exames e receber, do referido órgão, o carimbo de qualidade. Pode ser leite Ninho, salsicha Sadia, manteiga Qualy, tantos outros, nenhum deles é lançado sem passar por esses exames.

Daí que foi muito, muito grave a decisão de Divaldo Franco de oferecer seu evento para lançar a "farinata", sem ter a firmeza e o rigor de seu alegado mestre francês. Se um prefeito de Paris se dirigisse a Kardec para pedir que este lançasse um composto alimentar, é bem provável que o pedagogo exigisse uma comprovação técnica e uma documentação rigorosa a respeito, talvez dizendo as seguintes palavras:

"Tenho muita consideração à sua pessoa e à sua qualidade de amigo, mas sinceramente me recuso a atender esse favor, no desconhecimento completo que eu tenho da natureza desse alimento. Há garantias de que ele é processado com os cuidados de higiene necessários? As entidades sérias de saúde pública e nutrição já avaliaram previamente o produto? 

Eu, pessoalmente, tenho muitas dúvidas a respeito desse produto e não acredito que ele, em si, possa atender sozinho às necessidades nutricionais dos mais pobres. Vejo em Vossa Senhoria uma pessoa com a qual tenho muita consideração, mas não posso chegar ao ponto de aceitar a sua solicitação sem que eu tenha a segurança necessária da qualidade desse alimento. 

No entanto, vendo a natureza do projeto que me é apresentado, prefiro, pessoalmente, não atender ao seu pedido, pois não me cabe me responsabilizar por algo que considero bastante incerto e duvidoso. Espero que compreenda".

O que Divaldo Franco fez, foi, portanto, extremamente grave, porque ele ofereceu o evento dele para o lançamento oficial do produto. Isso não é invenção, é fato, está claro na camiseta exibida por João Dória Jr. que aparece nas fotos da imprensa. O mais grave, ainda: Divaldo permitiu o lançamento de um alimento que não só careceu de exames técnicos, como foi previamente condenado por entidades de saúde pública e nutrição e movimentos sociais que viam nele uma ofensa à dignidade humana.

Não se pode acobertar as coisas sob o pretexto do prestígio religioso. Divaldo, na intenção de evitar o risco de brigar com os parceiros católicos e evangélicos do Você e a Paz e de decepcionar o prefeito homenageado, deixou ocorrer um risco maior, que é o de oferecer o evento para o lançamento oficial de um alimento previamente condenado.

O silêncio da imprensa não inocenta Divaldo, que deve ser responsabilizado pelo seu ato. Ele terá agora que abrir mão de sua "perfeição" e que, se os brasileiros forem menos ingênuos, que devolvessem os volumes da série Divaldo Responde às livrarias, cobrando desembolso do dinheiro gasto, porque foi constrangedor um homem que diz "ter respostas para tudo" não ter respostas sobre um alimento duvidoso. Vamos pôr a realidade acima das paixões religiosas, gente?

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

É mais fácil dizer que Papai Noel não existe do que apontar erros em "médiuns espíritas"


A sociedade anda apavorada ao saber que Divaldo Franco esteve associado à "farinata" de João Dória Jr., pelo fato de que o terrível alimento - que derrubou a já péssima reputação do prefeito de São Paulo - foi oficialmente lançado pelo evento Você e a Paz, que, apesar do patrocínio da Arquidiocese de São Paulo, é organizado por iniciativa do próprio "médium" baiano.

Sim, "médiuns espíritas" são dotados da mais absoluta blindagem. E isso deve porque eles são a suposta personificação de qualidades humanas fantásticas observadas em contos de fadas. Os estragos que a "fascinação obsessiva", através dos apelos emocionais do "bombardeio de amor" (um tipo de falácia marcado pelo excesso de emotividade e de afeto tendencioso), causou nos brasileiros foram devastadores.

Sabe-se que a "fascinação obsessiva" foi claramente reprovada por Allan Kardec, que a definiu como um tipo perigoso de obsessão, não tanto quanto a "subjugação". É a "fascinação obsessiva" que garante a adoração e a blindagem dos "médiuns" brasileiros por toda a solidariedade, a não ser da parte de juristas, jornalistas e acadêmicos, estes movidos pelo tipo mais perigoso, a "subjugação".

Isso porque a "fascinação obsessiva" é um tipo de submissão tomada de encanto, mas que não chega a interferir na consciência humana, dotada de aparente autonomia de ação. Já a "subjugação" é pior, porque é uma subordinação completa, porque nem mesmo a lógica, o bom senso e a coerência conseguem deter. A "subjugação" é uma "fascinação" em sua forma radical e ainda mais submissa ao espírito dominador.

"Fascinados" pela imagem "dócil" dos "médiuns", jornalistas, juristas e acadêmicos se recusam a investigá-los de maneira objetiva, criando simulacros de "investigação" que só servem para forjar alguma "polêmica" e, depois, deixar os "médiuns" intatos, mesmo quando se comprova seus erros e suas irregularidades.

Só para citar um exemplo, o caso de Humberto de Campos, cuja propriedade intelectual foi levianamente usurpada e empastelada pelo "médium" Francisco Cândido Xavier - que, em seu tempo, foi uma espécie de Aécio Neves da religião, com ranços "filantrópicos" de Luciano Huck - , foi um caso aberrante de impunidade, cujo ridículo da situação poderia ter sido apenas um capítulo do FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, de Sérgio Porto / Stanislaw Ponte Preta.

Mas não. Enquanto a obra original de Humberto, que havia sido um escritor bem popular no seu tempo, foi deixada de lado, oficialmente fora do mercado literário, as obras fake trazidas por Chico Xavier, que claramente destoam do estilo original do autor maranhense, continuam sendo lançadas e até divulgadas em feiras literárias, por causa de mensagens supostamente espiritualistas de claro conteúdo igrejeiro, de profundo agrado a uma parcela conservadora e moralista da sociedade.

Isso é uma leviandade e mostra o quanto os "médiuns espíritas", que se julgam até "acima de Kardec", são tomados da mais absoluta blindagem e não podem ser questionados, porque muitas pessoas reagem chorando e apelando para o discurso vitimista de "perseguição aos homens de bem". A imagem trazida pela "fascinação obsessiva", com um mundo de cor e fantasia, fala muito alto. Em blindagem, os "médiuns" superaram até mesmo os políticos do PSDB, famosos por tal situação.

Fica difícil dizer aos adultos que os "médiuns espíritas" são traidores da Doutrina Espírita. Imagine então identificar em Chico Xavier e Divaldo Franco como "inimigos internos do Espiritismo"? Isso é fato, porque os dois apresentam caraterísticas que haviam sido alertadas como negativas em O Livro dos Médiuns. Mas as pessoas vão correr para seus quartos e chorar copiosamente, diante de tão "infeliz acusação".

Isso é bem pior do que dizer a uma criança que Papai Noel não existe. A essas alturas, a criançada, que usa a Internet e tende a ser melhor informada das coisas - não por conta da poluição mental das redes sociais, mas por páginas informativas que as crianças, divergentes dos vícios dos jovens adultos, poderão consultar - , já deve perceber que o "bom velhinho" geralmente é um personagem interpretado por algum ator ou outro profissional durante os eventos natalinos.

Já dizer que os "médiuns espíritas" são charlatães, deturpadores do Espiritismo, criam obras "mediúnicas" fake - imagine Auta de Souza "perdendo" seu estilo feminino para "voltar" com o mesmo estilo de Xavier? - , praticam a "caridade" fajuta do Assistencialismo, são "vaticanizadores" da Doutrina Espírita etc, isso faz os adultos chorarem aos soluços ou espumar de raiva rancorosa.

Isso é muito mau. E mostra o grande absurdo que se tornou o que parece oficialmente a versão brasileira do Espiritismo. Uma doutrina que se afastou completamente do legado e até da conduta de Allan Kardec, um sujeito tão criterioso, observador e exigente que nunca teria aceito alguém divulgar a "farinata" usando o nome respeitável de um pedagogo francês.

Mas, de maneira bastante explícita, Divaldo Franco deixou que João Dória Jr. lançasse um alimento que especialistas e ativistas sérios definem como "ofensa à dignidade humana", usando o nome do "médium" e de seu evento. Divaldo deixou a máscara cair para sempre, revelando nunca ter sido discípulo de Kardec e, pior, provando nem sequer ter o espírito de firmeza e prevenção que havia marcado a pessoa do pedagogo de Lyon.

domingo, 12 de novembro de 2017

"Espiritismo" apoia o retrocesso da reforma trabalhista

PROTESTO ADVERTE QUE A REFORMA TRABALHISTA REPRESENTA O FIM DAS CONQUISTAS PREVISTAS PELA CLT.

Cada vez mais se afirmando como uma religião conservadora, o "espiritismo" brasileiro demonstrou seu apoio ao governo Michel Temer e aos atuais momentos de retomada conservadora após a queda de Dilma Rousseff.

Durante os primeiros meses do governo Michel Temer, cresceram os textos de várias páginas "espíritas" defendendo a aceitação da desgraça, a conformação (e até a adoração) do sofrimento humano, a renúncia aos desejos e até às necessidades humanas e apelos do mais puro cinismo moralista, como o tal "combate ao inimigo de si mesmo", uma contradição para uma religião que diz pregar o amor-próprio.

São textos difundidos na maior cara-dura, incluindo até corroboração de palestrantes "espíritas" a colegas que defendem a "adoração do sofrimento". Depois esses mesmos "espíritas" ficam apavorados quando são acusados de defender a Teologia do Sofrimento. Como bebês chorões, eles apelam para o morde-e-assopra: "Não, ninguém nasceu para sofrer! Não dissemos isso!".

Disseram, e com todas as palavras. A falta de firmeza dos "espíritas" revela uma contradição: o que um dia eles dizem de maneira taxativa, no outro hesitam e tentam desmentir o que haviam dito, de maneira medrosa e bastante oscilante. "Não, não é bem assim que eu quis dizer", argumentam, sem perceber que, na véspera, eles haviam sido bem claros em suas declarações.

E se juntarmos as peças no contexto em que tais mensagens foram difundidas, temos a seguinte conclusão: o "espiritismo" apoia Michel Temer e suas propostas reacionárias, oficialmente denominadas "reformas": reforma trabalhista, incluindo a terceirização total, e reforma previdenciária.

Os "espíritas" defendem os retrocessos sociais porque se afinam com essa pauta, lembrando que os chamados "médiuns" e outros palestrantes viajam pelo Brasil e pelo mundo, usando, em parte, o dinheiro da caridade, para fazer seminários não raro muito caros e restritos a temáticas bastante banais e, não obstante, ao arrepio dos postulados originais de Allan Kardec.

PARA OS RICOS, A FELICIDADE; PARA OS POBRES, A ACEITAÇÃO DO SOFRIMENTO

Observando bem, ocorre até mesmo um disparate. Enquanto, para os sofredores e desafortunados da sorte, geralmente pessoas pobres ou de classe média baixa, os "espíritas" apelam para a aceitação do sofrimento e até para gostar de sofrer e colecionar desgraças, para os ricos e privilegiados o discurso é diferente: falam em "meios de obter a felicidade".

Os "espíritas" tentam dissimular dizendo que os argumentos são "iguais para todo mundo" e até inventam a dizer de que "os ricos são os que mais estão sujeitos às provações humanas". Mas, na maioria dos momentos, os "espíritas" se contradizem, pois normalmente eles definem os ricos como "humildes que haviam feito o bem e voltam para reutilizar a fortuna" e os pobres como "antigos ricos que usaram mal seus recursos".

É um juízo de valor muito severo, e que revela a inclinação dos "espíritas" à Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo. A defesa da Teologia do Sofrimento por Francisco Cândido Xavier foi o exemplo mais explícito de defesa dessa corrente medieval, algo que nenhum católico propriamente dito chegou a defender com tanta veemência.

Chico Xavier, que muitos erroneamente definem como "progressista", era uma espécie de "AI-5 do bem". Com palavras dóceis - mas que, prestando bem atenção, são mais rudes e sem a meiguice que se atribui às mesmas - , ele sempre apelava para o masoquismo humano, dizendo para os sofredores aceitarem as desgraças em silêncio, sem reclamar e sem demonstrar sofrimento para outras pessoas.

Ou seja, para os sofredores, o "bondoso médium" apelava para que não só aceitassem o sofrimento, aguentando as desgraças em silêncio, a mercê de todo prejuízo, como pedia para os sofredores fingirem para todo mundo que tudo estava bem. Como se mentir fosse trazer alguma energia positiva para os sofredores.

REFORMA TRABALHISTA, SOB A ÓTICA "ESPÍRITA"

A chamada reforma trabalhista está de acordo com o moralismo severo e conservador defendido pelos "espíritas". Segundo eles, as restrições - definidas pelos críticos da proposta como "retrocessos sociais" - seguem a perspectiva de "abnegação, desapego material, humildade e perseverança", conforme vemos em certas propostas.

1) REDUÇÃO SALARIAL - Os "espíritas" defendem a redução dos salários e o fim dos encargos e garantias sociais como pretextos para o "desapego material" e a realização de princípios conservadores já defendidos pelo "movimento espírita", como a conformação com as grandes limitações sociais dos menos privilegiados e a sobrevivência "qualquer nota" das pessoas, sem muita qualidade de vida.

Aliás, a queda de qualidade de vida também é festejada pelos "espíritas" como um meio das pessoas aprenderem a "reavaliar seus desejos", além de treinar a submissão diante dos arbítrios diversos, como o aumento das tarifas a pagar.

 A medida também "estimula" o fato de eliminar "caprichos materialistas", pois, segundo os "espíritas", para que comer pão com manteiga tomando café com leite, se dá para comer pão sem manteiga com água (de torneira, porque água de filtro custa dinheiro). Se der problema, é só pegar um livro "espírita", que seus defensores dizem ser um "alimento para a alma".

2) SOBRECARGA DO TRABALHO - A reforma trabalhista prevê um teto profissional de até 12 horas por cada dia, mas liberará os patrões de ampliar a jornada de trabalho. Isso está de acordo com o "espiritismo" brasileiro, que sempre apela para que as pessoas vivam "para o trabalho", sem fazer distinção clara sobre o que é serviço (desempenhar uma atividade útil, mesmo que seja durante o lazer) e servidão (trabalho opressivo subordinado a um chefe moralmente abusivo).

Para os "espíritas", pouco importa se alguém trabalha 20 horas por dia, almoça por cinco minutos qualquer besteira alimentícia e recebe um "salário de fome". Desde que "mantenha fé em Cristo", toda desgraça é válida, até acima das capacidades humanas. O problema é arrumar tempo para fazer prece, com a mente dividida entre a oração e o trabalho a ser desempenhado.

O "espiritismo" já se declarou contrário à escravidão, nos tempos do doutor Adolfo Bezerra de Menezes, que havia sido abolicionista, embora sem muito destaque histórico. Mas hoje os "espíritas" pouco se sensibilizam diante de situações análogas à escravidão, conforme se observa em alguns pontos da reforma trabalhista, porque só veem a encarnação como uma trajetória de "muito trabalho" e acham que "quanto mais sacrifícios, melhor".

3) ATÉ GESTANTES PODEM TRABALHAR EM LUGARES PERIGOSOS - Os "espíritas" exaltam tanto o trabalho da maternidade, fazendo analogia ao "papel divino" de Maria, mãe de Jesus, mas como também defendem o "espírito de sacrifício pleno" das pessoas, pois, com base na Teologia do Sofrimento, "quanto mais sacrifícios, mais bênçãos", aceitam essa "combinação admirável e digna" do "sacrifício do trabalho" com o "sacrifício da mãe".

4) PREVALÊNCIA DO NEGOCIADO SOBRE O LEGISLADO NOS ACORDOS TRABALHISTAS - Os "espíritas" entendem essa tese como uma "excelente oportunidade" de patrões e empregados "se entenderem como irmãos", mesmo quando os patrões se encontram em vantagem social e seus interesses prevaleçam sobre os dos empregados, que, em tão grande desvantagem, podem ser até demitidos se não aceitarem as condições impostas pelos seus patrões.

5) INSTABILIDADE DO EMPREGO - Os "espíritas" acham ótimo que os empregados não tenham estabilidade no emprego. Primeiro, porque "desestimula a acomodação". Segundo, porque, sob a ótica "espírita", isso permite "maiores desafios" (embora os "espíritas" não vejam distinção entre "desafio" e "desgraça"). E, terceiro, porque, mediante uma abordagem moralista, os "espíritas" veem nisso uma forma de estimular a "perseverança pela fé", ainda que à mercê de interromper projetos profissionais de longo prazo por conta da demissão.

6) PEJOTIZAÇÃO - A chamada pejotização é a transformação da pessoa em "empresa" (no caso "empresa fantasma"). É um registro como pessoa jurídica (CNPJ), diferente do de pessoa física (CPF), um artifício que faz as pessoas serem empregadas de uma empresa inexistente, o que faz com que, se caso elas trabalhem numa empresa existente, elas o farão na condição de "terceirizadas".

Essa armação permite aos patrões não terem obrigações trabalhistas a cumprir, só dando uma remuneração precária pelo serviço terceirizado. Sindicatos denunciam essa manobra como um meio para precarizar o trabalho e desqualificar ainda mais os salários dos trabalhadores.

Os "espíritas", por sua vez, acham isso ótimo, porque a transformação do trabalhador em "empresa fantasma" é um "incentivo" ao "espírito de serviço", porque, aos olhos dos "espíritas", o empregado passa a ser "empreendedor de si mesmo", dando-lhe "coragem para novas aventuras profissionais".

CONCLUSÃO

Com esses argumentos acima apresentados, os "espíritas" revelam estarem afinados com o governo Michel Temer e com todo o contexto em volta dele. Já definiram o Movimento Brasil Livre como "exemplo de regeneração dos brasileiros", e já definem o apresentador Luciano Huck, defensor da "caridade" praticada pelos "espíritas" (o Assistencialismo), como alguém análogo às "crianças-cristais".

O "espiritismo" comprova, portanto, ser não uma religião progressista, mas uma religião conservadora que, em vez de cumprir a promessa de recuperar os postulados de Allan Kardec, acaba recuperando, isso sim, o "lixo" descartado pela Igreja Católica, que são os valores do Catolicismo jesuíta que prevaleceram no período colonial e se baseiam na matriz portuguesa, comprometida com valores medievais.

sábado, 11 de novembro de 2017

João Dória Jr. "entregou" Divaldo Franco e o Você e a Paz no caso da "farinata"


Uma boa pauta foi perdida pela mídia alternativa, que geralmente traz questionamentos aprofundados sobre alguns fenômenos sociais, culturais e políticos apoiados pela mídia hegemônica e pelas forças políticas dominantes.

Ninguém observou o quanto o "espiritismo" brasileiro também tem responsabilidade no lançamento de um engodo alimentar condenado pelos movimentos sociais e por entidades nutricionais e de saúde pública mais sérias.

A participação de Divaldo Franco e do Você e a Paz no lançamento oficial da "farinata", tão questionada e denunciada pelas forças progressistas, poderia ser muito bem analisada pela mídia alternativa. Por que ela não fez? Porque imagina o "espiritismo" pela combinação de cenários fabulosos de contos de fadas e crianças pobres sorridentes? Já não basta a complacência das esquerdas ao "funk", um subproduto cultural da mídia hegemônica?


As imagens que aqui publicamos mostram que o prefeito João Dória Jr. "entregou" o Você e a Paz, atribuindo a ele o evento de lançamento oficial do programa "Alimento para Todos", que inclui a "farinata". Apesar de ser um alimento já previamente condenado pelos movimentos sociais e por diversas entidades conceituadas de nutrição e saúde pública, o prefeito de São Paulo veio com essa conversa para boi dormir, a partir desse relato, que não condiz à realidade.

O relato faz parte do vídeo divulgado na própria página do prefeito, no Twitter, e aqui reproduzimos abaixo tudo o que ele havia dito no vídeo de lançamento, algo que não tem base científica e que contraria os princípios do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que não recomenda alimentos processados como prioridade para alimentação saudável, mas alimentos em condição mais próxima do que é encontrado na Natureza. Vejamos o que Dória disse:

"Este é o Alimento para Todos. Aqui você tem alimentos que estariam sendo jogados no lixo e que serão reaproveitados com toda a segurança alimentar. São reutilizados e transformados em alimento completo em proteínas, vitaminas e sais minerais. E, a partir deste mês de outubro, começa a sua distribuição gradual por várias entidades do terceiro setor, igrejas, templos, sociedade civil organizada, além da prefeitura de São Paulo, para oferecer às pessoas que têm fome. Em São Paulo, inicialmente. Depois, em todo o Brasil. Este é um produto abençoado".


Depois disso, aparecem várias cenas. O prefeito de São Paulo aparece distribuindo o alimento para as pessoas presentes, que parecem "adorar" o alimento, sendo visto um rapaz fazendo com o rosto um "gesto de satisfação". "Parece biscoitinho de polvilho. Você já pegou?" pergunta o prefeito a uma outra pessoa.

O fato de parecer "saboroso" para uns - isso num país em que a maioria da população adora uma bebida amarga como a cerveja - não garante o valor nutritivo. Nem sempre o mais agradável é o mais proveitoso, e o alimento, sem informações nutricionais conhecidas, pode ser nocivo se usado na rotina alimentar das classes populares.

No decorrer do vídeo, aparecem cenas do evento e, em algumas imagens, se observa Divaldo Franco ao lado dos presentes. Depois de um mês de ocorrido, Divaldo e o Você e a Paz não processaram João Dória Jr. pelo vínculo de imagem. Além disso, Dória poderia ter evitado usar a camiseta, indo de terno sem gravata para o evento, poupando a associação.

Isso tudo diz muito ao vínculo de imagem do Você e a Paz e do nome de Divaldo Franco na "farinata". O evento foi o lançamento oficial do produto. Várias fotos foram divulgadas na imprensa. A camiseta e o nome de Divaldo aparecem em destaque em várias delas. É surpreendente o silêncio de jornalistas, mesmo os de esquerda, em relação ao episódio.

A culpa não é de nós, críticos da deturpação do Espiritismo, por chamar a atenção a esse episódio. Da mesma forma que um faxineiro não pode ser culpado pela sujeira que encontra, um crítico da deturpação do Espiritismo não pode ser acusado de "intolerância religiosa" à figura pessoal de Divaldo Franco. Estamos apontando um episódio e, infelizmente, um "médium" tão adorado por muitos consentiu em apoiar abertamente o lançamento de um produto de valor duvidoso.

O crédito do nome do "médium" e do logotipo do evento - na verdade, uma versão paulista do evento cuja matriz é em Salvador, com um encontro previsto para o próximo 19 de dezembro - não são casuais nem coincidência. Tudo teve um propósito e, diz a regra da Publicidade, houve vínculo de imagem do Você e a Paz e de Divaldo Franco a um alimento considerado por especialistas uma "ofensa à dignidade humana".

Ignorar isso é contrariar a lógica e o bom senso. Mas se a mídia de esquerda se silenciou quanto a isso - ela preferiu "agigantar" a figura de outro apoiador, o arcebispo católico dom Odilo Scherer, da Arquidiocese de São Paulo, como único religioso "culpado por apoiar a farinata" - , ela perdeu uma boa oportunidade de investigar os aspectos sombrios do "espiritismo" brasileiro, religião oficialmente associada a uma imagem supostamente "sóbria" e "racional".

Nem mesmo alguns aspectos estranhos do "espiritismo", como o "médium" Francisco Cândido Xavier apoiando a ditadura militar e pregando um discurso reacionário no qual desqualificava movimentos como o proletariado e o campesinato (logo movimentos comandados por pessoas humildes!), num programa de grande audiência, conseguem ser investigados.

Em vez disso, uma blogueira comunista pateticamente fã de Chico Xavier - ela deveria conhecer o anti-comunismo convicto de seu ídolo - cometeu a gafe de ter reclamado que o filme As Mães de Chico Xavier, uma produção da Globo Filmes (dos mesmos donos da Rede Globo) "era boicotado pela grande mídia". A grande mídia não iria boicotar uma "prata da casa", ainda mais um filme com atores de novelas da Rede Globo.

A mídia de esquerda se ocupa de investigar apenas os "neopentecostais". Não há dúvida que nomes ligados a essas seitas, como Eduardo Cunha, Rachel Sheherazade, Silas Malafaia, Edir Macedo, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro, Janaína Paschoal, Magno Malta, Valdomiro Santiago e tantos e tantos outros estão associados a retrocessos sociais de um ou de outro aspecto, e devem ser sim, questionados pela mídia alternativa.

Mas deixar de lado os "espíritas", blindados pela Rede Globo e pelo grupo Abril, mesmo quando vemos um João de Deus latifundiário - dono de fazenda com área de dezoito parques do Ibirapuera, uma aberração para as extensões do Estado de Goiás - aparecendo ao lado de Michel Temer, algo que nenhum esquerdista deve aceitar sob a desculpa das relativizações.

Os "médiuns espíritas" não cometem coincidências ou acidentes quando estão associados de alguma forma a situações ligadas ao conservadorismo social e político. Se eles adotam posições sombrias, eles são responsáveis disso, não se pode dizer que eles foram "manipulados por obsessores espirituais". Os "médiuns" são responsáveis a tudo de pior que cometerem, desde defender a ditadura militar, apoiar a farsa de Otília Diogo ou apoiar Michel Temer e suas propostas retrógradas.

Depois que Michel Temer chegou ao poder, o que se viu de textos "espíritas" pedindo para os sofredores aceitarem as desgraças, abrirem mão de seus desejos e necessidades, combater o "inimigo dentro de si" ou coisa parecida. De repente, os "espíritas" escancararam a Teologia do Sofrimento que sempre esteve na doutrina igrejeira a partir de Chico Xavier, o que sugere um apoio subliminar às ditas reformas trabalhista e previdenciária.

Há até desculpas para a defesa dessas "reformas": a redução salarial e o fim dos encargos é defendida por "espíritas" como "ensaio para o desapego material". A prevalência do negociado sobre o legislado nos acordos trabalhistas se baseia na utopia do "acordo fraterno" entre patrões e empregados. A terceirização é vista como "demonstração de humildade" dos trabalhadores etc.

E por que, pelo menos, a mídia progressista não questiona? Por que não investiga, não averígua as redes de apoio, não faz reportagens a respeito dessas redes de apoio entre "espíritas" e políticos conservadores, por que a blindagem da Rede Globo e do Grupo Abril, o conteúdo do moralismo conservador?

Pautas existem aos montes, e indícios fortes de provas de que os "espíritas" estão afinados com o conservadorismo sócio-político de hoje estão aí. Só cabe a mídia de esquerda deixar de lado a complacência fácil e analisar. O caso Divaldo Franco-farinata é um bom exemplo do que a mídia progressista deveria fazer.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Imprensa progressista deveria investigar "movimento espírita"

AS SEITAS "NEOPENTECOSTAIS" SÃO FARTAMENTE INVESTIGADAS PELO JORNALISMO PROGRESSISTA. NA FOTO, PASTOR MARCO FELICIANO APOIANDO O IMPEACHMENT CONTRA A ENTÃO PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF.

A imprensa progressista geralmente prima pelo jornalismo investigativo, pela averiguação de pontos sombrios contra totens consagrados pela sociedade em geral, servindo de contraponto à chamada mídia hegemônica, geralmente complacente e até cúmplice de muitos privilegiados da sorte.

No entanto, a mídia progressista tem suas omissões graves, quase imperdoáveis. Perde oportunidades mil de amplitude de seu raio investigativo. O "funk", ritmo comercial vinculado ao poder midiático, patrocinado por multinacionais e querido pelos executivos da mídia hegemônica, nunca foi alvo de investigação pela mídia progressista. Pelo contrário, era sempre cortejado por textos apologistas, mesmo sob o verniz de "grandes reportagens".

Ninguém observa, por exemplo, por que, entre 2003 e 2005, as Organizações Globo se empenharam tanto em divulgar o "funk". Era tudo quanto era programa e veículo, num processo de divulgação que não pode ser visto como "apropriação do movimento", pois a forma com que o "funk" era difundido indicava cumplicidade entre o "movimento funk" e a família Marinho, dona da poderosa corporação.

Ninguém, da mesma forma, investiga as associações do "funk" com a CIA - praticamente confirmada com o patrocínio de dois órgãos vinculados ao governo dos EUA, a Fundação Ford e a Soros Management Fund, a ONGs que investem e patrocinam o "funk" - , nem as parcerias com Luciano Huck, com o PMDB carioca, com o PSDB, com Aécio Neves, com Eduardo Cunha.

Ninguém percebeu sequer que o "baile funk" que aconteceu em Copacabana, aparentemente em solidariedade à presidenta Dilma Rousseff, no dia 17 de abril de 2016, data de votação da Câmara dos Deputados da abertura do processo de impeachment, foi uma forma de abafar o teor das manifestações pró-Dilma, reduzindo o teor político, na medida em que a "festa" se sobrepunha à manifestação política.

Ninguém sequer perguntou por que o empresário e DJ Rômulo Costa, da Furacão 2000 - que havia elegido o apresentador Luciano Huck "embaixador oficial do funk" - , embora manifestasse aparente repúdio ao deputado Eduardo Cunha, tem representantes defendendo o "funk" filiados ao PMDB carioca e ligados à "bancada da Bíblia" (Costa é evangélico), a mesma do então presidente da Câmara dos Deputados.

São muitos e muitos pontos sombrios que cercam o "funk" que a mídia progressista se dispõe de um farto material de investigação. Em vez disso, seus membros se deixam levar pela embalagem "humilde" do "funk". Esse é um vício que mancha as esquerdas, que se deixam levar por qualquer um que se promova sob o apelo publicitário de "pobres sorridentes".

"MÉDIUNS" OU "SACERDOTES DA REDE GLOBO"?

Outro problema é quanto à religião. A mídia progressista tem um empenho exemplar em investigar personalidades direta ou indiretamente ligadas a seitas "neopentecostais", comprometidas com pautas sociais obscurantistas e retrógradas, seja de ordem trabalhista, sexual, familiar ou de outra natureza, e que comandam a "bancada da Bíblia" do poder Legislativo nas esferas municipais, estaduais e federal.

No entanto, não há uma investigação a respeito do "espiritismo" brasileiro, que é beneficiado pela má informação generalizada que se prega do legado de Allan Kardec, difundida pela grande mídia como se fosse um conto de fadas.

Enquanto o legado original da Doutrina Espírita é desfigurado pela supremacia dos "místicos" no "movimento espírita" brasileiro - a supremacia é tal que os deturpadores já se posicionam acima do próprio Kardec - , a visão oficial que se tem é que o Espiritismo que se tem no Brasil é "autêntico" e "inocentemente adaptado" às "tradições da religiosidade brasileira".

Cria-se uma narrativa simplória que parece sinopse de novela da Rede Globo: um pedagogo conhece fenômenos sobrenaturais, estabelece conceitos a partir disso e, depois, brasileiros adaptam todo esse sistema de conhecimentos às crenças da fé e fundam uma religião espiritualista. Seria muito simples se isso fosse realmente assim.

Enquanto isso, nos bastidores do "espiritismo" há verdadeiras torres de Babel na qual os próprios deturpadores não se entendem, disputando para ver quem catoliciza mais o Espiritismo. Conceitos que constrangeriam Allan Kardec são vendidos como se fossem "espiritismo autêntico" e abordagens entram em conflito a partir de nulidades como imaginar quem é ou foi  reencarnação de Kardec e se o Brasil entrará em regeneração em 2019 ou 2057.

O que chama a atenção é a blindagem que os chamados "médiuns espíritas" - que romperam com a função intermediária do médium original para se tornarem os "sacerdotes" do "espiritismo" igrejista - recebem da grande mídia, sobretudo a Rede Globo, que os trata como seus protegidos oficiais, usando-os como meios de concorrer com os "pastores eletrônicos" das "neopentecostais" que atuam na Rede Record ou em horários arrendados pelas concorrentes.

Nenhuma alma viva da mídia progressista consegue perguntar a respeito dessa associação. Recentemente, "médiuns" como Divaldo Franco e João Teixeira de Faria, o João de Deus, apareceram ao lado de políticos decadentes como João Dória Jr. e Michel Temer, respectivamente, e não se averiguou por quê de tanta afinidade. Se Dória e Temer estivessem ao lado de Silas Malafaia e Marco Feliciano, haveria burburinho na mídia progressista.

No caso de João Dória Jr., o agravante foi que a divulgação oficial da "farinata", um alimento que, por suas irregularidades, causou má repercussão ao ser condenado pelos movimentos sociais e por entidades sérias de saúde pública e nutrição, com o prefeito Dória usando a camiseta do Você e a Paz com o nome de Divaldo Franco descrito. Isso é vínculo de imagem. Como é que a mídia progressista não se atentou a averiguar isso?

Imagine se o alimento fosse lançado oficialmente e, de repente, uma escola sofre uma série de intoxicações alimentares dos alunos que comeram a "farinata". Como fica Divaldo Franco, oficialmente considerado "humanista", ao apoiar e permitir o uso da imagem de seu evento e do seu nome pessoal para um político divulgar um alimento que é considerado uma "ofensa à dignidade humana"?

E como a imprensa progressista não se deu conta disso? Complacência? Desinformação? Ou imagina que o Você e a Paz foi promovido pela Arquidiocese de São Paulo? A idealização do evento, como se observa em Salvador, é de Divaldo Franco e até muitos católicos e evangélicos sabem disso. Diante disso, é urgente verificar as razões do vínculo de imagem de João Dória Jr. e seu duvidoso alimento ao evento e ao nome pessoal de um "médium espírita".

O silêncio da mídia progressista, que se limitou a criticar o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, como religioso apoiador da "farinata" ou "ração humana", deve ter sido movido mais uma vez pelo apelo de "pobres sorridentes" que se associa aos "médiuns espíritas", tidos oficialmente como "pessoas puras" mediante apelos produzidos pela grande mídia, que é capaz de fabricar consenso para impor seus valores, sobretudo religiosos.

A própria imagem de Francisco Cândido Xavier como um "filantropo" que hoje prevalece foi um discurso produzido pela Rede Globo, reciclando o mito produzido pela FEB na pessoa de Antônio Wantuil de Freitas, mas eliminando os exageros pitorescos promovidos por este último.

Tomando emprestado o mesmo roteiro discursivo que o católico inglês Malcolm Muggeridge fez sobre Madre Teresa de Calcutá, que simboliza um paradigma de "caridade" que mais promove o "benfeitor" e muito menos traz progressos à sociedade, a Rede Globo relançou o mito de Chico Xavier com uma retórica que lembra sinopse de novela. A ideia é criar um ídolo religioso "ecumênico" para neutralizar a ascensão dos "pastores eletrônicos" das seitas "neopentecostais".

A mídia progressista não percebeu isso e houve até blogueira comunista que se dizia fã de Chico Xavier - deveria ela conhecer o anticomunismo ferrenho do "médium", expresso para milhares de pessoas no Pinga Fogo, em 1971 - cometendo a gafe de reclamar que As Mães de Chico Xavier, produção da Globo Filmes, era "boicotada pela grande mídia". Ora, a Globo Filmes é da mesma empresa da Rede Globo, as Organizações Globo!

Fica então a missão da imprensa progressista analisar os problemas que envolvem o "espiritismo" brasileiro, que já revela seu conservadorismo ao trocar o cientificismo progressista de Kardec pelo igrejismo ultraconservador do Catolicismo jesuíta, na prática a base dos postulados "espíritas" vigentes no Brasil.

Seria bom que a imprensa progressista perguntasse e averiguasse sobre o que está por trás de fenômenos que se divulgam sob a imagem publicitária de pobres sorridentes, em vez de se deixar seduzir por tão comovente figura.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Liberdade religiosa não é desculpa para se fazer o que quer


Até que ponto existe o limite entre ser vítima de injustiça e fazer jogo de cena com vitimismo? Até que ponto não pode haver, também, espécie de bullying jurídico, com processos judiciais que mais soam censuras do que reparos a danos morais?

O Brasil está sofrendo a crise das instituições, porque o topo da pirâmide se encontra em estado avançado de perecimento. Só no caso da violência contra a mulher, a prevalência de valores patriarcalistas na sociedade brasileira, mesmo entre uma parcela das mulheres, revela o quanto é socialmente aceito o "método Império Romano" de resolver os problemas conjugais, através do feminicídio de natureza conjugal.

Essa aceitação cria situações tão surreais que a sociedade moralista ou mesmo a imprensa se arrepiam de medo quando se fala da proximidade da morte de dois famosos feminicidas, Doca Street e Pimenta Neves, velhos e com indícios de doenças talvez terminais, contraídas não porque eu ou você quisemos ou não, mas porque os dois fizeram por onde para massacrar seus organismos, seja por um passado de tabagismo intenso e cocaína ou pela overdose de remédios que quase foi fatal.

Sim, perdemos muita gente importante ou adorada antes dos 60 anos - Santos Dumont, Leila Diniz, Renato Russo, Mário de Andrade, Gláucio Gil, Mané Garrincha, Lauro Corona, Cazuza, Chico Science, Sylvia Telles, Nara Leão, Noel Rosa, Olavo Bilac, Ayrton Senna, Cacilda Becker, Glauber Rocha e Raul Seixas - , que medinho é esse de que dois homens ricos que mataram suas mulheres podem morrer na casa dos 80 anos, quando, por sorte, eles poderiam até ter morrido bem antes?

Se as pessoas têm esse apego doentio a assassinos ricos - não só a Doca e Pimenta, mas, fora do femincídio, um Darly Alves (mandante da morte de Chico Mendes, outro ilustre falecido antes dos 60) com histórico de graves crises de úlcera - , só comparável ao que, nos EUA, se tem em relação a Charles Manson (outro aos pés do túmulo na casa dos 80 e que, se tivesse fora da prisão, teria morrido bem antes), então o nível moral da chamada "boa sociedade" está muito, muito ruim.

Isso reflete a seletividade que temos, e que mostra o quanto a moral severa não traz respostas à sociedade, assim como o status quo de toda ordem, do dinheiro ao prestígio religioso. Muitos se esquecem que, até nos atos de bullying e cyberbullying, também há o peso do status quo, quando os agressores também gozam de algum prestígio social e seus atos de humilhação a outrem encontram respaldo até de pessoas inocentes que pensam que isso é uma brincadeira ou espetáculo de humor.

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Fala-se em "liberdade religiosa", muitas vezes, não sob o prisma das classes populares, que valorizam manifestações como a umbanda, o candomblé e o islamismo como crenças válidas que refletem também um rico acervo cultural de seus seguidores. Em muitos casos, a "liberdade religiosa" serve como escudo para proteger, por outro lado, crenças das classes dominantes e que, não raro, também praticam atos de intolerância religiosa, a mesma alegação de que dizem sofrer.

Houve, no Brasil, um aumento substancial de denúncias de intolerância religiosa, mas, conforme dados mais recentes, houve apenas uma denúncia envolvendo o "espiritismo kardecista" contra 39 envolvendo os cultos afro-brasileiros. Uma outra denúncia envolveu uma religião "evangélica", embora, geralmente, os evangélicos, pelo menos os chamados "pentecostais", estão associados a atos de intolerância contra a umbanda e o candomblé.

O que muitas pessoas ignoram é que os atos de intolerância religiosa, na verdade, são panos de fundo de outras intolerâncias, como a intolerância das elites que começou no plano político - uma parcela da sociedade não suportava ver seus privilégios serem limitados durante os 13 anos em que o PT estava no poder - e hoje liberou espaço até para crimes de ódio, preconceitos sociais abertos e humilhações gratuitamente pesadas, vindas de setores privilegiados da sociedade.

O "espiritismo" e as religiões "neopentecostais", como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus, demonstram serem religiões de elite, e estão afinadas com o cenário político atual. Em 2016, aumentaram textos "espíritas" apelando para a "aceitação do sofrimento", trazendo a mensagem subliminar de defesa aos retrocessos sociais do governo Michel Temer. Enquanto isso, "neopentecostais" usavam o Poder Legislativo para criar leis para legitimar tais retrocessos.

Nomes como Magno Malta, Marco Feliciano, Silas Malafaia e Janaína Paschoal se projetaram defendendo retrocessos sociais "em nome de Deus". No "espiritismo", não se pode subestimar o fato dos "médiuns" Divaldo Franco e João Teixeira de Faria, o João de Deus, aparecerem ao lado de políticos retrógrados como João Dória Jr. e Michel Temer, algo que não deve ser visto como mera coincidência, pois está clara a afinidade de sintonia com o "novo momento".

Os "médiuns" também estão associados à desfiguração do legado de Allan Kardec, rebaixado, no Brasil, a uma retomada do antigo Catolicismo jesuíta medieval, algo que deixa muito claro quando as "casas espíritas" evocam jesuítas como "espíritos protetores".

Refletindo o vício brasileiro de dissimulação de atos pela "ginástica mental", os "espíritas" traem Kardec mas insistem em dizer que são "rigorosamente fiéis" a ele. Dizer que eles são traidores não é desaforo nem ofensa. É só ver os livros lançados por Divaldo Franco e por Francisco Cândido Xavier para cairmos da cadeira diante da presunção de que os dois são (supostamente) "os maiores discípulos de Kardec no mundo".

A bibliografia desenvolvida por Chico Xavier e Divaldo Franco mostra sempre conceitos igrejistas e aspectos que contrariam, de forma explícita, os postulados espíritas originais. Para piorar, os dois investem em aspectos e atitudes já condenados claramente por Kardec em O Livro dos Médiuns e O Livro dos Espíritos: textos rebuscados, ideias impróprias, uso de nomes ilustres para impressionar a opinião pública etc.

Mas como o Brasil é a pátria da pretensão, na qual feminicidas falam em "direito à honra", latifundiários mandantes de homicídios em "direito à propriedade" e movimentos fascistas, como os que envolvem Jair Bolsonaro, em "defesa da Pátria", as elites fazem o que querem e não querem sofrer os efeitos de seus atos. Se sofrem, alegam "intolerância" e "perseguição" e uns chegam a processar seus críticos diante da desesperada luta para se salvarem das consequências.

E aí muitos apelam para a "ginástica mental" para justificar suas atitudes e procedimentos equivocados, lutando para prevalecer, dependendo do caso, a omissão, a permissividade ou a impunidade.

No caso da "farinata" de João Dória Jr., que de forma explícita lançou o alimento no evento Você e a Paz, promovido por Divaldo Franco, quando se fala que houve vínculo de imagem de Divaldo e seu evento a esse alimento condenado por movimentos sociais e entidades de saúde pública, não se está cometendo intolerância religiosa.

Está tudo explícito. É a regra da publicidade. O prefeito de São Paulo foi escolhido para ser homenageado por Divaldo e seu evento mesmo quando até a imprensa que apoiava João Dória Jr. admitia que ele estava em decadência. E João Dória não era um "Cristo crucificado pelos romanos", mas um queridinho das elites ricas e poderosas.

Além disso, João Dória Jr. poderia ter usado apenas paletó e camisa de colarinho, como todo ricaço, mas decidiu vestir a camiseta do Você e a Paz, citando o nome de Divaldo Franco. E se o prefeito nunca foi processado pelo uso da imagem do evento para promover o alimento condenado pelos nutricionistas mais sérios, é porque Divaldo assumiu o risco de tal empreitada.

Divaldo pôs sua reputação a perder, dez meses após ter feito um juízo de valor contra os pobres refugiados do Oriente Médio. Aliás, não seria um ato de intolerância religiosa esse juízo de valor, acusando, sem provas, os refugiados - vários deles muçulmanos - de terem sido "tiranos sanguinários em outra vida"?

No episódio da "farinata", Divaldo, cuja fama remete a um "sábio que responde a tudo e tudo prevê", pôs sua reputação a perder, pois, se agiu sem saber, desmentiu o "sábio" que se dizia ser, e, se agiu sabendo, desmente também a fama de "humanista" que encantava seus seguidores.

O que se deve admitir é que não se pode colocar a lógica, o bom senso, a coerência ou a ética no lixo, em benefício da fé. Se uma religião ou um ídolo religioso cometem atitudes equivocadas, ele deve ser questionado por isso. Não é intolerância religiosa, mas intolerância a vícios como a hipocrisia ou a omissão. A liberdade religiosa não é desculpa para se fazer o que quer. Misericórdia não é permissividade.

domingo, 5 de novembro de 2017

Algumas provas de que Divaldo Franco NÃO é discípulo de Allan Kardec


Divaldo Franco se envolveu numa situação complicada, ao permitir que seu evento Você e a Paz o decadente prefeito de São Paulo, João Dória Jr., lançasse um estranho composto alimentar, condenado pelos movimentos sociais e pelas mais diversas entidades de saúde pública e nutrição.

Isso é um erro gravíssimo, e que põe em xeque-mate um ídolo religioso. Afinal, Divaldo Franco era tido como alguém com respostas para tudo, um pretenso sábio que se julgava prevenido de qualquer situação, mas que "não teve condições" de evitar que uma tal "ração humana", considerada um meio desumano e demagógico de supostamente resolver a fome dos mais pobres, fosse lançada em seu evento.

Isso é tão grave que Divaldo poderia ter aconselhado, ao menos, que Dória não usasse a camiseta do evento, mas apenas um habitual paletó e camisa comum de colarinho. Ou que Divaldo se recusasse a oferecer o evento para a divulgação da "farinata" até que haja algum parecer oficial de nutricionistas e médicos de mais diversas áreas.

Nada foi feito, a "farinata" foi divulgada com o prefeito usando a camiseta do Você e a Paz e o nome de Divaldo, sugerindo um vínculo de imagem que, se não fosse a complacência da imprensa - ao menos a da esquerda, que perdeu uma boa chance de investigar o caso - , daria num escândalo de proporções imensas no "movimento espírita".

Não se trata, aqui, de crítica impiedosa, mas de uma questão de lógica, de responsabilidade. Divaldo acabou assumindo riscos ao permitir que no Você e a Paz se divulgasse o estranho alimento, contra o qual há denúncias de que teria envenenado internos na Missão Belém, em Jarinu, no interior paulista. E a camiseta de João Dória Jr. revela o vínculo de imagem do Você e a Paz e Divaldo Franco como apoiadores do estranho alimento.

Isso mostra o quanto os chamados "médiuns espíritas", já contestados por serem deturpadores da Doutrina Espírita - eles reduziram o legado kardeciano a um sub-Catolicismo mais antiquado - , são responsáveis pelas suas más decisões, afinal não se pode usar o prestígio religioso para cometer o chamado "calote moral", quando se considera que os "médiuns" só se responsabilizam pelos acertos, mas absolvidos até dos piores erros que cometem por decisão própria.

Sabemos que Francisco Cândido Xavier não é, nem de longe, o discípulo de Allan Kardec. É só comparar os livros de Chico Xavier com a obra kardeciana e se verá diferenças gritantes, nas quais soa constrangedor e até uma gafe atribuir o "médium" mineiro como "reencarnação" do pedagogo francês, quando se sabe que essa atribuição, marcada pela emotividade cega, não passa de uma patriotada barata para associar o Espiritismo francês ao ufanismo religioso brasileiro.

Mas aqui a gente focaliza em Divaldo Franco, que, apesar de parecer mais verossímil que Chico Xavier na sua encenação de suposto "bom espiritismo", às vezes expondo "corretamente" a teoria espírita com seu tom verborrágico de professor da República Velha (próprio dos tempos do saber hierárquico, pomposo, pedante e rebuscado), também não foi um bom aluno de Kardec. Algumas provas citamos a respeito disso, baseado em fatos e não em suposições:

1) JOSÉ HERCULANO PIRES DEFINIU DIVALDO FRANCO COMO ROUSTANGUISTA.

O jornalista José Herculano Pires, que melhor traduziu a obra de Kardec, buscando a maior fidelidade ao texto original francês, definiu Divaldo Franco como adepto fervoroso de Jean-Baptiste Roustaing. Isso pode ser comprovado nos livros de Divaldo, sempre dotados do mais forte ranço católico, semelhante ao que se vê em Os Quatro Evangelhos. A credibilidade de Herculano em definir Divaldo como roustanguista não deve ser subestimada, e se torna um fato bastante decisivo.

Divaldo tentou argumentar que "não tinha tempo" para ler a obra de J. B. Roustaing, na vã tentativa de escapar da associação. Mas a verdade é que o "médium" baiano não teve tempo mesmo é de ler a obra kardeciana, que contém conceitos contrários ao do igrejismo do idealizador do Você e a Paz.

2) DIVALDO FRANCO DETURPOU O ESPIRITISMO DE PROPÓSITO, ASSIM COMO CHICO XAVIER.

Muitos adeptos do "espiritismo" brasileiro ou mesmo os contestadores da deturpação com visão mais condescendente acreditam que Divaldo Franco e Chico Xavier deturparam o Espiritismo sem querer, supostamente pela "falta de tempo" de aprenderem melhor a Doutrina Espírita ou pelo "natural entusiasmo" de suas origens católicas. Acreditam que os dois deturparam o Espiritismo "por acidente", na vã esperança de inclui-los na recuperação dos postulados espíritas originais.

Essa tese não tem o menor cabimento, porque não se faz uma coisa sem querer por tão longo tempo e causando efeitos de amplitude inimaginável. Além de seu igrejismo ter rendido uma grande quantidade de livros, lançada durante décadas, ou de palestras e depoimentos de grande repercussão no Brasil e no mundo, atingindo um grande público de leitores, ouvintes ou espectadores, os dois mantiveram a catolicização mesmo depois de prometerem que "irão aprender melhor a obra de Kardec".

3) DIVALDO FRANCO DIVERGE DE ALLAN KARDEC QUANTO À IDEIA DE "DEUS".

Durante uma viagem ao Vaticano, no dia 29 de janeiro de 2015, Divaldo Franco tentou falar com o papa Francisco, que recebia um grupo variado de pessoas. Não houve oportunidade para isso, e Divaldo apenas foi cumprimentado pelo pontífice.

No entanto, Divaldo deixou um depoimento, no qual descreve a sua visão de Deus: "Ele falou belamente sobre a família, o papel do Pai, recordando-se que Deus é o nosso Pai e que os genitores masculinos deixam os filhos órfãos de sua assistência e, por isso, os jovens perdem o rumo. Plenamente correto".

O trecho da oratória do papa Francisco revela uma analogia antropomorfizada de Deus a uma figura masculina, sugerindo a associação entre Catolicismo e a ideologia do Patriarcado, e Divaldo Franco, diante da associação de Deus ao "genitor masculino", declarou que a ideia é "plenamente correta".

Isso contraria frontalmente a ideia que Allan Kardec publicou em O Livro dos Espíritos, colhida de um espírito mensageiro e da qual o pedagogo francês formulou uma pergunta "indelicada": "O que é Deus?", em vez do esperado "Quem é Deus?". A resposta foi essa: "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas".

Divaldo contrariou Kardec ao concordar com a visão católica de um "Deus humano e masculino", pois, ao acreditar num "Deus feito homem", não bastasse a ideia machista do "genitor masculino", rejeita a tese de "causa primária de todas as coisas", pois Deus, neste caso, deixa de ser uma "causa primária", submetendo-se a uma forma antropocêntrica que vai contra o conceito kardeciano.

4) DIVALDO FRANCO FAZ JUÍZO DE VALOR CONTRA REFUGIADOS DO ORIENTE MÉDIO, CONTRARIANDO O PRINCÍPIO DA CARIDADE E COMETENDO FALSO TESTEMUNHO.

Divaldo Franco disse o seguinte a respeito dos refugiados do Oriente Médio, ou seja, de cidadãos ou grupos sociais que fogem dos países africanos e asiáticos da região que vivem em conflitos sangrentos, pessoas que buscam uma vida mais pacífica na Europa, ainda que sob dificuldades:

"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os selvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu".

O terrível juízo de valor, dito em tom de mansuetude, vai contra o princípio do perdão e da caridade, ao evocar uma suposta encarnação antiga, de maneira generalizada, a pessoas dotadas de certa humildade, que, se soubessem da declaração do "sábio homem", se sentiriam ofendidas com tal declaração.

Imagine alguém fugindo da Síria em guerra, em busca de paz e serenidade, ainda que numa situação economicamente modesta, ser informado que um "importante orador religioso" o acusou de ter sido, em outra vida, espírito de tirano colonizador, acusação dada para "motivar" as dificuldades sofridas pelo pobre cidadão, que no contexto "vai pagar pelo que fez". Esse sujeito, que só quer uma vida digna e tranquila para si, vai se sentir ofendido e, se tivesse meios jurídicos em seu acesso, poderia muito bem processar o orador religioso por danos morais.

Outro agravante é que esse juízo de valor é sempre dado ao arrepio da Ciência Espírita, sem comprovações científicas, sem provas lógicas, mas de maneira puramente especulativa, através de uma relação simplória entre causa e efeito. Diante disso, Divaldo Franco prestou falso testemunho, fazendo uma acusação indevida que não consta de provas consistentes nem lógicas, declaradas apenas sob o sabor do prestígio religioso e de forma meramente especulativa. O que Divaldo fez neste caso também contraria os postulados kardecianos originais.

5) O APOIO DADO À "FARINATA" DE JOÃO DÓRIA JR. FOGE DO RIGOR DE EXAME ENSINADO PELO EXEMPLO DE ALLAN KARDEC.

Dito isso, o caso da "farinata" também prova que Divaldo Franco não é discípulo de Allan Kardec, porque faltou ao "médium" baiano a consciência verificadora e rigorosa do pedagogo francês. Kardec nunca deixaria alguém, por mais prestigiado que fosse, divulgar um produto de valor e origem duvidosa, e pediria para que houvesse antes um exame ou uma rigorosa documentação comprobatória, cancelando a divulgação do produto na ausência de verificação austera.

Ao deixar que o prefeito de São Paulo divulgasse a "farinata", permitindo até mesmo o vínculo de imagem do Você e a Paz e do nome de Divaldo Franco à divulgação desse alimento estranho, o "médium" contrariou Kardec pelo fato de não ter seguido o rigor de exame do pedagogo de Lyon, o que prova, em definitivo, uma conclusão contundente: Divaldo Franco NÃO é discípulo de Allan Kardec.

sábado, 4 de novembro de 2017

Fascinação obsessiva faz brasileiros nunca criticarem erros dos "médiuns"

 O "ESPIRITISMO" BRASILEIRO É FAMOSO POR USAR ESSES APELOS PARA AFASTAR OS CONTESTADORES E FAZER PREVALECER A DETURPAÇÃO.

Os brasileiros têm muito medo de criticar os "médiuns espíritas". Esse medo se dá por diversas razões. Uma é a suposição de que eles mantém contatos com espíritos superiores, um mito do qual não há confirmação de ordem científica ou de outra natureza, mas é tida como certa pela alegação dos próprios "médiuns", que se deixam valer pelo prestígio religioso e pela aceitação plena das elites.

Mas a principal razão dessa falta de coragem em enfrentar os "modernos sacerdotes" da fé medieval - até parece que o termo "médium" tem uma ligação semântica com a Idade Média, período que, pelo jeito, é alvo de nostalgia de muitos brasileiros - se deve por um apelo muito conhecido, mas advertido por Allan Kardec como um meio muito perigoso de manipular e atrair o apoio das pessoas.

Trata-se de um tipo de obsessão, chamado de "fascinação" ou "fascinação obsessiva". Ele está claramente descrito em O Livro dos Médiuns. Trata-se de uma forma de controlar as pessoas usando de apelos de persuasão muito fortes, mas sem intervir, aparentemente, na consciência das vítimas.

No caso dos "médiuns" brasileiros, que são ideologicamente formados pelo igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing - desconhecido de muitos "espíritas", mas mentor de muitos paradigmas religiosos da doutrina brasileira - , a fascinação obsessiva usa como instrumento de manipulação o recurso falacioso do Argumentum Ad Passiones, conhecido como "apelo à emoção".

O Argumentum Ad Passiones, ou simplesmente Ad Passiones, é um recurso considerado falacioso pelos estudiosos da linguagem humana, e se define com apelos fortemente emotivos que servem para dominar as pessoas. No caso dos "médiuns", são apelos que, na aparência, são agradáveis e até bastante comoventes, mas que se tornam bastante perigosos e podem corromper a percepção de mundo das pessoas, não raro traindo a lógica e o bom senso.

Só para percebermos o nível de atraso em que se encontram os brasileiros, o Ad Passiones havia sido prevenido até na Antiguidade. O famoso poema Odisseia, de Homero, falava da trajetória do bravo Ulisses, que certa vez foi tentado a seguir o canto das sereias, que tomado de profunda beleza o convidava à perdição, se afogando e morrendo no esforço de segui-las.

A alegoria das sereias se substitui por outras, mais sutis e menos eróticas, adaptando o sentido de "canto de sereia" ao contexto atual, de idosos não muito atraentes fisicamente, mas estão associados a outros apelos fantásticos: paisagens floridas, céu azul com nuvens brancas, sol brilhante, passarinhos sobrevoando flores, crianças sorridentes ou, então, crianças pobres chorando.

Muitos pensam que a ausência da figura feminina ou do apelo erótico anula o caráter traiçoeiro do Ad Passiones e que os apelos trazidos pela ideologia "espírita" são profundamente salutares e edificantes. Grande engano. O sentido do "canto da sereia" serve para as pessoas se submeterem ao imaginário roustanguista que o ideário "kardecista" (termo usado como eufemismo para a deturpação do Espiritismo) oferece através de apelos supostamente mais modestos.


IMAGEM EXTRAÍDA DE ESQUEMA DIDÁTICO EXPLICANDO A FASCINAÇÃO OBSESSIVA SOB A ÓTICA DA DOUTRINA ESPÍRITA ORIGINAL.

O Brasil ainda é muito receptivo a certos fenômenos que, no Primeiro Mundo, são reconhecidamente ardilosos. A overdose de informação, que é a sobrecarga de notícias, fatos e informações que desgastam o raciocínio humano, é aceita no Brasil como se fosse "liberdade de informação" e até "amplitude de conhecimento".

A domesticação das classes populares pela indústria do entretenimento, que idiotiza o povo pobre reduzindo-o a uma multidão patética, conformada e consumista, e o submete a valores sociais e morais retrógrados, é definida pelas elites intelectuais brasileiras como um "movimento libertário popular", uma suposta "cultura das periferias" na qual acredita-se na tese de suposto (e muito falso) fortalecimento cultural das pessoas que vivem em condições de pobreza relativa ou absoluta.

AD PASSIONES E "BOMBARDEIO DE AMOR": A PIOR ARMADILHA DOS DETURPADORES DO ESPIRITISMO

O Ad Passiones, que é o conjunto de apelos emocionais feitos para dominar a pessoa através da produção de comoções e alegrias aparentes, é desconhecido entre os estudiosos da manipulação mental no Brasil. Mas, no exterior, é reconhecido como um tipo de falácia que exerce, de forma envolvente, a dominação de outrem, tornando as demais pessoas submissas e crédulas.

Apesar do desconhecimento da expressão Ad Passiones, processos caraterísticos desse processo falacioso são acolhidos positivamente pelos brasileiros. O apelo das "belas palavras" e das "lindas imagens", além de estórias que lembram contos de fadas de pessoas com sofrimento extremo que, em dado momento, encontram a felicidade, são encaradas sem o menor grau de desconfiança e questionamento.

Para piorar, a aceitação se estende à forma mais perigosa de Ad Passiones, o "bombardeio de amor" (em inglês, love bombing). O apelo falacioso que simula emotividade extrema e forja um aparato de acolhimento fraternal em níveis supostamente amorosos e sensíveis, que causam comoção fácil às pessoas, é definido no Primeiro Mundo como um tipo extremamente perigoso de falácia e uma das piores armadilhas usadas para dominar as pessoas.

No Brasil, porém, esse perigoso processo é aceito como se fosse uma demonstração verdadeira de fraternidade, sem que as pessoas percebam os interesses por trás de um acolhimento feito por estranhos, que tão de repente demonstram acolhimento extremo, profunda emotividade e afeição imensa. Nem sequer o ditado popular "isso é bom demais para ser verdade" chega a ser cogitado pelas vítimas que veem nessa armadilha uma "manifestação do mais imenso amor".

Entidades religiosas em geral usam o "bombardeio de amor" como um recurso para atrair fiéis. Numa sociedade em que até pessoas com relativo convívio amistoso ou conjugal se tratam com indiferença, é preocupante que muitos não conseguem estranhar a "afeição extrema" em certos ambientes, com estranhos aparentemente oferecendo o que nem seus amigos de infância são capazes de oferecer.

No caso do "espiritismo" brasileiro, o "bombardeio de amor" permite a blindagem absoluta dos "médiuns", poupando-os de escândalos mesmo quando evidências mostram alguns deles envolvidos em incidentes estranhos, como Francisco Cândido Xavier defendendo a ditadura militar e Divaldo Franco permitindo que um alimento suspeito como a "farinata" de João Dória Jr. fosse lançada durante um evento "espírita".

Ninguém tornou-se capaz de imaginar que Chico Xavier sempre foi um conservador de direita (tendência compartilhada por Divaldo Franco e João de Deus, entre outros) e Divaldo Franco teve condições para cancelar a homenagem a João Dória Jr. por causa do alimento duvidoso, mas consentiu que ele fosse lançado, com o prefeito de São Paulo usando a camiseta do Você e a Paz, com o nome do "médium" escrito, o que sugere um vínculo de imagem nunca contestado pelo famoso orador.

No caso de Chico Xavier, chegou-se a ocorrer uma gafe de uma blogueira declaradamente comunista, entusiasmada com o filme As Mães de Chico Xavier, reclamar que o filme era "boicotado" pela grande mídia, mesmo sendo uma produção da Globo Filmes (da mesma empresa da Rede Globo de Televisão). Se ela visse a entrevista de seu ídolo no programa Pinga Fogo da TV Tupi, em 1971, hoje disponível no YouTube, ela cairia da cadeira, ao ouvir os comentários anticomunistas do "médium" mineiro.

Tomadas de emoção, as pessoas não conseguem perceber as coisas e caem em contradições, incompreensões e gafes constrangedoras. Mas se até a deturpação do Espiritismo francês no Brasil, com "adaptações" feitas ao arrepio do legado kardeciano, são aceitas por muitos como "pequenos exageros movidos pelo entusiasmo da religiosidade", então a coisa fica muito, muito séria. E, portanto, da mais extrema gravidade.

Afinal, com toda a alegação de "tradições religiosas" e pelo "saudável acolhimento da fé cristã", aceita-se que o Espiritismo, no Brasil, se rebaixe a um sub-Catolicismo tão convicto que hoje caminha para recuperar, não as prometidas bases kardecianas, mas as bases decadentes do Catolicismo jesuíta que vigorou no Brasil colonial. Pelo jeito, a relação semântica de "médium" e "medieval" vai muito além do prefixo gramatical.